Foto: Daniela Dimer

No começo, era apenas uma brincadeira. A menina colocava um jaleco branco e se transformava numa profissional da saúde, dedicada a cuidar de suas bonecas. O tempo tornou a cena uma realidade: há cinco anos, Gabrielli Garcia do Nascimento (26) se formou em Enfermagem, colocando o acolhimento e cuidado com os pacientes como sua missão. Atualmente, ela integra a equipe na linha de frente de combate ao coronavírus, em Gravataí.

A Enfermagem é desafiadora. Aqueles que descobrem a vocação para essa área, constatam isso no dia a dia. O olhar da enfermeira, como um todo, é o mais desafiador. A gente não foca em um único paciente: precisa ter o olhar 360°, como dizia uma professora da faculdade. É preciso saber as necessidades básicas e as de grande importância de cada paciente. Tem que saber administrar o setor, sempre buscando o bem-estar, tanto do paciente como do familiar, assim como o convívio e harmonia da equipe, para que o serviço ocorra da melhor maneira possível.” A rotina de trabalho é, muitas vezes, exaustiva, porém um enfermeiro demonstra sempre muita garra e força. Segundo Gabrielli, a sensação de missão cumprida ao término do plantão é motivadora. “Ao ir embora, sabendo que teu paciente foi bem assistido, que aquela família foi acolhida e orientada, que recebeu um olhar de afeto ou um agradecimento de coração, todo o cansaço passa! A tua carga interna de energia volta aos 100%. É como se isso fosse o nosso combustível.”

Conforme a enfermeira, batalhas e tropeços fazem parte do caminho, mas quem segue essa carreira se sente revigorado ao olhar para trás e perceber que ajudou um paciente e seus familiares. Durante a pandemia, ela tem visto situações emocionantes de quem precisou ficar longe das pessoas que ama para se tratar da Covid-19. A necessidade de distanciamento, como forma de prevenção ao coronavírus, fez com que os enfermeiros e demais profissionais da saúde tivessem que aprender a amparar os pacientes de forma diferente nos momentos em que eles sofrem com a saudade da família. Transmitir a mensagem de que vai ficar tudo bem passou a ser feita, especialmente, com o olhar. Acompanhar a alta e a alegria dos reencontros, após o isolamento, tem sido também um estímulo a trabalhar todos os dias com muito carinho e empenho. “Não tem como não ir às lágrimas junto. Durante muitos dias, você foi o pai, a mãe, o filho, o neto daquele paciente. Era o teu olhar amigo, as tuas palavras, o teu bom dia ou o teu boa noite que amenizava um pouco da saudade de casa. É como se a gente estivesse junto com eles, voltando para casa são e salvo.”

Quem atua no enfrentamento ao coronavírus também sente medo e angústia, por não saber como será a evolução da pandemia, no entanto, o compromisso com o cuidado e as vidas é considerado prioridade. “Fizemos um juramento e ele deve ser seguido. Por isso, todos os dias, fazemos o melhor que podemos. Não saber o fim da situação mundial assusta, mas nos faz crescer. Nos faz olhar para frente e ter muito mais fé e esperança do que ontem, principalmente a cada alta e recuperação ou a cada teste negativo”, comenta Gabrielli, que mantém todas as precauções para evitar o contágio e sente falta dos encontros com os amigos, dos passeios e viagens que fazia para recarregar as energias. Na opinião da enfermeira, ainda é preciso maior consciência quanto à letalidade da Covid-19 para que a situação não piore, visto que a oferta de leitos para tantos casos é uma dificuldade em todo o mundo. Ela ressalta que os protocolos de prevenção devem ser seguidos e que a fé também é essencial para superarmos este momento.

*Este é um dos textos que compõem a matéria de capa da Evidência de agosto.