Foto: Lucas Gomes

medo é fundamental para a sobrevivência. Se não fosse ele, por exemplo, não estaríamos obedecendo as normas sanitárias evitando contrair o coronavírus. Medo é uma reação a uma situação de perigo (real ou imaginária), que ocorre, geralmente, quando a criança sente-se ameaçada ou insegura frente a algo. Essa sensação é vivenciada de forma individual, ou seja, o que amedronta uma criança pode não amedrontar outra, da mesma faixa etária.

O medo é importante para o desenvolvimento emocional, em especial, quando os pequenos iniciam o processo de noção do eu, de si mesmo, de reconhecimento como pessoa, quando se deparam com um processo intenso e tenso de trilhar uma caminhada “independente” da mãe, dos pais. A criança se percebe, por vezes, sozinha e entende que precisa dar conta de si. Isso gera insegurança, um estado de fragilidade, portanto precisa de referência de segurança dos pais, cuidadores, para se acalmar.

O papel de pais para auxiliar no manejo desses temores se baseia naquilo que tanto já falamos por aqui: conhecer seus filhos e ter vínculo! Acompanhar seu desenvolvimento, compreender e observar o comportamento e procurar entender e identificar o que pode ter levado a tais medos. Isso exige dedicação e atenção aos sinais que a criança vai demonstrando. O velho e bom diálogo, valorizando o que os filhos verbalizam ou comunicam também é uma excelente oportunidade de reflexão para eles encontrarem saídas para seus medos “sozinhos”.

Na prática, o que se espera é que o pequeno aprenda a dominar seus temores e não ser dominado por eles, assim como espera-se que nós adultos façamos (e nem sempre conseguimos, não é mesmo?). A diferença é que na infância há uma percepção mais inocente dos acontecimentos, uma imaginação fértil e uma menor capacidade de discernimento dos fatos.

O medo costuma surgir diante de alguns elementos reais na vida da criança, como o médico, a creche ou escola, a alimentação, a violência, a doença ou morte de algum familiar, separação dos pais, nascimento de um irmão, etc. Essas causas reais geram um medo verdadeiro, mas também podem derivar para estados secundários, como medo de escuro, de monstros, entre outras coisas. Pode, ainda, haver medos que estejam relacionados a experiências traumáticas vividas pela criança, como, por exemplo, cair da bicicleta, ser mordida por um cachorro. Esse medo envolve um manejo específico, pois está ligado a uma situação de realidade e não questões fantasiosas.

Por isso é importante diferenciar os medos passageiros dos excessivos, também conhecidos como patológicos. Ou seja, quando chegam a causar reações fisiológicas e comportamentais na criança, como taquicardia, tremores, suor, sono agitado, dificuldades respiratórias e tonturas, problemas com as funções esfincterianas (xixi e cocô), diarreia, dor de barriga, vômito, etc. As possíveis reações comportamentais, como inibição, agressividade, irritabilidade ou comportamentos regressivos ou obsessivos, também podem prejudicar a rotina, agravando até virar fobias, caracterizadas por reações exageradas que fogem ao controle da criança. Quando o medo for muito invasivo e impedir a criança de suas necessidades básicas, como comer, dormir ou realizar tarefas; quando for desproporcional ao risco real; ou quando não consegue se acalmar ou se distrair é imprescindível consultar seu pediatra ou psicólogo especializado.

Idade de 0 a 7 meses

Medos possíveis comuns: Bebês sentem medo de barulhos inesperados e altos, de luzes fortes e intensas. Eles choram ou ficam irritadiços e agitados. Atenção: Evite expor a criança a qualquer estímulo intenso. Se não for possível, faça de maneira suave.

Idade de 7 meses a 1 ano e meio

Medos possíveis comuns: De pessoas estranhas, ambientes e objetos novos; barulhos altos; do lobo mau e personagens; riscos de queda; de perder os pais, pois acham que pessoas desaparecem quando não estão ao alcance de seus olhos. Atenção: Os pais devem estar presentes quando o bebê for exposto a situações novas.

Idade de 1 ano e meio a 3 anos

Medos possíveis comuns: De tempestades; do escuro; de pessoas com máscaras ou fantasias; dos monstros imaginários; de médico; de ficar sozinho; de carros barulhentos. Entrada na escola e situações que tirem a criança da rotina. É importante compreender que a criança se sente segura com aquela rotina que já conhece. Atenção: Ao encontrar alguém fantasiado, aproxime-se devagar e mostre que é apenas uma roupa diferente. Se ele não gostar, não force.

Idade de 3 a 5 anos

Medos possíveis comuns: A fase da imaginação, que pode se intensificar na hora de dormir. Seguem os medos de pessoas fantasiadas; palhaços; monstros; personagens de terror; fantasmas; bandidos; da escuridão; de animais; tempestades; de se perder e ser deixado na escola. Atenção: Respeite a criança, permita que se expresse, explique que nada lhe acontecerá de mal. Faça-a guardar ou decorar o telefone de um dos pais, ensine a pedir ajuda. Ela se sentirá mais segura.

A partir dos 6 anos

Medos possíveis comuns: Os medos se tornam mais reais e concretos, como ladrões, cachorros, se machucar, da morte, de dormir sozinho e associar que possa acontecer algo de ruim aos pais. Atenção: Diálogo para ensinar a se defender dos perigos, como piscina, estranhos, trânsito. A verdade, de forma gentil e delicada, sobre a morte.

A partir dos 8 anos

Medos possíveis comuns: Começam os medos de rejeição social e intelectual; de ir mal na escola e ser criticado. Atenção: Muito diálogo e rotina estruturada para que a criança possa estudar e sentir-se segura.

Dicas de ouro

– Para ajudar a acalmar, ofereça os objetos transicionais, que a farão se sentir segura, principalmente na hora de dormir. Pode ser um bichinho de pelúcia, um paninho, uma boneca de pano, uma cobertinha, algum companheiro que ajudará a acalmar a ansiedade e sustentar a falta dos pais na hora do medo.

– O medo do escuro pode ser amenizado com uma rotina antes de dormir, ficando ao lado dos pequenos, cantando canções ou contando histórias, e manter o uso de luzes noturnas suaves.

– Os adultos não devem amedrontar com histórias da bruxa, do velho do saco e outros. Isso confunde, pois, em outros momentos, irão dizer que bruxas não existem, mas, depois, ameaçam dizendo que ela virá pegar a criança caso ela não obedeça. É muito angustiante essas mensagens confusas.

– Também não deve superproteger e estimular o medo, como “vai se machucar se correr”, “vai bater a cabeça se rodopiar”. Dê limites, mas deixe o pequeno explorar a vida! Com o tempo, as crianças podem ficar mais receosas e medrosas. O medo pode ser paralisador e você não quer que seus filhos não se aventurem na vida por serem muito ansiosos. Resista à tentação de usar esse tipo de vocabulário! Diga a verdade sobre os perigos reais para que a própria criança possa construir suas noções de perigo. Como, por exemplo, piscina (boia), escada (corrimão), animais (podem morder). Não aterrorize, encoraje!

– A perda de alguém próximo pode dar origem a muitas dúvidas e anseios sobre a sua própria vida e a dos pais. Tenha paciência e compreensão, apoie, faça companhia, dê apoio, mantenha as rotinas, dedique mais tempo às atividades em conjunto e evite que a criança se sinta incompreendida, isolada e abandonada.

– É sempre importante lembrar que não se diz à criança que “não precisa ter medo…” ou “esse medo é bobo”! Não deboche! Valide os sentimentos do seu filho! Tente lembrar como foi a sua infância e os seus medos! Tenha empatia! Compreenda e tente lidar de forma respeitosa e próxima. Os pais precisam fornecer segurança para ela enfrentar os medos, para encarar, ser corajosa e descobrirem, juntos, estratégias para sentir-se melhor.

– Utilize jogos, livros ou brincadeiras para aliviar o que assusta a criança. Brinque muito e entre na fantasia. As experiências lúdicas ajudam a lidar com os medos. A brincadeira “treina” a criança para a vida real: elas se experimentam brincando. Pode construir histórias do monstro desastrado e amigo, como o filme Monstros S.A., e pode criar outras em que é o super-herói que enfrenta os medos… E tenha paciência para que ela consiga superar. Não apresse e não crie expectativas de que ela vá superar um medo em poucos dias.

– Trabalhe a autoconfiança do seu filho sendo presente, demonstrando compreensão e importância aos seus sentimentos. Leve a sério o que a criança sente porque isso demonstra que elas podem confiar nos pais para falar sobre seus assuntos mais secretos. Assim, cria um ambiente de vínculo e de confiança, que será muito importante por todo o desenvolvimento, em especial, na adolescência. Crianças autoconfiantes são curiosas, mais sociáveis e abertas ao novo. O medo sempre vai existir, mas comportamentos excessivos vão impedir que seu filho seja livre e mais feliz no futuro.

– Muitos dos medos são passageiros, surgem e desaparecem sem grande influência na vida da criança. Todos são administráveis: a presença dos pais já deixa a criança segura e o medo menor.

– Por favor: não seja cruel!! Jamais use o medo da criança como meio de punir! Não ameace deixá-lo sozinho no escuro ou com figuras que causam temor!

– Busque orientação de um psicólogo especializado para tirar dúvidas e melhorar seu manejo, caso você, pai ou mãe, esteja com muitas dúvidas e medos! Esse aconselhamento profissional pode ampliar bastante a sua forma de compreender e ajudar na criação dos seus pequenos. Lembre-se que todo herói é corajoso, porém também sente medo. A questão é aprender a lidar com ele!

*Este artigo é de autoria da psicóloga e mestranda clínica Lisiana Saltiel, especialista em Avaliação Psicológica, Psicoterapia Psicanalítica de Crianças e Adolescentes e em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem.