Sheila e Cristiano se conheceram na faculdade e concluíram a graduação em 1999, em Rio Grande. Foto: Arquivo Pessoal

O primeiro dia de aula na faculdade reservava mais do que o início do caminho profissional para Sheila Paula Mocellin (45) e Cristiano Ventura (46). Ela, nascida em Mariano Moro, e ele, natural de Caxias de Sul, se encontraram na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) quando ingressaram no curso de Medicina. Da conversa de colegas à amizade não levou muito tempo. Para se apaixonarem, também não. Mesmo assim, o namoro começou apenas no final do segundo ano. “E, desde então, estamos juntos. Como não poderia deixar de ser, algumas dificuldades apareceram ao longo do caminho, mas sempre conseguimos superar com muita paciência, amor e doação de ambos. Os frutos desse relacionamento são nossos dois filhos”, conta a mãe de Arthur (15) e Clara (9). Com 21 anos de carreira, o casal lida, assim como o mundo inteiro, com o desafio de enfrentar a pandemia de Covid-19. Como profissionais da saúde sabem dar valor à vida, por isso não se permitem perder a esperança e estão certos de que, apesar dos obstáculos, tudo isso vai passar!

Ela é oftalmologista. Foto: Marcelo Rodrigues

Sheila se especializou em Oftalmologia e Cristiano em Cardiologia. Eles trabalham em Gravataí desde 2004. Na época, o caxiense começou a trabalhar nos plantões do Hospital Dom João Becker, assumindo depois o departamento de avaliação e internação cardiológica ao lado do médico Fábio Martins. “Por mais de dez anos, atuamos com muita dedicação a esse serviço. Também tive uma breve passagem como diretor técnico do hospital. Quando já estávamos quase de malas prontas para irmos trabalhar em Santa Catarina, grandes amigos me convidaram para fazer parte do corpo clínico da Solaris”, recorda. Em 2011, os médicos se tornaram sócios da clínica. “Foi também um grande desafio, mas conseguimos, juntos, vencer. E hoje é motivo de muito orgulho, pois sabemos do excelente trabalho que a Solaris presta aos gravataienses, tendo-se tornado referência na região. Com um corpo clínico da mais alta estirpe, oferece consultas médicas eletivas nas mais diversas especialidades, além de atendimento de urgência clínica de segunda a segunda. No atual momento em que nos encontramos, estamos certos de que atendemos de forma muito dedicada e eficaz uma parcela significativa dos pacientes de Covid, adquirindo assim uma grande experiência e tratamentos assertivos para a população”, relata o cardiologista.

Ele é cardiologista. Foto: Marcelo Rodrigues

Vir para Gravataí foi uma grata surpresa para a oftalmologista, que se adaptou muito bem ao estilo de vida na cidade e, atualmente concilia o trabalho na Clínica Solaris com o Hospital Banco de Olhos de Porto Alegre, onde realiza cirurgias de catarata, transplante de córnea, entre outras. Dra. Sheila também opera na Clínica Diaglaser, na capital gaúcha. A família fixou residência na Aldeia em 2006. “Entendíamos que aqui era o nosso lugar. De fato, fizemos a escolha certa, pois, além do nosso crescimento profissional, aqui conseguimos fazer grandes amizades, ter a tranquilidade de morar em um local seguro, de ver nossos filhos crescerem saudáveis e felizes, convivendo com pessoas do bem”, frisa a profissional, que, assim como o esposo, fez uma reforma no consultório, no ano passado. Ambos os espaços possuem excelente estrutura e ambientes acolhedores, que garantem mais conforto aos pacientes. No caso do consultório oftalmológico, dispõe-se ainda de uma sala para adaptação de lentes de contato com todos os aparatos necessários para a segurança de quem está sendo atendido.

Casal ao lados dos filhos, Arthur e Clara. Foto: Arquivo Pessoal

Na cidade que escolheram para morar, os médicos recebem o reconhecimento pelo trabalho que desenvolvem, seja de pacientes ou de instituições. Dr. Cristiano, por exemplo, foi agraciado com o título de Cidadão Gravataiense, em 2015, pela Câmara de Vereadores. Aqui também acompanham, com orgulho, o crescimento dos filhos. “O Arthur é um adolescente que nos surpreende todos os dias com sua dedicação e comprometimento com os estudos. O primogênito conseguiu transformar nossas vidas e dar sentido a tudo aquilo que buscávamos como família. Depois veio a Clara, nossa princesa e grande responsável pelos momentos de descontração quando estamos reunidos. Ela é uma figurinha, muito ativa e cheia de ideias mirabolantes. Apaixonada pelos animais, conhece tudo sobre aves e cães”, conta a mãe.

A escolha profissional

Quando alguém descobre a sua vocação para a Medicina é porque tem a certeza de que salvar e proporcionar melhor qualidade de vida a outras pessoas será sempre o propósito. Sheila e Cristiano perceberam que essa era uma missão. Isso os motivou a escolher o curso. “Não tinha nenhum familiar médico e tampouco sabia direito das dificuldades que enfrentaria ao longo do caminho. Fiz faculdade federal por opção, por superação e por necessidade mesmo. Minha família jamais teria condições financeiras de me oferecer uma faculdade particular. Então, apostei todas as minhas fichas nesse sonho, estudei muito, confiei em mim e nessa possibilidade. E consegui a aprovação. A Medicina foi tudo aquilo que eu imaginava como profissão e muito, muito mais, pois me possibilita ter como ganho secundário a realização pessoal ao fazer a diferença na vida das pessoas. Isso é muito gratificante”, argumenta a marianense, que, após a graduação, serviu um ano na Marinha do Brasil, no porto naval de Rio Grande. Com o tempo, ela se interessou pela Oftalmologia, área na qual está sempre atualizando conhecimentos.

O caxiense pensava em estudar Medicina desde a infância. Chegou a fazer um curso técnico de torneiro mecânico, durante o ensino médio, mas, ao término, optou por tentar uma vaga na FURG. Assim como a esposa, com dedicação, foi aprovado e viveu bons momentos na universidade. “Tivemos a sorte de ter grandes mestres, a melhor turma que alguém poderia ter e fazer grandes amigos”, comenta a médica, acrescentando que muitas amizades se mantêm até hoje e que ambos são gratos ao que viveram naquela época e hoje reflete em suas atitudes.

A rotina e a pandemia

Viajar é algo que a família adora! Foto: Arquivo Pessoal

Quando a pandemia começou, todos tiveram que se adaptar a um novo contexto. Para o casal e os filhos não foi diferente. Contudo, apesar das más notícias associadas à doença e da preocupação com o agravamento da situação, eles têm em mente que é preciso tirar lições mesmo de momentos difíceis como esse. A oftalmologista explica que a grande demanda de trabalho e da família faz, muitas vezes, com que as pessoas não se enxerguem como os seres únicos que são. Isso deveria, todavia, ser repensado. “Esse momento me fez ressignificar muitas emoções e atitudes que até então nem as percebia verdadeiramente. Me fez filtrar muitos barulhos do mundo que nos cerca e passar a valorizar mais as coisas simples da vida. Viver mais com a intensidade que a vida precisa ser vivida, mas sem a loucura desenfreada que desestabiliza e não nos leva a lugar algum. Valorizar mais momentos que antes eram tão comuns e passaram a ser tão raros.”

Se, de um lado, o convívio social faz falta, de outro, o tempo em casa (agora maior) tem possibilitado à família fortalecer ainda mais os vínculos. “Temos conseguido nos manter unidos e somos gratos por nossa saúde e solidários aos que sofrem as dores das perdas de familiares ou aqueles vitimados pela crise financeira”, destaca Cristiano. A mudança na rotina também permite que os profissionais aproveitem o período para se dedicar um pouco mais aos estudos. “Nunca foi tão fácil fazer cursos de atualização, sentado da sala de casa, refletindo nisso a redução de custos e tempo dispendido para tal, conseguindo conciliar conhecimento e presença ou cuidados com a família”, afirma Sheila.

Os pais e os filhos gostam de viajar e se reunir com os familiares. Com os protocolos de prevenção à Covid-19 esses foram hábitos deixados de lado até que as atividades cotidianas possam ser retomadas com segurança. A rotina antes da pandemia tem feito falta, principalmente para as crianças, porém o casal revela que procura proporcionar momentos para descontração, que ajudam a enfrentar essa fase com tantas restrições. Eles assistem a filmes juntos, caminham pelo condomínio, brincam com os pets e jogam cartas para passar o tempo.

As doses de esperança

Capa da edição de abril.

Como profissionais da área da saúde, os especialistas já foram vacinados, porém alertam que os cuidados para evitar o coronavírus seguem os mesmos e cada um deve fazer a sua parte, respeitando os protocolos sanitários e evitando as aglomerações! Dr. Cristiano, que atende mais pacientes com Covid-19, admite que o trabalho dos médicos ficou mais exaustivo e angustiante durante a pandemia, mas reforça que é importante manter a esperança. “Sempre lidamos com a dúvida na Medicina, com limitações técnico-estruturais e físicas e, de certa forma, nos adaptamos a elas e conseguíamos encontrar caminhos que se mostravam úteis e resolutivos dentro daquele cenário. Na atualidade, isso não acontece. Não temos cartas na manga para amenizar as dificuldades da sobrecarga do sistema de saúde. Todos os dias, sofremos com a piora inevitável dos pacientes que não têm conseguido um atendimento mais intensivo no exato momento em que poderíamos evitar o agravamento do quadro clínico. Temos a esperança de que a vacinação em massa e a comprovação de sucesso de algumas medicações experimentais tragam o alento a todos nós. Para suportar tudo isso, encontramos conforto na gratidão dos pacientes, no incentivo dos amigos e nas conversas com Deus.”

Quando tudo isso passar…

Os médicos querem reencontrar e abraçar as pessoas queridas, voltar a apertar a mão dos pacientes, reunir os amigos em uma confraternização, retomar as viagens, conhecer lugares diferentes, ir a shows. Os filhos querem a rotina escolar como antes. “O Arthur tem tido uma rotina exaustiva de aulas on-line, pois, estando no ensino médio, a quantidade de conteúdo é gigantesca e não bastasse, ainda faz curso de idiomas (alemão e inglês) extracurricular, entre outras atividades. Isso tem sido muito desgastante para todos, mas para os adolescentes as perdas em relações interpessoais são muito significativas. A Clara também tem demonstrado todos os dias saudade da escola, dos amigos, da rotina de aprendizado que antes acontecia. Esperamos que, em breve, estejam felizes em suas escolas, aprendendo e se desenvolvendo e que essa pandemia passe a ser apenas um lembrança longínqua em suas vidas”, diz a sócia-proprietária da Clínica Solaris.

As atividades prediletas

O trabalho ocupa grande parte do tempo de Sheila e Cristiano, e eles cumprem suas atribuições com muito amor e dedicação. Mas a oftalmologista e o esposo também gostam de aproveitar os dias livres com outras atividades especiais. Ela, por exemplo, tem vários hobbies, mas de um fala com mais entusiasmo. “Acho que o que mais me motiva hoje é a decoração de interiores. Adoro uma mesa posta, uma bandeja de café… aliás, as lojas de artigos para casa me atraem muito mais que as de roupa, e olha que gosto de me arrumar bem! Aproveito todas as datas comemorativas para enfeitar a casa com objetos relacionados ao tema.” Cuidar do jardim é outra tarefa que a marianense aprecia. Pensa, inclusive, em aprofundar os conhecimentos nesta área, nos próximos anos.

O casal gosta de jogar beach tennis e o cardiologista também tem a pescaria e o pôquer entre as atividades favoritas. “E, durante a pandemia, me descobri como cozinheiro. Tenho feito alguns pratos que são de dar inveja aos chefes de cozinha!”, diz. O especialista revela que, por muitos anos, sonhou em ter uma motocicleta, pois isto remetia à sua infância, quando acompanhava as aventuras do irmão. “Mas esse hobby durou pouco tempo. Em 2018, sofremos um grave acidente e agora me sinto mais seguro no pôquer mesmo!”

Voltar no tempo?

Muita gente afirma que gostaria de voltar no tempo e fazer algumas coisas de forma diferente. Essa não é a vontade deste casal. Eles contam que a trajetória até aqui foi de felicidade e muitos aprendizados. Momentos difíceis existiram, outros ainda virão. Contudo, mesmo nas imperfeições, é possível encontrar sentido e lições de vida.

*Esta é a reportagem de capa da Evidência deste mês.