Foto: João Alves

Estive no Beach Park anos atrás. O maior parque aquático da América Latina, que fica a 27 quilômetros de Fortaleza, possuía também o maior toboágua (à época), com 41m de altura, chamado de Insano. Para chegar no topo e fazer aquela descida vertical tinha uma escadaria enorme. Subi as escadas resoluto, só que não. Quando cheguei na metade do caminho, perdi a coragem e resolvi voltar. Acontece que tinha uma fila de jovens atrás de mim e fiquei com vergonha. Subi até o fim e, resignado e quase me borrando, enfrentei aquele desafio. Cheguei embaixo extasiado e feliz pelo resultado, mas dificilmente andarei novamente. O nome da atração é apropriado e se aplica ao momento em que vivemos. O mínimo que se espera de pessoas de mente sã, como governadores, prefeitos, secretários e empresários, é que não aproveitem o caos para roubar. Infelizmente, a Polícia Federal identificou o contrário em diferentes Estados. Além disso, é muito insensata essa disputa política acirrada, desprovida de lucidez, pela qual passamos.

Parecemos uma sociedade demente. Acrescente-se que, especialmente durante uma pandemia, o correto seria que nossas lideranças estivessem alinhadas, com estratégias conjuntas, de modo a contribuir para que, mais rapidamente, conseguíssemos superar as dificuldades. Uma pessoa demente não está no domínio de suas faculdades mentais. O que mais preocupa é que, aparentemente, as lideranças, assim como a maior parte da sociedade, estão com saúde perfeita e no domínio de suas faculdades mentais, mas gastam seu tempo nessa disputa ideológica na qual não saem vitoriosas, apenas produzem pessoas doentes e incapazes de superar seus problemas. O bom do Insano do Beach Park é que, em alguns segundos, aquela tortura termina. O ruim deste momento do Brasil é que não sabemos quando essa loucura vai terminar.

Achatamento da curva

Durante a pandemia, ouvimos falar no ciclo de contágio do coronavírus e assistimos muitos gráficos com a curva de contaminação. A quarentena veio para achatar a curva de contágio visando ganhar tempo para o reforço dos hospitais. Num contágio rápido, o pico ficaria alto e não seria possível atender os casos mais graves. As organizações e as pessoas também possuem um ciclo de vida. Todas elas nascem, evoluem e morrem. Algumas empresas, por uma série de motivos, tem uma vida breve, como num gráfico no qual o pico chega muito rápido. Outras conseguem sobreviver por um tempo maior.

Precisamos criar condições para que essa curva do desenvolvimento das empresas seja alongada, principalmente numa época de pandemia, mudanças sociais e tecnológicas, que ameaçam a sua sobrevivência.  Já as pessoas que se cuidam estão vivendo mais tempo. Com o avanço da medicina e da qualidade de vida, chegaremos aos 100 anos com facilidade. A curva de vida dos humanos foi achatada, de modo que temos o desafio de ocupar melhor esse tempo alongado. Como viveremos mais, é salutar criar um ambiente mais lúcido, ético, de convivência pacífica e de respeito, sem aceitar falcatruas, especialmente das lideranças. Que sejam insanos apenas os brinquedos. A sociedade precisa ser honesta, alegre, coerente e saudável, porque, embora possamos viver mais, a vida passa muito depressa para nos ocuparmos discutindo sem fundamento.

*Artigo publicado na edição de julho da Revista Evidência. José Paulo da Rosa é diretor regional do Senac-RS e do Sesc-RS.