Foto: João Alves

Qual é o meu sonho? É aquele feito com massa consistente, adocicado e frito na temperatura adequada, de modo a ficar leve e sequinho. O de Santo Antônio, de origem portuguesa, tem uma massa aerada, oca por dentro. É bom, mas prefiro o outro.  Possuo especialização em fabricação de massas alimentícias pela Universidade de Milão. Ou seja, tenho lá meus conhecimentos científicos. Na gastronomia, notadamente na confeitaria, a fritura é utilizada para uma série de alimentos: carnes, peixes, pastéis, bolinhos de bacalhau, sonhos. Feitos da maneira correta, ficam uma delícia.

Saindo da culinária e entrando na gestão, aprendi a valorizar a formação de equipe. O sucesso de uma liderança começa com a escolha correta de quem estará no seu time. É importante investir tempo na seleção, para que os eleitos tenham o perfil indicado. Todavia, mesmo com muitos cuidados, por vezes há erro na escolha, mas o bom líder sabe fazer as mudanças necessárias. Quando é preciso trocar pessoas, ou mesmo dispensá-las, é importante ser justo, transparente, correto e objetivo. Os contratos preveem isso, com cláusulas que permitem às partes proporem o rompimento. É necessário saber usá-las. Quem não tem experiência ou competência, coloca os pés pelas mãos. Um dos comportamentos observados nessas condições é, pela incapacidade de tomar uma decisão madura, o líder fritar o liderado que deseja despedir. Nesse caso, precisamos esquecer a beleza da fritura em óleo quente, e perceber a tristeza característica do bullying, das indiretas, da bola nas costas, até que a decisão seja consumada.

Meu sonho, afora aquele citado no início, é de que as lideranças (presidente, governadores, prefeitos e tantos outros da iniciativa privada) saibam formar equipes de excelência, bem como tenham a competência para realizar as mudanças necessárias, sem fazer uso da fritura. Deixem essa prática apenas para a gastronomia.

Sangria

Sangria é o nome de uma bebida característica da Espanha, que leva vinho, frutas e açúcar. É servida gelada. Sangria também é uma técnica onde uma veia é cortada para verter o sangue. Na política, em alguns momentos, os adversários percebem que o eleito (prefeito, governador ou presidente) está tão mal que um processo de impeachment pode ser levado a efeito, mas aí aparecem aqueles que entendem que é melhor deixar sangrar até o final do mandato. Assemelha-se a uma fritura. Aconteceu com Lula durante o mensalão (que acabou elegendo Dilma) e já há quem fale disso a respeito de Bolsonaro, por conta da pandemia. Quem sofre é a sociedade. Ao invés de contarmos com representantes preocupados com o melhor para o país, muitas vezes temos vereadores/deputados interessados no próprio futuro, incapazes de tomar a decisão na hora certa, ou de trabalhar para ajudar o país. Também aqui, quando isso acontece, o problema é nosso, que não soubemos escolher os representantes certos. A oposição quer espaço$ e o governo quer avançar. E a sociedade, detentora do poder do voto, fica no meio dessa fritura, dessa sangria, desprovida de um sistema político honesto.  Acho que vou ali ao lado da Igreja Matriz, no Restaurante Sonho Gastronomia, comer um sonho tradicional, mesmo sendo de Santo Antônio, com canela e doce de leite, e jogar conversa fora com o Cláudio Fonseca. Sangria, nesse caso, só para refrescar.

*Artigo publicado na Revista Evidência deste mês. José Paulo da Rosa é diretor regional do Senac-RS e do Sesc-RS.