Foto: Arquivo Pessoal

O texto a seguir é de autoria da médica pneumologista Liana Ferreira Corrêa:

A Covid-19 é uma doença causada pelo coronavírus, que apresenta amplo quadro clínico, desde infecções assintomáticas até quadros graves. Sintomas comuns incluem febre, tosse, nariz escorrendo, dor no corpo e diarreia. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a maioria (cerca de 80%) dos pacientes com Covid-19 pode ser assintomático ou oligossintomático (com poucos sintomas), e aproximadamente 20% dos casos requerem atendimento hospitalar por apresentarem dificuldade respiratória, dos quais aproximadamente 5% podem necessitar de suporte ventilatório. Pessoas com mais de 60 anos e pessoas com comorbidades médicas (como pressão alta, doenças pulmonares, câncer ou diabetes) estão mais suscetíveis a desenvolver casos mais severos da doença.

A Covid-19 está sendo uma experiência profissional desafiadora. Envolvemo-nos com os pacientes e suas famílias e fazemos o máximo através de ligações, chamadas de vídeo e fotos para que se sintam mais acolhidos e próximos, mesmo nesse momento difícil e em ambiente de vulnerabilidade. Sempre nos sensibilizamos com os casos, ficamos arrasados quando levamos alguém para UTI ou o paciente acaba falecendo, mas tentamos não nos fragilizarmos para podermos cuidar do próximo. Há dias de exaustão, mais mental/emocional do que física, mas o carinho e a gratidão das famílias compensam. Muitos dos pacientes são dependentes, inclusive para comer, e a enfermagem auxilia em tudo: comida, banho, troca de fraldas, verificação de sinais e medicações. Eles são os verdadeiros heróis da nossa enfermaria. Eu trabalho todos os dias, de segunda a segunda e feriados. Nunca peguei o vírus e realmente acredito que Deus está no meu lado nessa caminhada, que, apesar de cansativa, é gratificante e recompensadora.

Muitas pessoas têm dúvidas quanto ao período de isolamento. Em Gravataí, os pacientes devem se afastar por dez dias se apresentarem sintomas leves, sem necessidade de UTI, e 20 dias para casos graves. Uma dúvida frequente é como agir caso alguém que more com outras pessoas fique doente. Em geral, recomenda-se que os demais moradores da residência durmam em outro cômodo, seguindo também as recomendações de distância mínima de um metro, limpar os móveis da casa frequentemente com água sanitária ou álcool 70% e manter distanciamento social, conforme orientação médica. Sobre a imunidade pós-doença, o assunto ainda é controverso. Não se sabe se existe imunidade duradoura ou se de apenas três meses. A pergunta mais realizada é por quanto tempo podem persistir sintomas como a tosse seca, a dor nas costas e o cansaço após a infecção. Isso varia muito para cada paciente, mas esses sintomas podem persistir por até três meses, mesmo não tendo mais o risco de transmissão. Algo que não é dúvida, mas que se difunde falsamente é que usar luvas proporciona proteção. Na verdade, o uso de luvas impede que possamos higienizar as mãos com maior frequência e acabamos contaminando todos os itens que carregamos conosco na rua, sem contar nós mesmos ao passarmos a mão no rosto. O mesmo cuidado deveria ser tomado em restaurantes – garçons não deveriam usar luvas e, sim, higienizar frequentemente as mãos, como todos.

Ansiedade e medo fazem parte, infelizmente, dessa pandemia que estamos vivendo. Tentar manter a saúde mental é fundamental. O primeiro conselho é procurar não assistir televisão. A televisão está fornecendo informações sobre a Covid-19, mas, às vezes, de forma sensacionalista, deixando muitos pacientes, literalmente, em pânico. Oriento ler um bom livro, assistir a filmes, fazer videochamadas com a família e caminhar na rua 30 minutos por dia, para renovar os horizontes.

Os próximos capítulos dessa pandemia ainda são um mistério. Vivemos 2020 adiando mês após mês o final da pandemia. Acredito que, se ocorreram grandes reuniões familiares de final de ano, ainda teremos muitos casos em 2021. O que pode mudar esse cenário é o surgimento das vacinas. Esta é uma corrida contra o tempo – uma doença de pouco mais de um ano, mas com grande mortalidade e impacto socioeconômico. Existem várias indústrias fabricando vacinas com resultados animadores. Mas obviamente é muito cedo para termos maiores respostas.  Contraponto a se considerar é que o vírus da imunodeficiência humana (HIV) existe há anos e até hoje não temos nenhuma vacina para combatê-lo. Eu orientarei meus pacientes a realizarem a vacina e a manterem os cuidados de segurança que já estão acostumados, mesmo se vacinados.

*Liana é gravataiense, tem 34 anos, formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. É especialista em Clínica Médica pela Santa Casa de Porto Alegre e em Pneumologia pelo Hospital São Lucas da PUCRS. Está concluindo o mestrado em Hipertensão Pulmonar.  Atualmente, trabalha no Hospital Dom João Becker, onde é a responsável pela enfermaria Covid-19, na Clínica Solaris, além dos hospitais Mãe de Deus e São Lucas da PUCRS, em ambulatório, internação e pesquisa clínica.