Foto: Revista Evidência

Na edição de setembro, a Evidência traz uma entrevista com o médico Luis Felipe Benassuly Guapyassu Machado, que presta atendimento nos hospitais Dom João Becker e Universitário de Canoas. Ele atua como clínico geral, além de ser pós-graduado em Cardiologia pela Universidade Corporativa Mãe de Deus. O cardiologista comenta questões sobre pandemia de Covid-19 e as perspectivas quanto ao surgimento de mais casos e a descoberta de um tratamento eficaz para a doença.

Há meses, acompanhamos a propagação da Covid-19 pelo mundo, mas ainda há muitas incertezas em relação ao vírus. A todo instante repercutem informações diferentes sobre a doença. Afinal, sobre quais aspectos podemos ter certeza?

“Temos, ainda, muitas dúvidas e pouquíssimas certezas! A única certeza que temos é de que não há tratamento! É uma doença sobre a qual ainda estamos aprendendo. Os coronavírus são uma grande família de vírus, que infectam algumas espécies de animais. Raramente, os que infectam animais podem infectar pessoas. Entretanto, algumas cepas do vírus sofrem mutações que podem infectar as pessoas, como é o exemplo do MERS-CoV (Síndrome respiratória do Oriente Médio), em 2012, e SARS-CoV (Síndrome Respiratória Aguda Grave), identificado pela primeira vez em 2002, além da nova cepa denominada SARS-CoV2, identificada em Wuhan, na China, em 2019, e responsável pela pandemia. Esta cepa tem uma alta transmissibilidade e virulência, sendo os idosos e pessoas com doenças crônicas mais suscetíveis a desenvolver quadros graves da doença, embora todos estejamos sujeitos a uma apresentação mais grave. Temos observado pessoas fora da faixa de risco e jovens com apresentações graves da doença em várias partes do mundo.”

No Brasil, assim como em vários países, têm-se discutido alternativas para o tratamento. A prescrição de determinados medicamentos tem gerado divergências, no entanto. Qual sua opinião a respeito?

“Não existe tratamento para a Covid-19. Ainda não existe nenhuma vacina capaz de prevenir que o SARS-CoV2 continue a se disseminar, tampouco existe medicamento antiviral específico para ele. Exatamente por não existir um tratamento específico, a comunidade científica mundial tem realizado diversos estudos com drogas conhecidas, porém nenhuma se mostrou realmente eficaz. Alguns estudos recentes mostram benefícios no paciente hospitalizado e no paciente grave, internado na UTI, como o uso da dexametasona, que pareceu efetiva na diminuição dos óbitos, e a técnica chamada de transfusão passiva de imunidade, que consiste em transfundir plasma com anticorpos SARS-CoV2, mas dentro de critérios bem definidos para o receptor, ou seja, não está disponível para todos os pacientes graves. Considerando as evidências científicas conhecidas até o momento para esta doença, não indico usar medicamentos dos quais não temos comprovação clínica, isto é, que tenha segurança e efetividade de tratamento. A maioria das pessoas que vão ser ou foram contaminadas pela Covid-19 são assintomáticas ou com sintomas leves e não precisarão de tratamento com nenhum medicamento. Os que venham a precisar de hospitalização poderão necessitar de tratamento de acordo com o protocolo hospitalar. Hoje, a maioria dos protocolos contraindicam o uso da cloroquina e/ou hidroxicloroquina por não ter mostrado eficácia e ter aumentado o índice de óbito. Minha opinião é avaliar individualmente cada paciente e tratá-lo conforme os sinais e sintomas verificados, considerando as informações científicas conhecidas para não lhe causar dano.”

Havia uma estimativa de que até setembro, a curva epidêmica começasse a cair no país. Você concorda?

“Aparentemente, acredito que estamos em um momento de estabilidade de apresentação de casos novos e até sinais de queda de novos registros. Entretanto, temos uma falsa sensação de segurança por parte de algumas pessoas, que, diante da diminuição das restrições, aumentam os contatos na rua, no comércio. Consequentemente, poderemos ver novas ondas de casos nas próximas semanas.”

Até quando serão necessárias as principais medidas de prevenção?

“Acredito que as medidas de prevenção como uso de máscaras, higienização das mãos e ambientes e distanciamento social ainda vão durar bastante tempo, pois temos que diminuir a forma de transmissibilidade e propagação do vírus.”

Como conciliar a economia e os protocolos de prevenção?

“Sobre as medidas de restrição, mais duras ao comércio e negócios, eu ainda não consegui formar uma opinião firme sobre isso, pois, ao mesmo tempo que vejo que algumas pessoas não sabem respeitar a liberdade do uso destes ambientes, percebo que não é possível mantê-los fechados: as pessoas precisam trabalhar. Muitas vezes, a única fonte de renda da família é aquele negócio; os empregos vinculados a ele sustentam outras famílias. Na minha opinião, é possível conciliar com educação e entendimento de que é um período que depende da atitude de cada um de nós.”

Sobre os casos em Gravataí, quais suas perspectivas?

“Em Gravataí, segundo dados do Governo do Estado, temos uma taxa de incidência elevada. Acredito que ainda estaremos diagnosticando novos casos nos próximos meses. Penso que somente uma vacina poderá nos tirar desta situação.”

Há muita gente argumentando que, mesmo após a pandemia, a mudança de hábitos pela população em geral e muitos dos protocolos exigidos para o desempenho das atividades econômicas devem se manter. Imagina que isso se confirmará?

“Sim, por algum tempo, deverá se manter certo grau de restrição, pelo menos até conseguirmos um nível de imunização da população. Sobre os hábitos da população, muitas doenças são transmitidas pela falta de higiene ou pelo descuido com os cuidados simples como lavar as mãos, proteger a boca/nariz ao tossir e/ou espirrar. Espero que este período nos faça manter estes cuidados básicos.”

Como está sendo trabalhar diante desse cenário novo proveniente da pandemia de Covid-19?

“Trabalhar neste período é um desafio diário. Estou trabalhando mais no ambiente hospitalar, fechei consultório e atualmente me dedico à rotina da UTI adulto no Hospital Dom João Becker, e na UTI Covid do Hospital Universitário de Canoas, além dos plantões. As informações mudam com muita rapidez. Há muitas fake news, irresponsabilidade de governantes e gestores que promovem tratamentos errôneos, entre outros aspectos.”