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Texto de Cimara Valim de Melo

Sou tão misteriosa que não me entendo.

Clarice Lispector

Em uma literatura cuja história está por vezes afeita à tradição e aos chamados ‘períodos literários’, ninguém melhor do que Clarice Lispector para subverter a ordem das coisas, construindo o próprio espaço no cânone por meio de uma produção arrojada e profunda, a qual choca, hipnotiza e questiona o leitor. Segundo o crítico Alfredo Bosi (1970), a ficção de Clarice distingue-se das demais pela tensão transfigurada existente entre as personagens e o mundo, pois nela prevalece a visão metafísica da realidade, acompanhada de uma linguagem que entrelaça os gêneros narrativo, poético e dramático, colocando a autora em uma posição única na literatura brasileira.

Lispector soube como ninguém apreender a atmosfera íntima do ser humano. Sua habilidade de mergulhar nas profundezas do ser pode ser comparada a de escritores como Dostoiévski, Virginia Woolf e Marcel Proust. Em sua produção, o que entra em jogo é o processo da vida, geralmente mutilada por desilusões, lutas diárias e pequenas violências a que o indivíduo é submetido. Nela, está presente o mistério das relações, dos sentimentos e dos caminhos secretos da natureza, percebidos com uma intensa lucidez, a ofuscar o olhar do leitor.

O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal. (LISPECTOR, 2004)

Conhecer aspectos da vida de Clarice Lispector é algo relevante para compreendermos a sua complexidade, e um texto exemplar nesse sentido é o livro Clarice: uma vida que se conta, de Nadia Gotlib (2010). Nascida na Ucrânia em 1920 – há exatamente um século – migrou, ainda pequena, com a família para o nordeste do Brasil, onde viveu por doze anos. Ainda na infância, perdeu a mãe e passou por experiências educacionais distintas: foi matriculada no Collegio Hebreo Idish Brasileiro, ingressando, a seguir, no Ginásio Pernambuco. Escreveu seu primeiro texto, a peça Pobre menina rica, ainda enquanto estudante.

Em 1935, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Clarice continuou os estudos e teve maior contato com as literaturas brasileira e estrangeira. Em 1939, iniciou o curso de graduação na Faculdade Nacional de Direito. Após a morte do pai, intensificou-se a produção clariceana, com destaque ao gênero narrativo. Publicou o primeiro romance, Perto do coração selvagem, em 1942, o qual foi premiado e agraciado pela crítica da época, em especial pelo potencial estético da obra. No ano seguinte, concluiu o curso de Direito e casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem viajou pela Europa em plena Segunda Guerra Mundial, experiência que marcou com força sua vida. Em 1946, mudou-se para a Suíça, a fim de acompanhar o marido – período de inadaptação à escritora, que se correspondia com familiares e amigos do Brasil, como Fernando Sabino e Lúcio Cardoso. Nessa época, nasceu seu primeiro filho, Pedro, e foi publicado o livro A cidade sitiada.

Em 1953, nasceu seu segundo filho, Paulo, nos Estados Unidos, cujos padrinhos foram nada menos que Mafalda e Erico Veríssimo. Com dificuldades para conciliar sua vida à do marido, separou-se em 1959. No ano seguinte, publicou seu primeiro livro de contos, Laços de família, vencedor do Prêmio Jabuti. Seus próximos livros seriam A legião estrangeira e A paixão segundo G.H. – uma verdadeira revolução literária para a época.

Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão. (LISPECTOR, 1980, p. 10)

Nos anos de 1960, ao dormir com um cigarro aceso, Clarice provocou um incêndio, que destruiu seu quarto e quase a levou à morte, deixando-a hospitalizada por meses. Após restabelecer-se, escreveu os livros infantis O mistério do coelho pensante e A mulher que matou os peixes. O seu livro mais romântico, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, foi publicado em 1969 e recebeu o Prêmio Golfinho de Ouro. Dois anos depois, Felicidade clandestina foi publicada, recebendo forte aceitação do público. Com ele, surgiu o romance Água viva, cuja estrutura entrelaça gêneros literários e aproxima diferentes artes, como literatura, música e artes visuais.

Clarice Lispector recebeu pelo conjunto de sua obra o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal em 1976. Um ano depois, escreveu A hora da estrela, último publicado em vida. Em dezembro de 1977, veio a falecer, vítima de um câncer. Além de obras póstumas e adaptações para o cinema e o teatro, a autora publicou mais de vinte livros, entre romances, contos, crônicas, novelas e textos infantis, influenciando vastamente as gerações futuras de escritores. Também teve atuação como tradutora, vertendo para o português obras como O refrato de Dorian Grau, de Oscar Wilde, e Luzes acesas, de Bella Chagall.

Serei eterna depois de minha morte? Ou sou apenas instância?

Eu sou essencialmente uma contraditória.

O sereno grafismo abstrato.

A banalidade como tema.

Oh como aspirava uma lânguida vida.

Árvore distorcida: bruxaria

(LISPECTOR, 1999, p. 151)

Quem foi Clarice Lispector? Tal pergunta encontra respostas fragmentárias, pois a autora constituiu um verdadeiro mistério em termos de produção escrita, reflexo de sua densa personalidade. As sensações de exílio e incompletude são percebidas em sua obra, pela qual a literatura intimista transfigura-se, movendo-se para um plano ainda mais profundo que o das dissonâncias entre o indivíduo e o mundo. Clarice vai além do compromisso com o cotidiano e a consciência: sua revelação metafísica, epifânica e metalinguística extravasa pelo literário, no qual observamos a incapacidade de apreender o mundo e o homem por inteiro.

Em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (LISPECTOR, 1998), por exemplo, o embate no interior de Lóris, provocado por Ulisses, é permeado pelas palavras, mas se processa em um terreno muito mais obscuro e abstrato. O silêncio interior, a sensação ininteligível de “estar sendo” e a redescoberta de si conduzem a protagonista à mais difícil das perguntas: “Quem sou eu?” Assim, muitos aprendizados acontecem, e um deles é aprender a viver com o que não se entende.

Já em A hora da estrela, a personagem Macabéa, nordestina que trabalha no Rio de Janeiro e leva uma vida humilde, desencadeia em Rodrigo (escritor/narrador) a reflexão sobre as fronteiras entre o real e o imaginário, o simples e o complexo, o normal e o insólito, o objeto e o sujeito. O diferencial, existente na construção de Macabéa e que a torna e singular, é a construção da plenitude do ser por meio da expressão do vazio a ele inerente.

Assim, o ritmo desestruturante de Clarice Lispector conduz o leitor à subjetividade do indivíduo em seus desafios cotidianos, mas não para por aí. Expressa, através de um intimismo voraz, questões caras à sociedade brasileira, como as contradições do país em seus aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais. Projeta o universo particular do enredo à universalidade, ao questionamento da ordem e da própria literatura. Em seu legado, chegamos à obscuridade do ser, à busca incessante por sentido e ao humano imperfeito que de que somos feitos.

 Amar os outros é a única salvação individual que conheço:

ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

(LISPECTOR, 1975, p. XV e XVI) 

Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970

GOTLIB, Nadia Battella. Clarice: uma vida que se conta. 6.ed. São Paulo: EDUSP, 2010.

LISPECTOR, Clarice. As três experiências. In: GOMES, Renato Cordeiro Gomes (org.) Clarice Lispector: Seleta. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1975.

LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de. Janeiro: Rocco, 1998.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de. Janeiro: Rocco, 1999.

LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.