Família: Taís com Brenda e Dionatan. Foto: Arquivo Pessoal

Aquele que descobre a vocação profissional, compreende com facilidade que o trabalho lhe trará desafios, nem sempre as coisas sairão como se espera, porém, o sentimento de missão cumprida prevalecerá. É assim para a técnica de Enfermagem Taís Teixeira Barcellos (32), que há mais de três anos trabalha no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Na batalha contra o coronavírus, ela está na linha de frente. Medo? A profissional tem, assim como muitos colegas. No entanto, o amor pelo ofício é maior. “Lutamos contra o imprevisível, mas, ao mesmo tempo, somos muito confiantes na nossa assistência e profissionalismo. Quando há amor envolvido, superamos qualquer barreira”, afirma.

Estudante de Enfermagem, Taís considera o enfrentamento à Covid-19 um grande desafio para os profissionais da saúde, que lidam com uma doença cercada de incertezas. Muitos estudos estão em desenvolvimento para esclarecer questões sobre a infecção, contudo são poucas as informações concretas. Além do olhar de quem presta assistência, a gravataiense encarou a situação sob a ótica do paciente. A técnica de Enfermagem contraiu coronavírus e precisou ficar em isolamento. A necessidade de se afastar do esposo, Dionatan Petiz Quaresma (33), e da filha, Brenda (5), foi o aspecto que mais a abalou. “Quando comuniquei o resultado do teste, ele ficou paralisado e ela se pôs a chorar. O pior de toda esta situação foi que eu estava desesperada por dentro, mas não pude receber nenhum abraço de consolo. Tive que me isolar no quarto e chorei muito. Eu podia ver a minha filha só pela janela do quarto, porém com os vidros fechados. Nunca imaginamos passar por uma situação dessas.”

Foto: Arquivo Pessoal

No trabalho, a acadêmica revela que as equipes estão cientes da importância de sua assistência e os colaboradores buscam motivar uns aos outros, além de receber apoio e incentivo das lideranças. “É bastante enfatizado que não estamos sozinhos, mas todos juntos contra a Covid-19. Recebemos treinamentos para encarar a pandemia, que vão desde a paramentação e desparamentação com os equipamentos de proteção individual até a forma correta de higienizar os leitos e aparelhos que tiveram contato com paciente suspeito ou portador do coronavírus. Este processo faz com que tenhamos segurança na hora do atendimento.” A rotina não é fácil, todavia os trabalhadores da saúde não hesitam diante da missão de proteger os outros. “Muitas vezes, nos sentimos sufocados com tantos EPIs, mas sabemos que são essenciais tanto para nossa proteção quanto a dos pacientes. O que fica de aprendizado de toda esta experiência é ver o quanto o amor ao próximo e a empatia são essenciais na vida dos seres humanos. Vemos também o quanto é importante ser presente na vida das pessoas, como isso é maravilhoso e nos faz bem. Às vezes, não percebemos, pois elas estão sempre ali do nosso lado. Percebemos a importância quando sentimos falta.”

A falta de um abraço

Levou pouco tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico. Taís recorda que, no dia 12 abril, apareceram sinais semelhantes aos de um resfriado. “Senti um mal-estar, ressecamento das mucosas oral e nasal. No dia seguinte, acordei com a garganta arranhando, além de ressecada. Mantive as medidas de prevenção no trabalho e em casa, porém os sintomas relacionados à garganta foram piorando muito rápido. Em menos de 12 horas, o quadro evoluiu com hiperemia, placas e dor ao deglutir”, conta. Quando retornou do plantão, a técnica de Enfermagem pediu que os familiares ficassem afastados, por precaução. Na madrugada do dia 14 de abril, ela teve febre de 38,5°C. Recorreu à plataforma de telemedicina do hospital, expôs a situação e foi orientada a fazer um teste de Covid-19.

Em consulta médica, foram prescritos alguns medicamentos para alívio dos sintomas – Amoxicilina 875mg, Dipirona 1g e Paracetamol 750mg se tivesse dor ou febre. À gravataiense também foi recomendado o isolamento até o resultado do exame. A confirmação veio no dia 18 daquele mês, quando Taís já não apresentava sintomas. Com isso, foi necessário ficar isolada, em casa. “Naquele período o que mais me distraía eras as aulas da graduação, por vídeo-conferência. Eu lia e focava nos trabalhos da faculdade”, diz.

No dia 22 de abril, quando a estudante e Dionatan celebram o aniversário, emoções não faltaram. Os “parabéns” foram de longe, sem abraços. Mesmo assim, alguns momentos ficarão na memória. “Apesar de estar sozinha no meu quarto, sem contato com ninguém, recebi diversos vídeos e mensagens de familiares, amigos e colegas de trabalho. Me senti tão abraçada quanto se não estivesse em isolamento. Esse carinho e amor aquece a alma e cura qualquer dor e ferida. Neste dia chorei, e muito, mas foi de emoção e alegria por saber que realmente eu não estava sozinha. Esse foi o motivo de me manter positiva e de ter uma recuperação muito rápida e eficaz.”

*Reportagem publicada na Revista Evidência deste mês.