Reprodução/Funarte

Texto de Cimara Valim de Melo (seção Arte É… Vidência)

Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea.

Nelson Rodrigues

Escrever sobre um dos maiores dramaturgos brasileiros não é tarefa fácil. Nelson Rodrigues brincou com os gêneros literários para repensar com seriedade e ousadia questões do cotidiano, por meio de textos marcados pela liberdade de criação e imersos nos mais variados conflitos humanos; desnudou, em seus textos narrativos e dramáticos, mazelas individuais e coletivas; enfrentou o falso moralismo e a censura, desestabilizando verdades que circundam a célula da coletividade: a família.

O legado rodrigueano é formado por romances, contos, crônicas e textos dramáticos, cuja essência comum está na representação de verdades ocultas na mente das personagens – verdades que se transformam em dor, esquecimento, desconfiança, traição, ciúme, morte, medo, crueldade, desejo, enfim, em sentimentos ambíguos, por vezes diabólicos, essencialmente humanos. Na narrativa longa, há uma peculiaridade do escritor, que usou muitas vezes pseudônimos femininos ao longo das décadas de 1940 e 1950. Dentre os romances mais populares assinados pelo escritor está O casamento (1966), cujo conteúdo foi censurado pelo governo militar por ser considerado subversivo. Já na narrativa curta, fez sucesso com uma infinidade de crônicas e contos, inicialmente publicados nos jornais em que trabalhava e, posteriormente, editados em livros. Dentre eles, destacam-se A vida como ela é… (1961) – coletânea de cem contos selecionados pelo autor –, A cabra vadia (1970), Elas gostam de apanhar (1974) e O reacionário (1977) –  crônicas.

Foi, contudo, com o gênero dramático que produziu suas obras-primas, nas quais colocou toda a fúria perante um mundo apodrecido pela miséria humana. Dentre as obras que lhe concederam posição de destaque na dramaturgia brasileira estão Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), Dorotéia (1949), Valsa n°.6 (1951), Perdoa-me por me traíres (1957), Boca de ouro (1959), Beijo no asfalto (1960), Bonitinha, mas ordinária (1962), Toda nudez será castigada (1965), Anti-Nelson Rodrigues (1973) e A serpente (1978). Tais textos podem ser encontrados na íntegra em Nelson Rodrigues: teatro completo (2020).

Acho a liberdade mais importante que o pão.

(RODRIGUES apud CASTRO, 1992)

A perversidade também pairou na vida real de Nelson, talhada pela morte de irmãos e do pai, por dificuldades financeiras e conflitos familiares, por doenças que quase anteciparam sua morte e pelo sofrimento de pessoas queridas, presas ao longo dos anos de ferro da Ditadura Militar. As sucessivas tragédias inspiraram-no a escrever com profundidade – uma escrita associada à irreverência, pela qual se produziu um solo fértil para o desenvolvimento de obras de vanguarda, a provocar polêmicas e rejeições por parte do público mais conservador.

Nascido em 1912, em Recife, Nelson Rodrigues, ainda criança, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde encontrou o universo jornalístico, seguindo os passos do pai. Trabalhou nos jornais O Globo, O Cruzeiro, Diário da Noite, última Hora, entre outros e, através desse meio de comunicação, iniciou a publicação de seus textos. Em 1980, quando faleceu, no Rio de Janeiro, já havia publicado dezenas de obras e conquistado irrestrita admiração.

Na biografia O anjo pornográfico, publicada por Ruy Castro em 1992, com republicação em Lisboa em 2017, são expostos os detalhes de uma vida tão dramática quanto a obra por ele produzida. Se as personagens de Nelson expõem falhas e contradições humanas, através da sondagem interior e da elucidação de verdades e mentiras, de jogos e máscaras, elas encontraram terreno fértil nas memórias do escritor – feitas de paradoxos e perseguições. Nesse sentido, Castro (2017, p. 12) afirma que “ninguém foi mais perseguido: a direita, a esquerda, a censura, os críticos, os católicos (de todas as tinturas) e, muitas vezes, as plateias — todos, em alguma época, viram nele o anjo do mal, um câncer a ser extirpado da sociedade brasileira. E, olhe, quase conseguiram”.

Em A vida como ela é…(2006), a realidade é transportada para o universo literário de forma tão abrupta que o leitor pode ficar, por instantes, em dúvida se está diante da realidade ou do imaginário do artista. Cada peça desse quebra-cabeça ficcional desafia os gêneros literários, já que o dinamismo das cenas, a tensão, a imprevisibilidade dos fatos e a presença constante de diálogos conferem às narrativas um caráter essencialmente dramático. Talvez seja por isso que os textos que compõem esse mosaico de dramas familiares foram matéria-prima para inúmeras adaptações. Do jornal, passaram ao rádio, deste à telenovela, até chegar ao cinema e ao teatro. Nas narrativas, sempre curtas, repletas de diálogos, pelos quais os conflitos tomam forma, podemos encontrar a fragilidade dos laços afetivos e a força dos padrões morais. Também percebemos a problematização do ciúme, do matrimônio e da traição, sempre na busca por desnudar alguns mistérios familiares e, assim, adentrar o obscuro universo das relações humanas.

A obra de Nelson, tão rica em tipos humanos, tão contundente em expor seus contornos, é extremamente sedutora, tanto para o escritor quanto para o leitor e o artista cênico. Nela, sentimos a coragem de colocar na mesa questões geralmente encontradas embaixo do tapete. Talvez assim, cara a cara com a realidade, possamos também nos encontrar e, que sabe, transformar as próprias relações, a fim de reduzir as mazelas que nos circundam.

Para alguns, era um santo; para outros, um canalha;

para todos, sempre, uma surpresa ambulante.

(CASTRO, 2017, p. 12)

Referências

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. Lisboa: Tinta da China, 2017.

RODRIGUES, Nelson. A vida como ela é… Rio de Janeiro: Agir, 2006.

RODRIGUES, Nelson. Teatro completo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2020.