Foto: Henrique Manreza/Reprodução Folhapress

Cimara Valim de Melo

A vida começa verdadeiramente com a memória.

Milton Hatoum

Em tempos de profundas transformações nos modos de percepção do tempo e do espaço, somos instigados a interconectar culturas e a interagir diariamente com outras visões de mundo, provenientes das mais diversas regiões do planeta. A globalização gerada pelas mudanças socioeconômicas e tecnológicas das últimas décadas trouxe consigo novas possibilidades de organização das informações, baseadas na integração entre povos e culturas. Conforme Stuart Hall (2005), desde a década de 1970, tanto o alcance quanto o ritmo da integração global aumentaram de modo significativo, acelerando os fluxos e os laços entre as nações e gerando a compressão espaço-temporal.

Desse contexto mundial, no qual está inserido o Brasil contemporâneo, vem à tona a literatura multicultural do escritor amazonense Milton Hatoum. Dela emanam personagens provenientes de espaços desconhecidos para os habitantes das grandes cidades, personagens que trilham percursos por terra e mar, do oriente ao ocidente (e vice-versa), a fim de encontrar a identidade perdida. Sua primeira obra, o romance Relato de um certo Oriente (1989), é paradigmático nesse sentido, pois apresenta a vida de imigrantes árabes estabelecidos na cidade de Manaus, onde passam a conviver com pessoas de diversas etnias, como os demais imigrantes ali instalados e os nativos da região. Cada indivíduo representado conserva em si, por diferentes motivos, o sentimento de estraneidade, o qual dissolve as fronteiras entre local e global ao entrelaçar, na contemporaneidade, mundos aparentemente distantes.

Pensava (ao olhar para a imensidão do rio que traga a floresta) num navegante perdido em seus meandros, remando em busca de um afluente que o conduzisse ao leito maior, ou ao vislumbre de algum porto. Senti-me como esse remador, sempre, movimento, mas perdido no movimento, aguilhoado pela tenacidade de querer escapar: movimento que conduz a outras águas ainda mais confusas, correndo por rumos incertos. (HATOUM, 2008, p. 147)

Doutor em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP), tradutor e ensaísta, Hatoum publicou, após a premiada estreia, as obras Dois irmãos (2000), Cinzas do Norte (2005), Órfãos do Eldorado (2008), A cidade ilhada (2009), assim como A Noite da espera (2017) e Pontos de fuga (2019) – estes últimos como parte do projeto “O lugar mais sombrio”, trilogia cujo enfoque deita raízes nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira. Por sua produção, recebeu a Ordem do Mérito Cultural 2008, os prêmios APCA, Bravo! de Literatura, Impac-Dublin, Jabuti, Multicultural 2001 e Portugal Telecom. O mérito de Hatoum pode ser observado pelo modo como transpõe para a ficção não apenas os questionamentos individuais daquele que possui uma identidade formada pela fusão de mundos distintos, mas também a memória coletiva, que retoma processos de (i)migração, com suas diásporas e exílios. Dentre eles, está o da imigração árabe, entrelaçada à multiplicidade que compõe o povo brasileiro e às identidades culturais que o atravessam. Com obras traduzidas e estudadas em diferentes países, Hatoum é exemplo do melhor que a literatura brasileira tem feito em termos de ficção contemporânea. Por elas, deixa extravasar sua busca pela redescoberta de um país marcado pela heterogeneidade étnica e, ao mesmo tempo, redimensiona esteticamente o fazer literário, costurando linguagens para provocar no leitor a análise de sua própria cultura – tão desigual quanto única, tão afeita ao passado recente quanto às remotas raízes da colonização, tão rica de espaços físicos quanto memorialísticos.

Omissões, lacunas, esquecimento. O desejo de esquecer. Mas eu me lembro, sempre tive sede de lembranças, de um passado desconhecido, jogado sei lá em que praia de rio. (HATOUM, 2006, p. 67)

O norte do Brasil é tema recorrente em seus livros; em meio a esse espaço vasto e misterioso, estão inseridos os conflitos humanos em suas múltiplas faces. Em Relato de um certo Oriente, a família libanesa de Emilie, com seus silêncios, suas dores e sua memória viva, é desvelada através de uma série de relatos, compilados por uma narradora anônima, que se ocupa da tarefa de ordená-los. Em Dois irmãos, o ódio entre Yaqub e Omar mancha a vida de uma família – já partida pela distância que a separa de suas origens – e mostra o quão frágeis são os laços humanos. Em Cinzas do Norte, a amizade entre os meninos Raimundo e Olavo contrasta com uma sociedade moralista e enrijecida pelo regime militar em uma história reveladora de encantos e desencantos que atravessam o ser humano. Em Órfãos do Eldorado, é a vez de ser explorada não somente a lenda do “Eldorado amazônico”, que atraiu tantas pessoas ao Norte do Brasil, mas a história de amor entre Dinaura e Arminto, bem como a entre o homem e sua terra.

Já em A cidade ilhada, imagens do urbano em diferentes partes do mundo servem de matéria-prima para os quatorze contos que compõem a obra. Neles, arte e memória caminham juntas por tempo-espaços que carregam em si as relações ‘eu x outro’, a fim de traduzir o que há de comum e de diverso entre oriente e ocidente – mas sem deixar de lado o Amazonas, “onde tudo nasce e tudo morre no universo literário de Milton Hatoum”.

Andou até a varanda, o rosto voltado para o horizonte.

À primeira vista, a floresta parece uma linha escura além do rio Negro, disse ele. Não se consegue distinguir muita coisa. Mas no interior de tanta escuridão há um mundo em movimento, milhões de seres vivos, expostos a luz e à sombra. A natureza é o que há de mais misterioso. Delatour citou como exemplo o mapa da Amazônia que o encantara desde a infância. Para ele, a floresta era um mundo quase inverossímil, e por isso mesmo fascinante. (HATOUM, 2009, p. 99)

Milton Hatoum lança novos matizes à literatura brasileira contemporânea através de narrativas que exploram as veredas de um tempo formado por espaços e culturas em trânsito. Através de histórias que flutuam pelo leito de rios, sobrevoam portos, cidades e florestas, nosso escritor manauara de raízes libanesas consegue como ninguém unir as pontas de dois mundos, mostrando que estes são, na verdade, um só. Um mundo feito de desilusões e segredos, silêncios e memórias, partidas e chegadas, pelo qual indivíduos buscam o seu lugar. Um mundo, sobretudo, repleto de fronteiras dissolutas, representadas por histórias que voam como sementes ao vento, à procura de solo fértil.

A literatura é vivência. E essa vida libertária, com bandas, serenatas, grêmio estudantil, me deu muita coisa. […] A escola pública me deu a visão da pirâmide social no Brasil. […] Além disso, eu conheci outros idiomas. Meu pai era libanês, meus avós paternos também. Minha avó falava francês e eu escutava muita música árabe. Convivi também com judeus marroquinos. E adorava ir com meu avô aos bairros flutuantes. Foi uma época rica na minha vida. Tudo isso faz parte de um mundo que tento transformar em um microcosmo, que é o meu romance. (HATOUM, 2011)

Referências

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz T. Silva e Guacira L. Louro. 10.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

HATOUM, Milton. A cidade ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

HATOUM, Milton. Na outra margem do rio. [Entrevista cedida a] Kátia Mello. Airbone, set. 2011. Disponível em: http://www.miltonhatoum.com.br/sobre-autor/noticias-entrevistas/na-outra-margem-do-rio-por-katia-mello-airbone-setembro-de-2011. Acesso em: 05 fev. 2020.