Foto: Eduardo Nicolau/Reprodução/Estadão

Cimara Valim de Melo

A gente, com o tempo, vai se autoaceitando, se autoperdoando coisas.

Não sei se é madureza ou desistência.

(VERISSIMO, 2006, p.15)

Como já disse o escritor Zuenir Ventura (apud VERISSIMO, 2006, p. 62), Luis Fernando Verissimo é “o nosso cronista maior”. Jornalista, tradutor, escritor, leitor voraz, cartunista, músico – em apenas uma pessoa, encontramos um catálogo de qualidades, refinadas pela exigência de quem, desde os primeiros anos de vida, esteve em contato direto com o melhor das artes brasileira e estrangeira. Verissimo brinda o título de grande cronista brasileiro, personificando em seus textos alguns valores essenciais ao ser humano, como a criatividade, a ética, a simplicidade e o senso crítico.

Porto-alegrense de coração e morador da antiga casa paterna, nosso escritor teve uma vida marcada por livros e viagens, elementos que determinaram seu gosto cultural. Nascido em setembro de 1936, quando o pai Erico Verissimo já havia publicado Clarissa (nome de sua irmã mais velha) e Caminhos cruzados, Luis Fernando teve como berço uma época profícua para a literatura brasileira, em especial o romance. Em 1943, mudou-se com a família para os Estados Unidos, já que o pai havia sido convidado a lecionar em Berkeley e Los Angeles, fato que justificou seu forte contato com a língua inglesa e a música internacional.

Voltou a Porto Alegre em 1945, mas, na década seguinte, retornou aos Estados Unidos, desta vez para morar em Washington, onde estudou saxofone – instrumento que sempre o acompanhou ao longo de sua trajetória como músico. Segundo ele, era fã de Louis Armstrong e decidiu que queria aprender a tocar trompete, como o seu ídolo. (VERISSIMO, 2006, p. 13) Em 1964, casou-se com Lúcia, com quem teve os filhos, Fernanda, Mariana e Pedro. A seguir, começou a trabalhar como cartunista e colunista de jornais como O Globo e O Estado de São Paulo. Também morou em New York e em Roma nos anos de 1980. O jazz é uma das atividades mais apreciadas pelo escritor. Após participações anteriores em grupos musicais, a banda Jazz 6 foi formada em 1995; com ela, lançou os discos Agora é a hora, Speak low e A bossa do jazz e Four. Entre os compositores mais apreciados e interpretados estão Charlie Parker, Duke Ellington e Thelonius Monk, todos nomes marcantes do jazz mundial.

Da música à literatura, criatividade de Luis Fernando Verissimo não tem trégua. Ela emana não apenas das diversas atividades artísticas por ele realizadas, mas também é expressa por personagens que se popularizaram nacionalmente a partir de suas narrativas, tais como o Analista de Bagé, a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, as Cobras e a Família Brasil. Símbolo da crítica presente na literatura verissiana, a Velhinha de Taubaté foi criada 1983 e representou a última cidadã a acreditar na política brasileira. Sempre confiante, iludia-se com promessas eleitoreiras e confiava cegamente nos discursos fervorosos que ouvia. Sua morte foi anunciada pelo autor em 2005, aos noventa anos, por desgosto com a onda de corrupção que assolou o país.

Já o analista de Bagé, conhecido por ser mais ortodoxo que “suspensório e pastilha Valda” ou “pomada Minâncora”, é uma imagem caricata do gaúcho, explorando seus estereótipos em meio à vida moderna:

Ao contrário do que se pensa, o analista de Bagé mantém-se a par de todos os desenvolvimentos na área da psiquiatria, embora se declare “freudiano de oito costados” e “más ortodoxo que pomada Minâncora”. Ele tem uma boa e atualizada biblioteca que consulta com frequência. Sempre que pega um caso mais difícil, no entanto, o analista de Bagé recorre a um grosso volume em alemão na estante do seu consultório. É entre suas páginas que guarda, escritas a toco de lápis em folhas soltas de um caderno de armazém, as máximas do seu pai, o velho Adão. Quando, diante de um caso “dos encroado”, o analista de Bagé se vê “más apertado que jeans de fresco”, as máximas do velho Adão muitas vezes sugerem uma saída. (VERISSIMO, 2002, p. 70)

Verissimo considera o Analista de Bagé uma personagem positiva, pois “queria resolver os problemas dos seus pacientes nem que fosse a tapa” (VERISSIMO, 2006, p. 10) Se de um lado temos o gaúcho rude e franco que procura, através da ‘psicanálise gaudéria’ e de métodos como a ‘técnica do joelhaço’, resolver os mais variados problemas de seus pacientes, de outro encontramos Ed Mort, figura que satiriza a literatura policial norte-americana, parodiando personagens célebres como James Bond. O sucesso do detetive brasileiro fez com que fosse gravado, em 1977, o filme homônimo, sob direção de Alain Fresnot.

Como cartunista, Verissimo tem um extenso trabalho reconhecido. A Família Brasil representa as inconstâncias classe média brasileira, a padecer pelo consumismo e, por consequência, pela falta de dinheiro. Além dela, as filosóficas e ecléticas Cobras formam uma dupla crítica e inteligente que problematiza, com sarcasmo, questões universais. Em comum, tais criações carregam consigo o humor e a ironia, características marcantes do escritor, corroborando a leveza e a criatividade de suas obras.

Entre dezenas de livros publicados, sem contar antologias e coletâneas, podemos destacar algumas obras representativas do autor: O popular (1973), Ed Mort e outras histórias (1979). O Gigolô das Palavras (1982), O analista de Bagé (1981), A velhinha de Taubaté (1983), A mulher do Silva (1984), O suicida e o computador (1992), Comédias da vida privada (1994), Comédias da vida pública (1995), – crônicas e contos; O jardim do diabo (1988), O clube dos Anjos: gula (1998), Borges e os orangotangos eternos (2000), O opositor (2004), Os Espiões (2009) – romances; Traçando New York (1991) Traçando Paris (1992), Traçando Roma (1993), Traçando Porto Alegre (1994) – viagens; O santinho (1991), Poesia numa hora dessas?! (2002) – poesia.  Cabem destacar também aqui suas publicações em cartoons e quadrinhos, as quais envolvem uma variedade de títulos. A diversidade e a riqueza de suas produções literárias trazem como elemento comum a qualidade estilística, a qual se utiliza sem reservas da irreverência e da sátira. Resultado dessa maestria está nos inúmeros prêmios e nas condecorações recebidas, cujos exemplos podemos observar a seguir: Prêmio Abril de Humor Jornalístico (1983), Prêmio Direitos Humanos (1989/1994), Medalha Cidade de Porto Alegre (1991), Prêmio Isenção Jornalística (1991), título Homem de Ideias do Ano (1995), Troféu HQ Mix – Tira (1996), Prêmio Juca Pato (1996), Prêmio Intelectual do Ano (1997) e Prêmio Jabuti (2010), entre outros.

Uma curiosidade acerca do autor é que Verissimo começou a escrever com mais de trinta anos, fato que permitiu, desde o início, a formação de uma literatura já amadurecida por suas experiências de vida. Dentre as características mais comuns a seus textos, estão a presença da linguagem visual, percebida em narrativas de alto teor pictórico e no significativo interesse pelo universo cinematográfico; a comicidade aliada ao senso crítico; a universalidade dos temas abordados; a simplicidade linguística aliada à clareza jornalística, que busca a força comunicativa e a objetividade; enfim, o gosto pelo jogo de palavras e pela cadência do texto.

A literatura de Luis Fernando Verissimo não é apenas para ser lida, mas para ser problematizada, visualizada, saboreada. Talvez seja por esse carácter sensorial de seus textos que o escritor se encontre no topo da lista dos escritores mais comercializados do Brasil, com milhões de livros vendidos. É com a literatura do simples que o autor representa a grandiosidade da vida diária urbana. Pela análise criteriosa do público e do privado, ele transforma sentimentos em comunicação. Resumamos, pois: as Veríssimas vozes de sua literatura formam uma orquestra de sentidos, abrindo espaço à compreensão do tempo presente e da condição humana.

Sou um escritor acidental. Não tinha nenhuma intenção de escrever até começar no jornalismo, embora já tivesse feito algumas traduções. Quando me deram espaço assinado no jornal, virei cronista. Foi sem querer. (VERISSIMO, 2006, p. 8)

Referências

VERISSIMO, Luis Fernando. Todas as histórias do Analista de Bagé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

VERISSIMO, Luis Fernando. As Aventuras da Família Brasil. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005

VERISSIMO, Luis Fernando. Humor & outras histórias. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2006.

*Conteúdo reeditado para a editoria Arte É… Vidência da edição de setembro de 2020 da Revista Evidência.