CT do grupo fica no Residencial Breno Garcia. Foto: Arquivo Pessoal
Mestre Coyote em ação. Foto: Arquivo Pessoal

Quando os portões do Centro de Treinamento do Grupo Raízes são abertos e as crianças começam a entrar, entusiasmadas e com um sorriso no rosto, o sentimento é de muita alegria para o mestre de capoeira Leandro André da Silva (51), também conhecido como Coyote. Natural de Bento Gonçalves, mas residente em Gravataí desde que tinha seis anos, ele faz desse esporte coletivo, que alia dança e música, uma ferramenta de educação e inclusão. O capoeirista conduz um projeto social no Residencial Breno Garcia, oferecendo aulas gratuitas três vezes por semana. Nas ocasiões, os estudantes aprendem mais do que como praticar a modalidade. Compreendem a importância de ajudar o outro, de respeitar as limitações, ter disciplina. “O mais gratificante é quando uma mãe chega aqui e nos parabeniza porque o filho melhorou muito em casa, na questão de convívio e solidariedade, depois que conheceu a capoeira.”

O primeiro contato de Leandro com a capoeira ocorreu aos 12 anos, quando assistiu a uma apresentação, no Centro da cidade, do mestre Miguel Machado, do Grupo Cativeiro. Porém, foi no início dos anos 80 que começou a se dedicar a modalidade, após conhecer Moisés da Silva Felipe, o Sagui, e o irmão dele, Marcos (Jamaica). Os dois davam aulas e cederam espaço na própria residência para a instalação do primeiro CT do Grupo Raízes. Em 2008, o bento-gonçalvense, que trabalha como vigia, foi graduado contramestre e três anos depois, mestre de capoeira, em uma solenidade no campo do Santos, na Vila Nara. Lembra-se com carinho de receber a graduação de Marcos Cícero Martins, o mestre Mineiro. “Hoje, ele faz um trabalho na França com o seu grupo, Sul Capoeira”, comenta.

Com o intuito de afastar as crianças das ruas e da marginalidade, o Raízes ampliou sua atuação no município, desenvolvendo um lindo trabalho em escolas e instituições assistenciais, como, por exemplo, a Fundação Casa dos Sonhos, do Rincão da Madalena. Tornou-se um dos maiores grupos de capoeira de Gravataí. “De lá para cá treinamos muito, crescemos bastante. A gente fez muitas apresentações. Saímos em Carnaval, 7 de setembro, Dia das Crianças. Onde havia festas e comemorações, estávamos apresentando nosso trabalho”, relata Leandro. Quando Sagui – a quem o vigia é extremamente grato pelos ensinamentos –, se afastou das atividades por motivos particulares, o mestre Coyote passou a coordenar o projeto, que agora ocorre no Breno Garcia. Atualmente, as aulas de capoeira acontecem às terças e quintas, às 19h, e aos sábados, a partir das 10h. No espaço também são promovidas, gratuitamente, aulas de judô.

Foto: Arquivo Pessoal

Sempre apoiado pela esposa, Ana Paula Hanauer de Freitas, Leandro revela que a pandemia de Covid-19 interferiu no trabalho social, sendo que dois núcleos, um na Associação de Moradores do Bairro Princesa e outro em Alvorada, estão com a programação suspensa. A ideia, todavia, é retomar as ações em breve. Ele aponta que a capoeira, além da musicalidade e de colaborar para a coordenação motora dos praticantes, traz ensinamentos para a vida. Um de seus alunos é cadeirante e o fez refletir com um comentário. “Um dia me disse: ‘mestre, todos podem aprender a capoeira.’ Aquilo me tocou muito. Às vezes, muitas pessoas com saúde não dão o valor que esse menino deu à capoeira desde o primeiro momento. Sinto um orgulho enorme dos meus alunos, da força de vontade e garra que eles têm para aprender.”

*Reportagem publicada na Evidência de fevereiro.