Foto: Arquivo Pessoal

O que eu posso fazer para ajudar alguém? Você já se fez essa pergunta? Alguns jovens fizeram e encontraram uma resposta. Um grupo de 14 pessoas que congregam em igrejas Batista e Assembleia de Deus foi para a África em dezembro para uma missão humanitária. Os voluntários, membros da ONG Cacemar, foram para Burkina Faso, país que possui um dos piores índices de desenvolvimento humano do mundo – dados do IBGE apontam que o IDH era de 0,434 em 2018; a expectativa de vida é de menos de 62 anos. A expedição, denominada Let’s go to Africa, durou cerca de um mês.

Foto: Arquivo Pessoal

Segundo o presidente da ONG Cacemar no Brasil, Jeferson Luiz da Silva, o trabalho começou em 2001, na cidade de Bobo Dioulasso, por iniciativa do casal Rejane (irmã dele) e Mamadou Kologo. Como não há fronteiras para a solidariedade, a causa também sensibilizou muitos brasileiros. Na região, o projeto iniciou em 2019, ampliando a atuação do movimento Faz Bem, que atende pessoas em situação de rua, contemplando-as com alimentos, roupas e a oportunidade de ir para um centro de recuperação. Jeferson, que é de Cachoeirinha e se dedica às ações sociais ao lado da esposa, Kamila, explica que um dos focos da expedição é auxiliar os “garibous”, como são chamadas as crianças tiradas de casa para estudarem em galpões com péssimas condições. “Elas são doadas pelas próprias famílias para serem ensinadas na lei islâmica”, comenta o voluntário, acrescentando que os meninos são vítimas de agressão e colocados, em muitos casos, para mendigar pelas ruas. O trabalho da instituição consiste em cuidar dessas crianças. Em um espaço chamado Casa Esperança busca-se lembrar aos pequenos que são apenas crianças. “Fornecemos alimentação, café da manhã e atendimento básico de saúde. Cuidar, pelo menos, em uma parte do dia, já causa um grande impacto em suas vidas, a fim de devolver um pouco de dignidade”, frisa.

Em outra casa, denominada Refúgio, são atendidos meninos e meninas que vivem em outro contexto, mas também precisam de ajuda. Os voluntários atuam ainda na assistência às viúvas. “São mulheres que, quando perdem seus maridos, segundo a cultura local, tornam-se desvalorizadas. Podem perder o domínio sobre sua casa e filhos, pois são descaracterizadas como cidadãs. Vivem sempre à margem da pobreza e dificuldade. Trabalhamos com a horta comunitária, alimentando-as. Também, auxiliando, sempre que necessário, nas necessidades de saúde, bem como envolvendo-as na cooperativa de artesanato para gerar renda”, relata o presidente da Cacemar.

Foto: Arquivo Pessoal

Esta foi a segunda expedição à África promovida pelos brasileiros, que planejam outra viagem ainda em 2021. A meta dos jovens é levar esperança para aquele povo através do evangelho de Jesus Cristo. Nessa caminhada, eles compartilham seus conhecimentos e estendem a mão à população local. Além das doações, os voluntários realizam oficinas e palestras, possibilitando que os assistidos aprendam um pouco mais sobre balé, futebol, panificação, cuidados com a saúde, entre outros temas. A missão entre 2020 e 2021 contou com a participação de 12 jovens, além do casal coordenador: Clara Gandolfi, Herecles Bismark, João Pedro Martins, Larissa Persk, Israel Florentin, Leonardo Castilhos, Mariana Lopes, Paola Gois, Priscilla Diniz, Sarah Martins, Vinícius Mateus e William Barth. As inscrições para a próxima expedição devem abrir em maio, no site e através do Instagram da ONG (@cacemar).

Impressões de uma voluntária

Por mais que tenha se preparado para a viagem e soubesse que encontraria um cenário difícil, ao chegar no país africano, Clara revela que se deparar com aquela realidade foi chocante. A estudante de Enfermagem afirma que a precariedade na saúde é um dos aspectos que mais abala os voluntários. “Muitos cidadãos passam a vida toda sem nunca ter ido ao médico ou hospital. As doenças se tornam muito mais graves pelo difícil acesso a tratamentos, profilaxias e informações. Estatísticas mostram que a cada 30 minutos morre uma criança por malária no continente africano”, lamenta a jovem. Segundo a acadêmica, a experiência faz com que valores sejam repensados. “Nossos conceitos, pensamentos e ideologias caem ao chão quando nos encontramos com o olhar de uma criança. A vida e o mundo são muito maiores do que possamos compreender. É nosso dever sair da nossa bolha social e olhar para o lado.”

*Reportagem publicada na Evidência de fevereiro.