Em 2007, a Seleção Brasileira venceu o Pan-Americano. Em 2008, perdeu no tempo extra a final das Olimpíadas. Em nenhuma das ocasiões, a equipe brasileira tinha uma atleta gaúcha atuando nas finais. Apenas um pequeno sinal das dificuldades que o futebol feminino passa no Rio Grande do Sul. Em meio à falta de dinheiro para os clubes, à falta de divulgação dos torneios e também ao preconceito, a gravataiense Juliane da Silva Buss (20) concilia a vida de estagiária de musculação, professora de ginástica e lateral-direita do Onze Unidos, de Cachoeirinha, finalista do Campeonato Gaúcho.

E para ajustar tudo isso no dia a dia? “A rotina de treinos é intensa, tentamos treinar quatro vezes por semana, sendo segunda, quarta, sábado e domingo. Porém, os jogos do Gauchão são aos domingos, então às vezes acabamos treinando apenas duas ou três vezes”, conta Juliane. O trabalho, porém, é recompensador. No meio do ano, o Onze venceu a Copa RS, um dos principais torneios da categoria no Estado. Juliane chegou ao time pouco antes da conquista. O time de Cachoeirinha é o primeiro da carreira da gravataiense que oferece às atletas subsídios para treinos e viagens – carreira essa iniciada aos 14 anos.

O Campeonato Gaúcho, embora sem holofotes nem grande divulgação, está em andamento, e começou com apenas nove clubes na disputa. Na primeira fase, o Onze ficou no grupo ao lado de Atlântico, de Erechim, e Tapejara. Isso significou percorrer, de ônibus, 377 e 311 quilômetros, respectivamente. “Enquanto clubes pagam milhões para um só jogador do futebol masculino, o feminino ‘implora’ por um ônibus para que possa se deslocar até uma cidade vizinha para jogar uma partida do Gauchão. Este é o problema: as equipes terem condições financeiras de participar do campeonato, pois precisamos viajar, e os gastos são grandes com transporte e alimentação”, revela a atleta. Mesmo assim, o time arranjou forças e fez bonito: chegou às finais ao golear o Ijuí por 6 a 0.

Se falta dinheiro, sobra preconceito e olhares não muito favoráveis ao futebol feminino. Recentemente, a atacante Marta, eleita cinco vezes melhor do mundo e finalista do prêmio de melhor jogadora por 12 vezes, comentou que o próprio irmão não gostava de vê-la jogar futebol. A capitã da Seleção Brasileira, Bruna Benites, também já destacou que a família pedia que ela não perdesse tempo com “essa coisa de homem”. “Há muito preconceito ainda e, sem dúvidas, isso justifica a falta de apoio ao futebol feminino”, relata Juliane.

A própria (falta de) estrutura dos clubes é uma grande barreira. Talvez a maior, segundo a atleta de Gravataí. Por sinal, o Município não possui, atualmente, nenhum clube ativo em torneios femininos. O jeito é debandar para Cachoeirinha, mas, ainda assim, os vislumbres de um futuro como profissional são raros. “Dificilmente olheiros aparecem nesses jogos do Gauchão. As gurias que conseguem se destacar e sair do país, que é a melhor opção hoje, acabam indo por indicação de técnicos com algum tipo de influência no exterior”, afirma.

Juliane viu, recentemente, uma jogadora do Onze torcer o joelho numa partida devido ao péssimo estado do gramado em uma das viagens. Por sinal, as lesões são um problema também pela questão estrutural: “Em 2010, tive um estiramento e o clube não tinha condição alguma de me ajudar na recuperação”. Salário então? Os clubes pagam somente a alimentação e o custeio das viagens. Calendário cheio? Também é problema, mas que aos poucos vai tentando ser contornado.

No momento, a lateral mantém dois sonhos. Um é bem palpável: o título do campeonato estadual, que dá vaga na Copa do Brasil feminina. O outro, por enquanto, parece ainda distante: “Meu maior sonho é que um dia valorizem um pouco mais o futebol feminino, porque clubes grandes, como Grêmio e Internacional, podiam tranquilamente investir na criação de equipes femininas e pagar salários, por menor que fossem, às meninas”.

Assim, aos trancos e barrancos, o futebol feminino caminha a passos lentos no Estado. Com conquistas pequenas, como a criação de mais torneios, como lembra Juliane. O objetivo, entretanto, nem é tentar lançar novas Martas por aqui, mas chamar a atenção para atletas que, na motivação de jogarem basicamente pela paixão ao esporte, são vencedoras.