Dr. Marcelo Leone. Foto: TL Vídeo Produções

*Artigo do médico ginecologista e obstetra Marcelo Leone.

A infecção humana SARS-CoV-2 (causada pelo novo coronavírus) é uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, cujo espectro clínico é variável, indo desde sintomas leves à síndrome respiratória aguda grave. A letalidade tem variado conforme o país, mas está evidenciado que idosos e pessoas com comorbidades crônicas são as que mais apresentam complicações. No momento, não foram desenvolvidas vacinas ou medicamentos com comprovada evidência científica para seu tratamento definitivo e, atualmente, o manejo clínico é voltado para suporte e controle de sintomas.  As infecções virais respiratórias de 2002, de 2012 e a H1N1 se apresentaram com desfechos obstétricos e neonatais desfavoráveis. Em sentido contrário, até o momento, o SARS-CoV-2 não parece se associar a risco de maior gravidade em gestantes, mesmo que a maioria dos casos descritos na literatura científica tratem de mulheres na segunda metade da gestação.

O quadro clínico em gestantes com a SARS-CoV-2 é semelhante ao observado em adultos não gestantes, bem como taxas de complicações e de evolução para casos graves. Recomenda-se que o protocolo de diagnóstico de SARS-CoV-2 em gestantes seja o mesmo para a população adulta geral. As gestantes devem ser classificadas com base nos critérios dos protocolos do Ministério da Saúde, devido à condição atual de transmissão comunitária. O manejo será realizado conforme as demais síndromes gripais, com zelo em relação aos sinais e sintomas que demonstram gravidade clínica. Nos serviços de saúde em geral e na atenção pré-natal e maternidades, deve ser instituída uma triagem de sintomas respiratórios e fatores de risco. As gestantes que apresentem síndrome gripal deverão ter seus procedimentos eletivos (consultas e exames de rotina) adiados em 14 dias e, quando necessário, serem atendidas em local isolado das demais pacientes. Todas as demais gestantes, assintomáticas ou sem síndrome gripal, deverão manter preservado seu atendimento, devido ao caráter autolimitado da gestação, cujo desfecho em parto é inexorável, de tal modo que a suspensão ou o adiamento despropositado podem culminar em perda de oportunidades terapêuticas de atenção à mulher, ao bebê e à família, inclusive para eventos graves próprios da gestação. Desse modo, recomenda-se a continuidade das ações de cuidado pré-natal de todas as gestantes assintomáticas, resguardado o zelo com a prevenção de aglomerações, com as melhores práticas de higiene e com o rastreamento e isolamento domiciliar de casos suspeitos de síndrome gripal. Importante ressaltar que os procedimentos adiados como consequência do isolamento domiciliar de gestantes que apresentaram sintomatologia compatível com síndrome gripal deverão ser reagendados em tempo hábil, de modo que não haja prejuízo ao seguimento pré-natal.

Ainda não há confirmação científica que ocorra a transmissão vertical (da mãe para o bebê), e parece improvável que isto ocorra, de forma semelhante ao previamente observado nas viroses respiratórias anteriores. Em relação ao risco de malformação, pouco ou nada se sabe sobre a SARS-CoV-2, especialmente porque os casos relatados até o momento são de mulheres infectadas na segunda metade da gestação, contudo, quando disponível, é prudente a realização de ultrassonografia morfológica no segundo trimestre em mães com infecção por SARS-CoV-2, visto que não dispomos de dados suficientes para afastar este risco.

A gestante deve manter o distanciamento social, e por isso os encontros sociais típicos da gravidez deverão ser evitados, como, por exemplo, a festa de revelação do sexo e o chá de fraldas. Também durante as consultas de pré-natal, o menor número de acompanhantes deve ser observado.  Após o parto, as visitas à mãe e ao recém-nascido também deverão ser de forma virtual para evitar o potencial contágio.

Para mulheres grávidas com infecção confirmada, a escolha do momento do parto deve ser individualizada, dependendo da semana de gestação e das condições maternas, fetais e de parto. Sempre que possível, o parto vaginal por indução do parto, para evitar a exaustão materna, deve ser favorecido para evitar complicações cirúrgicas desnecessárias em uma paciente já doente. Como medida de precaução, as mulheres grávidas com suspeita ou confirmação de coronavírus, quando entrarem em trabalho de parto, devem ser orientadas a comparecer a uma unidade obstétrica de referência para a Covid-19. Ainda há pouca evidência sobre a melhor via de parto. Por analogia com mulheres infectadas pelo H1N1, SARS-CoV ou MERS-CoV, parturientes em boas condições gerais podem se beneficiar do parto vaginal, bem como o feto.

As decisões sobre o parto de emergência e a interrupção da gravidez são desafiadoras e baseadas em muitos fatores: idade gestacional, idade materna condição e estabilidade fetal. Não há documentação de transmissão vertical durante a gestação, nem no período neonatal, através da amamentação. Mães e recém-nascidos, neste sentido, devem permanecer juntos. A recomendação científica é forte para manter a amamentação, sendo que seus benefícios superam qualquer risco potencial de transmissão e não há evidências de transmissão do vírus pelo leite, somente por contato, por gotículas e por aerossóis. Duas revisões sobre aleitamento materno enfatizam que, uma vez que a mãe seja esclarecida e esteja de acordo, este seja praticado com as precauções necessárias: uso de máscara pela lactante e lavagem de mãos antes das mamadas. Portanto, salvo alguma intercorrência que exija a separação do binômio, como, por exemplo, o agravamento das condições de saúde maternas, é perfeitamente possível que mãe e filho permaneçam em sistema de alojamento conjunto até a alta hospitalar.

Uma observação importante é que, devido ao pouco tempo do novo coronavírus entre nós, as recomendações aqui contidas são provisórias e poderão ser modificadas à medida que novos dados forem publicados.