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Os boletins epidemiológicos mostram que o índice de recuperados da Covid-19 é alto. Contudo, há diversos relatos sobre pacientes que ficaram com sequelas após a infecção pelo coronavírus. Por se tratar de uma doença nova, que ainda gera muitas dúvidas e não teve identificado um tratamento específico, pesquisadores de diversos países procuram desvendar como o vírus age e as marcas que pode deixar. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que está envolvida no processo de transferência de tecnologia para a produção da vacina de Oxford no Brasil, há registros de casos graves que resultaram em um grau de fibrose muscular, assim como acontece em quadros de pneumonias. Também há pesquisas que analisam sequelas nos rins, coração e no sistema nervoso central em pacientes que precisaram de internação em unidades de terapia intensiva.

A neurologista Maria da Graça Dias dos Santos explica que as pesquisas são recentes, por isso ainda não é possível atestar com exatidão as consequências da doença. Porém algumas sequelas têm sido sinalizadas com base nos casos contabilizados. “Acredita-se que os coronavírus sejam neurotrópicos, ou seja, têm a possibilidade de comprometer diretamente o sistema nervoso. A disseminação pode ser hematogênica, quando o vírus entra no organismo pela respiração e passa para o sistema nervoso pela corrente sanguínea ou neuronal retrógrada, cuja entrada ocorre pelo bulbo olfatório.” Conforme a médica, um estudo publicado em agosto questionou se, de fato, o vírus estaria presente no cérebro. “Em autópsias de 43 pacientes não foram encontradas lesões causadas diretamente pelo vírus e, sim, gliose (trata-se de uma alteração perceptível na ressonância) por mediação autoimune, predominantemente no tronco cerebral, o que significa que as defesas do organismo é que causam as lesões”, ressalta.

Dra. Maria da Graça salienta que, mesmo diante dessas dúvidas, alguns sintomas neurológicos são relatados em casos de pessoas com Covid-19, como dor de cabeça, sonolência/torpor, ataxia, acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico ou hemorrágico, convulsão. Há também descrições de hiposmia (falta de olfato), hipogeusia (falta de paladar), neuralgia, mialgia, além de raros registros de encefalite, meningite e Síndrome de Guillain-Barré em pacientes com comorbidades, sobretudo idosos. “E a pandemia, por si só, já traz consequências como ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Não foi totalmente confirmado, mas é investigada a possibilidade de que pacientes, mesmo com quadro leve ou assintomático, possam ter, até a longo prazo, alterações do paladar, olfato, falhas na memória, depressão, insônia, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), transtorno por estresse pós-traumático, fadiga, dor nas pernas e quadril”, aponta. De acordo com a especialista, esses dados são apurados por estudos desenvolvidos na Itália, Inglaterra e no Brasil, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A neurologista argumenta que frente a tantas incertezas quanto à doença, o melhor é evitar o contágio. “Os métodos mais eficazes ainda são: isolamento social, uso de máscara, higiene das mãos e todos os cuidados já preconizados intensamente pelas autoridades sanitárias. A esperança real está na vacinação em massa. Esperamos que em breve seja uma realidade”, frisa.

Índices de recuperação

Vale ressaltar que apesar da grande lista de possíveis sequelas da Covid-19, esse tipo de ocorrência não seria frequente. É o que sinalizam especialistas em saúde. A maioria dos casos no Brasil, até então, refere-se a casos com sintomas mais leves, o que reflete no alto o índice de recuperação. Até a metade de outubro, mais de 4,6 milhões de pessoas haviam se recuperado da doença (dentro de um total de cerca de 5,3 milhões de casos).

*Matéria que integra a edição de novembro da Evidência, que começa a circular em breve.