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Na edição de junho, a Evidência apresenta reportagens sobre as manifestações neurológicas e cardiovasculares que podem surgir em pacientes com coronavírus, além dos efeitos da doença na saúde mental da população. Confira as matérias:

Covid-19 e as manifestações neurológicas

Frente à incidência de Covid-19, especialistas de todo o mundo têm se debruçado em pesquisas sobre a cura e possíveis efeitos da doença, entre tantas outras questões que ainda não foram elucidadas. A relação do coronavírus com alterações no sistema nervoso é um dos tópicos estudados. De acordo com a Academia Brasileira de Neurologia, apesar de algumas descobertas, “o caminho ainda é longo e desconhecido”, mas há casos nos quais pacientes infectados tiveram manifestações neurológicas, como dor de cabeça, tontura, rebaixamento do nível de consciência, alteração do equilíbrio e convulsões. A instituição aponta que existem relatos de outros sintomas, como perda de paladar e olfato, câimbras e fadiga.

Dr. Thiago é neurologista. Foto: Arquivo Pessoal

O neurocirurgião Thiago Torres de Ávila, da Clínica Ineuro, ressalta que ansiedade e depressão também têm afetado o quadro de pacientes com doenças neurológicas. Segundo o médico, há relatos de pessoas diagnosticadas com Covid-19 que tiveram encefalite e meningite viral. No entanto, ele destaca que estas são inflamações relacionadas a vários outros tipos de vírus. “Estão surgindo também alguns casos em que o coronavírus é associado à Síndrome de Guillain-Barret, uma doença que afeta os nervos periféricos e pode causar perda de força e sensibilidade.” Outra possível implicação seria o acidente vascular cerebral (AVC). “Mas, até o momento, essa associação foi observada por uma equipe do Mount Sinai (uma rede hospitalar de Nova Iorque) e outra de Singapura. O artigo publicado em Nova Iorque mostrou um aumento de 0,7 para cinco pacientes com menos de 50 anos atendidos no período de duas semanas. Os cinco testaram positivo para o novo coronavírus. É uma associação consistente. Contudo vale salientar que considerando a quantidade de pacientes que apresentam a infecção por Covid-19, sem considerar os subdiagnosticados, essas complicações são extremamente raras.”

Conforme Dr. Thiago, a dor de cabeça não figura entre os sintomas prevalentes do coronavírus, porém pode aparecer. Ele explica que trata-se de um sinal presente em várias doenças, por isso é sempre recomendado ficar atento e procurar orientação médica quando necessário. “Temos que observar os sinais de alerta associados. É uma dor intensa de início agudo? A pior dor de cabeça que a pessoa já sentiu na vida? Mesmo com uso de analgésicos, a dor não cede? Tem piorado ao longo dos dias? Vem junto com sintomas de dormência, perda de força, alteração de fala, equilíbrio ou coordenação motora? Está vindo junto com alterações de personalidade? Nesses casos, o paciente deve procurar atendimento o mais breve possível, seja em um consultório médico ou emergência. E isso vale para qualquer sintoma. Estamos percebendo um medo dos pacientes em se dirigir ao hospital ou aos consultórios, o que tem refletido em casos mais graves, por terem postergado o tratamento.”

O neurocirurgião revela que tem atendido muitos pacientes com sintomas exacerbados devido a ansiedade ou depressão. “Esse é um dos piores efeitos dessa pandemia no sistema nervoso”, comenta. O medo que muitas pessoas sentem em relação à Covid-19 exige atenção, na opinião do médico. “Tenho visto que algumas pessoas encaram o diagnóstico como uma sentença de morte. Não é verdade. O risco aumenta muito após os 70 anos, mas, ainda assim, um paciente nessa idade, com diabetes, doença cardíaca e falta de ar teria cerca de 80% de chances de sobreviver à doença”, afirma. Ele salienta que as pessoas precisam se cuidar, mas também dar continuidade às rotinas. “Sem minimizar a situação, teremos tempos duros pela frente. Mas já é hora de abandonar a ideia de que existe um trade off entre economia e vida. As duas coisas andam juntas e sem retomar nossas atividades não teremos condições financeiras de combater essa epidemia.”

Coronavírus e os riscos para cardiopatas

Dr. Cristiano é cardiologista. Foto: Arquivo Pessoal

Os profissionais da saúde e pesquisadores têm destacado que os portadores da Covid-19 podem ser sintomáticos ou não. O fato de alguns não apresentarem sintomas é o que exige, inclusive, a adoção de medidas preventivas como o distanciamento social. Estudos são desenvolvidos para que se tenha mais informações sobre as possíveis consequências no organismo da contaminação por coronavírus, porém várias manifestações cardiológicas já foram sinalizadas. Segundo o médico Cristiano Ventura, da Clínica Solaris, os pacientes cardiopatas são considerados de alto risco para a evolução mais grave da doença.

O especialista revela que a inclusão de pessoas com doenças cardiovasculares nos grupos de risco da Covid-19 não causa surpresa à classe médica. “Sabidamente qualquer infecção pode ser um fator de descompensação e de risco a esses pacientes.” Dr. Cristiano explica que múltiplas manifestações cardíacas também têm sido associadas a casos de pessoas que mostravam-se saudáveis do ponto de vista cardiológico. Alterações elétricas (arritmias), disfunções do músculo cardíaco decorrentes de inflamação (miocardites) e até mesmo de infartos do miocárdio são exemplos entre os relatos até o momento.

O cardiologista alerta que as doenças cardiovasculares são as que causam mais mortes, no mundo, por isso não se pode negligenciar. “Se surgirem sintomas de descompensação cardíaca ou de um possível acometimento cardíaco não se deve postergar o atendimento médico por medo de um possível contágio pelo novo coronavírus. Isso pode ser trágico!” O profissional também recomenda que os pacientes sigam as orientações para o tratamento e jamais se automediquem. Ele ressalta que é importante, também, respeitar os protocolos de higienização, uso correto de máscaras e isolamento.

A pandemia impacta na saúde mental

Dr. Wallas é psiquiatra. Foto: Arquivo Pessoal

A pandemia do novo coronavírus tem mostrado que a saúde mental da população mundial também está sendo afetada. “O fato de surgir uma doença potencialmente letal, com significativo número de mortos em quase todos os países, ainda sem cura, altamente transmissível, já torna a situação atual da saúde desesperadora. Soma-se a isso o isolamento como a melhor orientação para combater o aumento do número de infectados e não sobrecarregar ainda mais o sistema de saúde”, salienta o psiquiatra Wallas Ramos dos Santos.

Conforme o médico, o distanciamento social é uma das maiores dificuldades relatadas pelos pacientes. “Não poder abraçar nossos entes queridos, não conviver diariamente com os familiares e amigos, a proibição de aglomerações e reuniões, assim como a recomendação de uma distância mínima entre as pessoas pode causar sentimentos diversos, como ansiedade e angústia.  A mudança nos modos habituais de vida, a perda de renda devido ao afastamento ou demissão do emprego também são fatores que interferem na saúde mental.”

Dr. Wallas acredita que, enquanto não existir um estudo sobre o método ideal para tratar e prevenir as pessoas do vírus, os níveis de ansiedade da população continuarão elevados. Para amenizar a situação, ele aconselha que seja evitado o excesso de noticiários que aumentem a preocupação em relação à doença; evite-se o consumo excessivo de alimentos calóricos; atividades físicas sejam realizadas em casa; meditação; leitura; entre outras ações que podem auxiliar no controle do estado emocional. “A psicoterapia é um instrumento com capacidade significativa na redução dos transtornos ansiosos e na melhora dos sintomas. A troca de informações entre o psiquiatra e o paciente deve ser mantida nesse momento, de maneira segura e de forma eficaz para evitar a potencialização ou surgimento de sintomas relacionados às doenças preexistentes.”