Reprodução/site Iberê Camargo

Texto de Cimara Valim de Melo, reeditado para a Revista Evidência de julho:

Não pinto o que vejo, mas o que sinto.

Iberê Camargo

Aquarela de nossas vidas nem sempre assume matizes claros e vibrantes. Às vezes encerra, na penumbra dos dias, nossas obscuridades, angústias e incompreensões. Carlos Drummond de Andrade percebeu as incongruências da existência humana muito cedo, tocando por vezes o universo das palavras com imagens da escuridão:

É noite. Sinto que é noite

não porque a sombra descesse

(bem me importa a face negra)

mas porque dentro de mim,

no fundo de mim, o grito

se calou, fez-se desânimo.

Sinto que nós somos noite,

que palpitamos no escuro

e em noite nos dissolvemos.

Sinto que é noite no vento,

noite nas águas, na pedra.

(ANDRADE, 1999, p. 41)

Os questionamentos feitos por Iberê Camargo acerca dos homens e do mundo aproximam-se dos de Drummond, mesmo que tenham percorrido diferentes caminhos em sua arte. Ambos retrataram, por meio da linguagem, um mundo marcado pelas sombras, fazendo de sua obra veículo de questionamento e resistência. Ambos se mantêm assustadoramente contemporâneos, refletindo com vigor o seu tempo em nosso tempo, como em um jogo de espelhos, pelos quais a face da realidade pode ser traduzida e revelada.

Nosso pintor gaúcho, que nasceu em Restinga Seca dia 18 de novembro de 1914 e faleceu em Porto Alegre dia 09 de agosto de 1994, é apreciado não apenas pela qualidade estética de suas produções pictóricas, mas pela forma intensa como expressa em suas telas os mais profundos sentimentos humanos. Seus quadros transfiguram o real, redimensionando nossa própria interpretação do mundo em cada detalhe oferecido pela junção de cores ou pela deformação de imagens cotidianas.

O olhar de Iberê sobre si e a ‘outridade’ mescla presente, passado e futuro, desorganizando sensações, aguçando questionamentos, transmutando olhares. As realidades interna e externa, apresentadas pela força das tintas, fazem com que muitos críticos o considerem um pintor expressionista. Contudo, sua arte não é classificável, transcendo a lucidez do mundo concreto para atingir – ou tingir – o universo onírico, o inconsciente, a abstração inerente à vida.

Há, além disso, pontos de contato com a poesia de Fernando Pessoa, se visualizarmos o modo como vários de seus quadros retratam a questão identitária. A fragmentação do ser humano, que se desencontra em um mundo de sombras e incompreensões, faz com que Iberê não seja um artista de tons constantes, mas arbitrários. Sua multiplicidade também abarca o estranhamento do ‘eu’, com suas próprias dissonâncias e em face da desumanização da sociedade.

As primeiras exposições de Iberê Camargo ocorreram na década de 1940, momento em que predominaram cenas paisagísticas e formas humanas. Seus retratos e autorretratos são talvez uma tentativa de redescoberta da individualidade, de compreensão de si e dos seus semelhantes. Aos poucos, encruzam-se novas formas e temas, entre os quais destacam-se os carretéis produzidos a partir dos anos de 1950. Tais objetos simbolizam não apenas o passado, a infância, mas a própria vida, que se desenrola sem nosso controle, assumindo dimensões inimagináveis. A dissolução das fronteiras entre figuras e abstrações, a partir daí, revelam o melhor do pintor, que joga com cores, texturas e espessuras assim como o poeta trabalha com as palavras na tentativa de expressar o inefável.

Rolando para fora da caixa de costura de sua mãe, o carretel de linha foi, segundo Iberê Camargo, seu principal brinquedo de infância. Por isso, em um período de sua vida em que o artista concentra a sua atenção nas memórias mais profundas que carrega consigo, essa figura surge como personagem privilegiado em seus trabalhos. (FUNDAÇÃO IBERÊ CAMARGO, 2018)

Já os ciclistas, eternos passageiros, preconizam o movimento do tempo, a conexão entre imaginação e realidade, vida e morte. Sugerem talvez vidas sem rumo, sem destino certo, embora com infinitas rotas. Além deles, as chamadas ‘idiotas’, passivamente imóveis, podem representar a ignorância humana ou o deslocamento do ser frente ao mundo. Suas deformidades grotescas rompem com padrões de beleza, traduzindo o caráter agudamente reflexivo da arte de Iberê. Contudo, quaisquer que sejam os motivos, é perceptível em sua insólita aquarela o drama do homem contemporâneo, suas lutas e angústias.

A paisagem interior, a obscuridade da vida, o tempo, a morte são temas vivos na arte de um dos mais conhecidos pintores gaúchos, que ultrapassou sete mil obras produzidas, incluindo diversos desenhos. Delas, em torno de quatro mil pertencem à Fundação Iberê Camargo, originada em 1995, cujo museu está localizado às margens do Guaíba, em Porto Alegre. O espaço tornou-se parada obrigatória para arquitetos e interessados em arte e cultura, não apenas pela complexa obra projetada por Álvaro Siza, mas por acolher em seu interior exposições, cursos, encontros com artistas e curadores, palestras, oficinas, programas educativos, entre outras atividades que têm como foco não apenas a obra de Iberê Camargo, mas diversos outros temas ligados a expressões do contemporâneo.

Na pictórica de Iberê Camargo, encontramos a poética de nosso tempo. Talvez por isso Iberê e Drummond tenham, em suas diferenças artísticas, tantos elementos comuns. A poesia se faz resistência pelo movimento verbal, que vai do brado ao completo silêncio. Já as artes visuais, pelo exemplo de Iberê, trazem tonalidades de uma realidade desencantada e, paradoxalmente, a busca pelo reencantamento. As cores vivas, ocultas ao fundo de superfícies mórbidas, são pistas da esperança latente em cada quadro… São fagulhas da luz que precisa ressurgir em cada um de nós, a fim de resistirmos às impiedades destes novos tempos.

Este é tempo partido,

tempo de homens partidos.

[…]

Calo-me, espero, decifro.

As coisas talvez melhorem.

São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir.

(ANDRADE, 1999, p. 29)

 Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 1999.

FUNDAÇÃO IBERÊ CAMARGO. Brinquedos da Infância. Porto Alegre, ago. 2018. Disponível em: http://iberecamargo.org.br/programa/oficina-brinquedos-da-infancia/. Acesso em: 14 jun. 2020.