Ilustração de Jorginho
Ilustrador morou em Gravataí e atua ao lado de outros artistas da cidade, no ColetiveArts. Foto: Arquivo Pessoal

Como toda história, essa teve bons e maus momentos. A parte boa? A descoberta de um talento, o aperfeiçoamento artístico, o reconhecimento, a oportunidade de trabalhar exclusivamente com o que se gosta. A parte ruim? O fato de que nem sempre as pessoas são incentivadas a se dedicarem à arte. Ainda há quem não enxergue o trabalho e a grande dedicação por trás das ações e obras de um artista. No percurso, o ilustrador Jorge Luís Cardoso Pereira (44), o Jorginho, certamente encontrou dificuldades, mas reclamar não é sua postura. “Não me permito ser negativo”, frisa o profissional, que também é um dos administradores do grupo ColetiveArts e ministra aulas de desenho – agora suspensas por causa da pandemia.

Criatividade é algo com que um artista lida sempre. Já o apoio para exercitar essa criatividade, falta algumas vezes. Embora desenhar seja uma das atividades prediletas de Jorginho desde a infância, quando criança não o pouparam de comentários do tipo “pare de gastar papel, pare de riscar nas coisas, vá fazer algo útil”. Quem dizia isso não compreendia que os rabiscos eram uma forma de se expressar. E mais: a imaginação traduzida na ponta do lápis era seu refúgio para dias difíceis. Nos anos 80, o desenhista morava em Alvorada, que era considerada na época uma das cidades mais violentas da região. Em casa, quando queria “fugir” daquele contexto desfavorável ao desenvolvimento de qualquer garoto, era nos desenhos que encontrava paz. Sensíveis à situação, as madrinhas, Lourdes Pastorizza e Tânia Camilia, foram as primeiras incentivadoras, presenteando-o com materiais para desenhar.

Jorginho é transplantado (córnea esquerda). Grato por poder enxergar, é ativista na causa da doação de órgãos. Ilustração de Jorginho

Jorge foi adotado, e o tempo mostrou sua capacidade de conduzir ou “desenhar” a própria história. No ano 2000, ele venceu seu primeiro concurso, com um cartum de crítica ao racismo nas seleções de trabalho. Percebeu que esse poderia ser o caminho profissional, mas demorou um pouco até se assumir como um artista. “Minha esposa, Patrícia Maciel, me ajudou muito no processo”, comenta, acrescentando que atualmente trabalha somente com a arte. “Desenho, crio possibilidades, projetos. A situação é difícil, eu sei, vejo. Mas estou sempre tentando cavar oportunidades para que minha arte apareça, para que surjam contatos, para estabelecer relações.”

Há pouco mais de dois anos, o ilustrador se mudou para Sapucaia do Sul, porém não perdeu o vínculo com Gravataí, cidade que lhe é especial por vários motivos. O filho Peter (nome escolhido por causa do personagem Peter Parker, o Homem-Aranha) é gravataiense nato. Além disso, o ColetiveArts tem sede no município, apesar de reunir artistas, principalmente escritores, de diferentes regiões do Brasil e de Portugal. O alvoradense explica que o grupo foi criado por iniciativa do colega de faculdade de Pedagogia Israel Santiago, o Tio Isa. Inicialmente, a proposta era o lançamento de uma página no Facebook sobre os trabalhos de ambos. Avaliaram, todavia, que podiam fazer algo mais original. Dessa forma, começaram a ingressar no projeto mais artistas. Surgiu um time no qual cada um colabora com a própria experiência e talento.

Ilustração de Jorginho
Foto: Arquivo Pessoal

Entre os integrantes do ColetiveArts também estão Patrícia Maciel, Rafael Ilhescas, Fábio da Silva Barbosa, Denílson Reis, Cris Bastianello, Luciano Xaba e a jovem Panda. Através de um portal (coletivearts.blogspot.com) e das redes sociais, os artistas divulgam seus trabalhos. São apresentados textos, ilustrações, entrevistas, podcasts e programas no YouTube. Antes da pandemia, oficinas e eventos culturais foram desenvolvidos, atividades que pretendem retomar quando for possível. “Estou louco para voltar à normalidade e realizar oficinas em abrigos e locais de vulnerabilidade, porque acredito que a arte salva. Quero reativar a tira em quadrinhos Gabijú, Covinhas do Mal e fazer uma exposição virtual de ilustrações dedicada aos 8o anos de Bob Dylan”, antecipa Jorginho, mostrando que inspiração e motivação para trabalhar tem de sobra! Fã de rock e de cartunistas como Carl Barks, Quino e Santiago, entre outros, o ilustrador também se dedica a trabalhos sobre temas sociais. Atualmente, produz artes para projetos relacionados ao autismo, doação de órgãos e alienação parental.

*Esta matéria faz parte da edição de abril da Evidência.