Dr. André Longhi conversou com a Evidência sobre as perspectivas da segunda onda de casos de coronavírus no Brasil. Foto: Arquivo Pessoal

Este mês começa o verão e, com a chegada da estação mais quente do ano, surge a dúvida: como ficará a pandemia de coronavírus? Alguns acham que a situação se estabilizou e assim permanecerá. Outros acreditam que o Brasil vai enfrentar uma segunda onda de Covid-19, com o surgimento de muitos casos em curto espaço de tempo. A Evidência conversou sobre o tema com o médico pneumologista pediátrico André Luis Soares Longhi (48), que atualmente presta atendimento nos hospitais Moinhos de Vento e Presidente Vargas. O especialista atuou por 13 anos como pneumologista pediátrico da Secretaria da Saúde de Gravataí e também trabalhou no Centro Alfa.

Entrevista

– O assunto tem dividido opiniões: segunda onda da Covid-19 no Brasil. O que achas a respeito? Acreditas nessa possibilidade ou imaginas que a situação ficará estabilizada?

“Esta é uma pergunta bastante difícil, pois vivemos um momento nunca antes imaginado. A evolução e o curso da doença ainda não são completamente claros, criando esta sensação de incerteza. Ao mesmo tempo que, após tantos meses, vamos nos acostumando com a pandemia e equivocadamente nos descuidando da prevenção básica, os números de casos parecem voltar a crescer como se tem observado em vários países da Europa. O isolamento social não é algo natural ao ser humano e obviamente todos estão muito cansados e sofrendo os danos comportamentais do lockdown. Infelizmente, acredito na possibilidade que uma segunda onda também possa ocorrer em nosso país.”

– Alguns têm alegado que o fato de estarmos num período de temperaturas mais elevadas fará com que não aumente o número de casos de coronavírus. Por outro lado, destaca-se que é difícil saber como a doença “agirá”. Como achas que ficará o cenário no verão?

“O primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil ocorreu no final de fevereiro, ainda durante o Carnaval e em pleno verão, ou seja, o vírus provavelmente já estava entre nós há alguns dias. É importante lembrar que o coronavírus continuará circulando e que os cuidados devem ser mantidos, apesar de sua sazonalidade com provável diminuição temporariamente durante o verão. São fundamentais políticas públicas de recomendações para os veranistas durante a temporada, uma vez que parte do comportamento do vírus depende das nossas intervenções sociais, bom senso e responsabilidade. Em muitos países da Europa foi exatamente o que aconteceu durante os meses de verão: diminuição de casos , relaxamento de medidas de prevenção, novo aumento gradual de casos, retomada das intervenções e ações visando a evitar a segunda onda do vírus, o  que já parece bem real em várias nações.”

– Do teu ponto de vista, o relaxamento quanto ao cumprimento dos protocolos sanitários e distanciamento social pode piorar a situação no Brasil?

“A retomada gradual de muitos serviços, a reabertura de espaços públicos, a elevação da temperatura que levará mais e mais pessoas para o litoral passam a falsa impressão de que a vida voltou ao normal. O relaxamento de cuidados pessoais e do cumprimento de protocolos sanitários pode aumentar, sim, o número de casos que vêm diminuindo gradativamente em nosso país nas últimas semanas.”

– Especificamente em Gravataí, o que destacas sobre o enfrentamento à doença? 

“Temos que seguir juntos enfrentando esta batalha. Profissionais da saúde e população jogando juntos com responsabilidade e bom senso e acreditando que o pior já passou e que em pouco tempo deveremos ter uma vacina que poderá nos ajudar no enfrentamento deste vírus. Cada um deve fazer a sua parte, utilizando máscaras, evitando aglomerações, evitando os chamados comportamentos de risco, permanecendo em isolamento na presença de quaisquer sintomas de infecção viral, tomando cuidados, em especial, com as populações de risco, conversando com o seu médico em caso de dúvidas e procurando agir pelo bem comum.”

– Sobre o cenário em outros países, acreditas que o período com muitas pessoas infectadas se prolongará?

“Este é um assunto bastante complexo. Há muitas teorias e especulações e, de fato, poucas certezas. Tenho bastante fé no advento de uma vacina com eficácia comprovada nos próximos meses. Esta é a disputa pela chegada à lua do nosso tempo. Não deixa de ser também uma discussão controversa pelo tempo de pesquisa reduzido, pelas fases abreviadas no desenvolvimento das mesmas, pelo pouco tempo para avaliar os efeitos colaterais, mas são adaptações pertinentes aos tempos de guerra.”

– Estás otimista então quanto à disponibilidade de uma vacina em breve?

“Tenho bastante fé que a chegada de uma vacina será o início de uma virada de página na pandemia de Covid-19. Existem, no momento, mais de 10 vacinas em fase 3 de teste no mundo. A fase 3 é a última etapa antes da aprovação, sendo realizada em milhares de pessoas de diferentes populações, avaliando efeitos colaterais e proteção contra o vírus.”

– Considerando a tua área de atuação médica, o que se sabe sobre os possíveis efeitos da Covid-19?

“Na pneumologia pediátrica, o coronavírus teve um efeito bastante sutil. Os sintomas nas crianças são muito leves, na maioria das vezes menos do que uma gripe. No início, tivemos um grande temor em virtude dos pacientes asmáticos, mas o que se observou na prática foi que as crianças não estavam piorando, que não havia mais procura por emergência. A conclusão foi de que a asma bem controlada não representa fator de risco para o coronavírus. Durante a pandemia, o isolamento social das crianças que permaneceram com aulas em casa, evitou a contaminação com os vírus respiratórios comuns do outono-inverno e que são uma das principais causas de crises de asma, sibilância (chiado) e bronquiolite nos bebês. Por outro lado, o isolamento social para as crianças e adolescentes implica, invariavelmente, alterações comportamentais, ansiedade, depressão, ociosidade, tempos patologicamente longos voltados para uma tela de celular, entre outros aspectos. Muitos tratamentos médicos também foram abandonados em função do isolamento e do medo de sair de casa. Enfim, é outra longa discussão.”

– Imagina que iniciaremos 2021 com melhores notícias em relação à pandemia?

“Acredito que sim. É difícil uma resposta assertiva, pois envolve múltiplas considerações. Acho que aprendemos muito com a pandemia e que muitos cuidados permanecerão conosco para o resto da vida. Ela nos marcará e estará para sempre na memória das nossas crianças. Como disse recentemente um escritor gaúcho: ‘as crianças se lembrarão das coisas boas e do tempo em casa com os pais’. Assim, esperamos que não haja tantas cicatrizes profundas e que a vida recomece com novos planos e esperança.”

*Esta entrevista integra a edição de dezembro da Evidência, que em breve estará em circulação.