Vivian desenvolve pesquisas em Sydney, na Austrália. Foto: Jadon Wells

Algumas pessoas precisam de bastante tempo para avaliar com o que vão trabalhar, qual carreira irão seguir. Outras, no entanto, descobrem cedo a área de interesse profissional. E este foi o caso de Vivian Francilia Silva Kahl (33). Ainda no ensino fundamental, no Colégio Dom Feliciano, ela se identificou com o ramo de Ciências. Hoje em dia, recorda com carinho das aulas sobre genética básica, da forma didática com que a professora explicava as Leis de Mendel e todos os conteúdos que despertaram sua curiosidade e vontade de aprender cada vez mais.

Aos 13 anos, a gravataiense já estava convicta de que iria trabalhar com isso. Ávida por conhecimento, pediu à mãe, Rosangela Ramos da Silva, que assinasse a revista Scientific American Brasil. A leitura sobre temas científicos fortaleceu a intenção de se tornar bióloga. “Nossa situação financeira nunca foi fantástica. Fui bolsista boa parte da minha formação, mas minha mãe nunca mediu esforços para me incentivar a seguir a carreira que eu queria. A partir dali, comecei a pensar na faculdade, porém achei, honestamente, que iria dar aulas e pronto. E estava muito feliz com essa ideia.” Contudo, o caminho a levou para o campo de pesquisas e, atualmente, integra a equipe do centro Telomere Length Regulation Unit, que fica no Children’s Medical Research Institute (CMRI), em Sydney, na Austrália. Também é professora associada na School of Medical Health da University of Sydney.

No primeiro ano da graduação em Ciências Biológicas, Vivian soube da possibilidade de atuar como pesquisadora júnior na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), auxiliando em projetos de mestrado e doutorado. “Procurei a professora Juliana da Silva, que era pesquisadora chefe do Laboratório de Genética Toxicológica. Me candidatei a uma bolsa de iniciação científica da CAPES e consegui ingressar. De lá pra cá, foram quatro anos na iniciação, dois anos de mestrado e quatro de doutorado, com um total de 19 artigos publicados”, conta a doutora em Biologia Celular e Molecular Aplicada à Saúde. Durante a especialização, a bióloga esteve na Austrália duas vezes, em 2014 e 2017. Na primeira visita, realizou um treinamento de 30 dias num centro de pesquisa de Adelaide. Na outra ocasião, permaneceu na mesma cidade por um semestre, dedicando-se aos estudos. “Eu tinha uma bolsa do Programa de Doutorado Sanduíche da CAPES, que premia alunos e instituições com excelente desempenho acadêmico para executarem parte da sua pesquisa fora do Brasil”, explica.

Capa de setembro de 2020.

As duas passagens pelo país da Oceania foram suficientes para que a pesquisadora se apaixonasse pelo local e planejasse a mudança. Isso aconteceu, todavia, mais rápido do que ela imaginava. Um dos primeiros passos da aldeã foi buscar um emprego. Em setembro de 2017, foi contratada pela Dra. Hilda Pickett para trabalhar no CMRI. A forma como conquistou a oportunidade demonstra todo o esforço e dedicação à carreira. Teve a iniciativa de enviar um e-mail à professora, dizendo quem era, o que fazia e o que admirava no trabalho dela. Ambas se dedicavam a estudos na mesma área e, após uma palestra, Hilda decidiu recrutá-la para a equipe. Em fevereiro de 2018, fixou residência em Sydney e um mês depois teve o visto aprovado.

Uma das razões para a gaúcha ter-se mudado para a cidade australiana é a valorização do país às pesquisas, em diferentes segmentos.  “Como pesquisadora na área da Ciência, posso dizer que a estrutura que encontrei no laboratório de Adelaide e mesmo no de Sydney, onde trabalho hoje, não é muito diferente do que eu vivenciei no Brasil. Me refiro aos equipamentos disponíveis, especificamente. O que muda é que eventualmente, aqui, encontro equipamentos mais modernos, mas que não fazem, necessariamente, a pesquisa ser melhor por esse motivo. A diferença está na valorização do pesquisador e do desenvolvimento científico em si, o que se reflete no quanto de dinheiro é investido em pesquisa.” A cientista destaca que, na Austrália, quem faz pós-doutorado tem todos os benefícios concedidos ao trabalhador de qualquer área. Os que estão em formação, nesse nível, não são descritos somente como estudantes, mas pesquisadores. “Existem centros de pesquisa nos quais há equipamentos caríssimos e de ponta de linha, normalmente financiados por verbas governamentais focadas no desenvolvimento científico e tecnológico do país. Além disso, a população tem engajamento social na pesquisa. A maioria dos institutos de pesquisa australianos são filantrópicos. O australiano tem muito orgulho em ajudar no desenvolvimento científico e tecnológico. Um outro aspecto relevante é que colaborar com empresas privadas não é visto com maus olhos. Infelizmente, no Brasil, ainda se enxerga a colaboração da pesquisa com empresas privadas como se o pesquisador estivesse se vendendo”, comenta.

Um pesquisador, um curioso

Curiosidade, dedicação e muita resiliência. Não é uma fórmula, mas são elementos fundamentais para qualquer pesquisador. “A gente leva anos para descobrir alguma coisa legal e a pesquisa básica, como a que eu faço, nem sempre vai chegar diretamente no paciente. Ela vai servir de base para outros estudos, instigar mais perguntas do que respostas. Mas é muito prazeroso, divertido e emocionante. Ser pesquisador requer estar sempre lendo e se inteirando, não só sobre a sua área e, sim, sobre o mundo. Não temos como desenvolver pesquisas que sejam realmente úteis pra sociedade se não entendermos as diferenças culturais, religiosas, e se não usarmos nossos experimentos para desconstrução de males sociais como racismo, machismo, homofobia. Nosso papel, enquanto cientistas, é mostrar para o mundo o quanto as sociedades melhoram através da pesquisa científica e tecnológica.”

Métodos inovadores

Uma das coisas gratificantes a todo profissional é o reconhecimento pelo seu trabalho e contribuição com a sociedade. E isto Vivian tem recebido. Recentemente, a pesquisadora publicou um artigo sobre os estudos desenvolvidos em laboratório nesses dois anos em que mora na Austrália. Seus experimentos têm sido destaque em importantes publicações científicas. Ela liderou a equipe, analisou os dados e redigiu o artigo, que se baseia numa metodologia nova para o diagnóstico de câncer. “Desenvolvi um método inovador para medição do comprimento dos telômeros, uma estrutura do DNA que protege o nosso genoma e tem papel fundamental no desenvolvimento de câncer. De forma bem resumida, os telômeros encurtam de forma natural ao longo da vida, mas, às vezes, esse processo pode tomar um caminho disfuncional, levando ao seu encurtamento muito acelerado, aumentando a instabilidade genômica e conduzindo à carcinogênese. O método que eu desenvolvi é robusto e o único no mundo que mede os telômeros de forma absoluta e precisa, podendo ser usado como um fator extra no diagnóstico de câncer e de um grupo de síndromes raras – Telomere Biology Disorders (TBD) – nas quais algumas pessoas já nascem com telômeros muito curtos, apresentam envelhecimento precoce, leucemia, falência da medula óssea, entre outros quadros”, relata.  Segundo a cientista, atualmente o centro de pesquisas trabalha com o setor de hematologia de um hospital local para implementar o método como diagnóstico das TBDs e de câncer. O departamento é o único do país creditado internacionalmente para usar essa técnica.

No laboratório, Vivian também se dedica a outros dois projetos. Um deles refere-se aos experimentos de um aluno do doutorado que investiga formas de inibir uma enzima específica que se manifesta no início do processo cancerígeno. O outro estudo é o seu predileto e deve ser concluído nos próximos meses. “Estou isolando telômeros do DNA humano, estabilizando-os fora das células, o que é um processo bem difícil de fazer, e enviando para sequenciamento genético. A ideia é entender quais variações genéticas ocorrem nessa estrutura nos diferentes cromossomos humanos e como podemos usar esse entendimento para evitar a ocorrência de câncer e para criar terapias mais eficazes para portadores de TBDs.”

Rotina na pandemia

A pandemia de Covid-19 interferiu na rotina de trabalho no CRMI. Inicialmente, a gravataiense trabalhou em casa; depois, a instituição optou por dividir os pesquisadores em times, sendo que cada grupo trabalhava no laboratório em semanas alternadas. Assim como no Brasil, a rotina vai-se adaptando conforme os decretos do governo. Até a primeira quinzena de agosto, a Austrália havia registrado aproximadamente 22 mil casos de coronavírus. De forma geral, a doutora em Biologia Celular e Molecular Aplicada à Saúde aponta que a população está respeitando as medidas impostas de distanciamento social. O uso de máscaras não é obrigatório, porém a maioria utiliza ao sair de casa, assim como cumpre as recomendações sanitárias.

Um país repleto de encantos

Foto: Arquivo Pessoal

A bióloga se adaptou muito bem ao estilo de vida australiano. Ela afirma que o país não é perfeito, porém o considera maravilhoso! “O clima de Sydney não é muito diferente do Rio Grande do Sul, só é menos úmido, o que confesso: faz muito bem para o meu cabelo crespo (risos)!” A culinária tem forte influência britânica, embora também seja possível encontrar muitos restaurantes de comida asiática. “A Austrália é o único país que tem o Vegemite: uma pasta de vegetais para espalhar no pão”, comenta, admitindo que não gosta da iguaria. “Australianos dizem que existe um jeito certo de comer Vegemite: espalhar uma camada muito, mas muito fininha na fatia de pão. Do meu ponto de vista, se para uma coisa ser relativamente boa, eu tenho que comer tão pouco assim, é porque ela não é boa de verdade (risos)”.

A cientista ressalta que Sydney é uma cidade linda, com praias e espaços públicos que propiciam a prática de esportes e passeios em família. A funcionalidade do transporte público e a segurança são aspectos que aprecia. “É extremamente seguro sentar em um parque, sozinha, tirar um cochilo no sol, ler um livro. É seguro ir à praia, entrar no mar e deixar todas as minhas coisas na areia, inclusive celular e carteira. Ninguém mexe. Não há nada que pague essa tranquilidade.” Outro fator positivo é que a população tem fácil acesso à educação e a atividades culturais e de lazer, o que faz com que as diferenças sociais não sejam tão evidentes como em outros países.

Fora do laboratório…

A brasileira ama o trabalho no centro de pesquisas, mas também adora os momentos de lazer. Sua rotina inclui academia, corrida, além de hábitos como sentar no parque pertinho de casa para tomar um chimarrão e ler um livro; comer fora, sozinha ou com amigos; ir à praia e cruzar a Harbour Bridge para visitar amigos que moram no norte da cidade. “Às vezes, cruzo a ponte a pé ou de trem. Uma outra forma de se chegar no norte de Sydney é ir de balsa da região da Circular Quay para essas áreas. Esse é um dos meus passeios favoritos porque a vista é sensacional”, conta. Visitar os parques nacionais da região, acampar e navegar de caiaque são outras atividades nas horas livres. De junho a agosto, esquiar é uma de suas diversões. A pesquisadora tem muitos amigos em Adelaide, por isso frequentemente vai passar o fim de semana lá. Costuma ir também para Brisbane, onde mora o namorado, Michael. Atualmente, a gravataiense avalia a mudança para lá, onde centros de pesquisa já demonstraram interesse em contratá-la devido à expertise na área de telômeros.

Lembranças da Aldeia

A professora associada na School of Medical Health da University of Sydney é natural de Gravataí, onde residiu até 2013. Na infância, morou grande parte do tempo na Várzea, perto do Clube Alvi-Rubro. “Lembro de brincar na calçada com as crianças da rua, pulando amarelinha e jogando vôlei. Aprendi a andar de bicicleta no Alvi-Rubro, onde o meu pai trabalhava na Secretaria, nos turnos da manhã. Estudei no Dom Feliciano por toda minha formação inicial”, salienta. Da escola, tem belas recordações. Na memória, ficaram muitos momentos, sobretudo as demonstrações de carinho dos professores, em especial de Rita Belleza, que a apoiou em períodos difíceis, como a perda do pai. Vivian também lembra da mudança para um imóvel na parada 79, onde assistiu pela janela à construção do Parcão.

Desde 2018, ela não visita o município, contudo sente muita saudade dos familiares e amigos. “Mas estamos sempre em contato, o que afaga o coração. Viver aqui, do outro lado do mundo, com uma distância de no mínimo 24 horas de avião e aeroportos, foi uma escolha que fiz. Não foi uma escolha particularmente difícil e não me arrependo. A Austrália é a minha casa, o meu país, o lugar que pretendo morar para sempre.” Rosangela e o esposo, Oldemir Paula dos Santos, moram em Viamão agora, mas alguns familiares da cientista permanecem em Gravataí. A madrinha, Rosania Maria Ramos da Silva, planeja ir para a Austrália assim que possível, com a neta Magnólia. Entre as amigas que vivem aqui e a bióloga conversa com frequência estão Thais Deamici de Souza e Mariana Schmidt. “Eu pretendia ir ao Brasil no Natal deste ano, mas, devido à pandemia, não irei. Em consequência de como o Brasil está lidando com a Covid-19, o governo australiano não tem previsão de abrir as fronteiras com o país antes de 2022, a não ser que uma vacina eficaz chegue antes e, pelo menos, 80% da população seja imunizada”, revela. Quando houver possibilidade, no entanto, pretende visitar Gravataí para rever os familiares e amigos queridos.

*Reportagem de capa da Evidência de setembro.