Valéria é psicóloga e juíza. Foto: Marcelo Rodrigues

É possível descrever uma mulher com apenas uma palavra? Muitos dirão que não. E realmente parece difícil fazer isso! Afinal, as mulheres são, assumidamente e reconhecidamente, versáteis, conseguem conciliar vários papéis e desempenhá-los com muito amor e dedicação. Enfim, são, muitas vezes, inspiradoras. É por isso que a Revista Evidência não poderia deixar de prestar sua homenagem à população feminina, neste mês de celebração ao Dia Internacional da Mulher.

Foto: Marcelo Rodrigues

A essência feminina está, justamente, nessa habilidade em “ser tantas coisas”. Ser forte e não perder a delicadeza. Ser vaidosa e, ao mesmo tempo, se preocupar com a beleza interior. Ser competente, porém estar ciente de que sempre há o que aprender. Em março, a Evidência traz uma edição especial dedicada às mulheres, sendo que a capa é a juíza e psicóloga Valéria Eugênia Neves Willhelm, atual diretora do Fórum de Gravataí. A porto-alegrense de 60 anos, canceriana nascida em 12 de julho, é casada e tem dois filhos. Avó, por enquanto, de oito cães da raça Akita e quatro gatas. Com pai aeronauta e mãe do lar, ela passou a infância no bairro Petrópolis, na capital gaúcha. Ao lado dos quatro irmãos, brincava na rua, andava de bicicleta e de carrinho de lomba. Descobriu cedo a paixão pela ginástica olímpica. É no esporte, aliás, que tem uma das melhores recordações de criança: um desfile de 7 de setembro no qual foi baliza, representando o Instituto Porto Alegre (IPA).

Beleza e carisma renderam o título de Rainha das Piscinas do Grêmio, em 1979. Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução

Excelente aluna, Valéria teve o desafio de se adaptar a uma nova escola em outro país quando tinha apenas 11 anos. A família se mudou para os Estados Unidos, permanecendo por lá sete anos. Ela estudou em Los Angeles, na Califórnia, até voltar para o Rio Grande do Sul. “Eu não falava inglês e tive que aprender na base da mímica e da observação do comportamento das pessoas. Não foi nada fácil, mas, após três meses de frequência à escola, e muita determinação, passei a dominar a língua estrangeira.” No retorno ao Brasil, já com 18 anos, passou a lecionar Inglês e trabalhar como modelo para comerciais de televisão. As peças publicitárias colaboraram para uma conquista em 1979: a bela morena foi eleita Rainha das Piscinas do Grêmio, seu time do coração.

O período no exterior fortaleceu a identificação com as Ciências Humanas e foi determinante para a definição do curso que faria no ensino superior. “Procurava cursar matérias eletivas voltadas para a área do comportamento humano, durante o high school (ensino médio), pois as escolas americanas permitem que o aluno escolha matérias de seu interesse, além das curriculares, o que me levou a optar pelo vestibular de Psicologia”, comenta a profissional formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Aos 33 anos, após experiência como perito psicóloga no Juizado da Infância e Juventude de Porto Alegre, a porto-alegrense decidiu focar os estudos na área jurídica. “Defini ser juíza desde o meu ingresso na faculdade de Direito, sempre estudando com este objetivo, sendo que após a formatura, cursei a Escola da Magistratura, para fins de preparação para o concurso, no qual fui aprovada.”

Foto: Marcelo Rodrigues

Valéria foi empossada juíza de Direito em 2007, inicialmente sendo designada para a Vara do Júri de Caxias do Sul. Em 2009, foi classificada na Comarca de Campina das Missões. Atuou em Cândido Godói e São Borja e, em 2013, pediu remoção para a Comarca de Bento Gonçalves, tendo jurisdicionado na 2ª Vara Criminal, com Juizado da Infância e Juventude e Violência Doméstica. Entre 2016 e 2019, a profissional trabalhou no Fórum de Novo Hamburgo, vindo, então, para Gravataí, onde se dedica à 1ª Vara Criminal. Ela assumiu a direção do Foro no ano passado.

Objetivos profissionais

A magistrada tem, claro, muitas atribuições, mas destaca que se sente realizada com o trabalho jurídico. Além disso, aponta que lidar com relações humanas é gratificante. A dedicação e comprometimento que tem com as atividades que desenvolve, notáveis desde a infância, são indispensáveis em sua carreira. “Minha meta pessoal é prestar um atendimento de excelência aos jurisdicionados, servidores e operadores do Direito, na busca de uma Justiça verdadeiramente célere e justa. Sempre trabalhei e trabalho em prol das pessoas, sem distinção. Em cada comarca por onde passei busquei desenvolver algum trabalho social, pois entendo que o trabalho do juiz deve ir além do Fórum. Sinto-me grata por ter conseguido desenvolver trabalhos que fizeram a diferença nas comunidades onde exerci a Magistratura”, afirma a juíza, que já recebeu diversas homenagens nos municípios onde trabalhou. “Fico agradecida pela oportunidade que me concedem de exercer minha missão social”, acrescenta.

Atuação do Judiciário

Em 2018, a diretora do Fórum esteve em Boston (EUA), com um grupo de magistrados, para um curso. Foto: Arquivo Pessoal

Na opinião da diretora do Fórum de Gravataí, a pandemia de Covid-19 tornou ainda mais clara a importância de um Judiciário forte, atuante e preocupado com a população. “Por determinação do Tribunal de Justiça Gaúcho, mantivemos nosso trabalho, mesmo que online, nos períodos de bandeira vermelha, prestando atendimento a todos os órgãos e cidadãos”, comenta. No quesito atuação do Poder Judiciário, Valéria ressalta que o incentivo à ressocialização é de extrema relevância, por isso algumas ações já são promovidas na cidade. “Junto com a Direção do Instituto Penal, criamos o primeiro Conselho da Comunidade da Comarca, tendo como membros efetivos pessoas altamente qualificadas e interessadas na ressocialização dos reeducandos. Realizamos, inclusive, uma festa de Natal virtual com a participação dos apenados, com direito a bolo e refrigerantes, sem falar nos presentes para os filhos destes”, conta.

Sempre em atividade!

Andar de bicicleta: gosto que adquiriu ainda na infância. Foto: Arquivo Pessoal

A juíza é superativa, no trabalho e na vida pessoal! Na rotina jurídica, gosta de resolver conflitos e de tomar decisões, sempre primando pelo bem-estar social.  “Nem sempre minhas decisões vão agradar a todos, todavia, decisões, sopesadas de acordo com a Lei e o bom senso, são importantes para a coletividade.” Nos momentos de lazer, praticar musculação e pedalar são atividades que aprecia. Ela também adora viajar.

Às mulheres, resiliência

Segundo a magistrada, as mulheres ainda têm um grande caminho a percorrer se considerarmos os aspectos igualdade e segurança. “Uma grande parte delas ainda necessita reconhecer sua importância no mundo, através da elevação da autoestima, o que vai-lhes proporcionar serem o que desejarem ser, sem medo da concorrência e pressão por parte do universo masculino. Infelizmente, ainda, nos dias atuais, as mulheres, mesmo as supostamente empoderadas, de forma inconsciente, consentem com avaliações machistas e desrespeitosas, o que deve ser combatido e ensinado desde a mais tenra idade. Só assim, as mulheres, de forma plena, vão conseguir seu merecido espaço na sociedade.”  Neste Dia Internacional da Mulher, a juíza deseja a todas as mulheres força, união, inspiração e muita alegria! “Coragem para decidir o que deseja, determinação e foco no objetivo que quer alcançar, e, por fim, resiliência, pois a luta é árdua, e não podemos desistir.”

*Reportagem de capa da Revista Evidência de março.