Dr. Israel trabalha há sete anos na emergência do Hospital Dom João Becker. Foto: Arquivo Pessoal

Dos primeiros relatos de casos de coronavírus, na China, ainda em 2019, até a propagação da doença pelo mundo, foram poucas semanas. Com a declaração de pandemia, em março, vieram à tona muitas questões sobre o vírus. Passados alguns meses, diversas perguntas seguem sem respostas. Mesmo diante de incertezas, os profissionais da saúde se deparam com o desafio de prestar atendimento ao grande número de pessoas que procuram os hospitais e outras unidades com sintomas da Covid-19. O médico Israel de Quadros Cardoso, que trabalha há sete anos na emergência do Hospital Dom João Becker, explica que os aspectos ainda não elucidados do coronavírus fazem com que a assistência oferecida tenha como referência quadros presentes em outras doenças virais, como a gripe H1N1, que também atingiu a população de vários países na pandemia de 2009.

Dr. Israel destaca que há diversos estudos em desenvolvimento, no mundo, com o objetivo de encontrar soluções para o tratamento desta nova doença, mas que nenhum apresentou resultados conclusivos até agora. “Um professor da faculdade costumava dizer: quando temos muitas opções de tratamento é porque nenhuma é boa. E de fato, nenhuma medicação, até o momento, se mostrou estatisticamente significativa em reduzir a mortalidade ou tempo de internação pelo coronavírus”, ressalta. O especialista em Medicina de Emergência aponta que, no Brasil, tem sido discutido o uso de medicamentos como a cloroquina, a ivermectina e o dexametasona no tratamento de pacientes infectados por esse vírus, porém, reafirma que ainda não foi descoberto o fármaco 100% eficaz para a recuperação. A cloroquina/hidroxicloroquina é utilizada para tratar doenças como a malária, lúpus e artrite reumatoide. Já a ivermectina é um remédio contra parasitas, como piolhos e pulgas. O dexametasona é usado no tratamento de enfermidades reumáticas, alergias e asma. “Precisamos compreender que é uma doença nova, surgiu há pouco tempo. Por isso, ninguém entende completamente o funcionamento, as complicações.”

Conforme o médico, no hospital de Gravataí, há casos em que opta-se pela utilização do dexametasona. Uma pesquisa de origem inglesa indica que este medicamento apresentou resultados positivos no tratamento de pacientes em estado grave, que precisam de ventilação mecânica. Contudo, o mesmo estudo alertou possíveis problemas decorrentes da medicação em pacientes com sintomas leves da Covid-19. Na instituição situada no município também há prescrições de azitromicina, que é um antibiótico com poder anti-inflamatório, e de fosfato de oseltamivir (Tamiflu), indicado na prevenção e tratamento da gripe, que tem alguns sintomas semelhantes aos do coronavírus. “No período de inverno, principalmente, pode voltar a circulação do H1N1, por isso trabalha-se com o Tamiflu. Mas, descartada a influenza, o medicamento não é utilizado.” Dr. Israel revela que a hidroxicloroquina não faz mais parte do protocolo adotado pela rede Santa Casa. “Acabamos reservando para casos selecionados, visto que tem várias interações medicamentosas e consequências, principalmente cardíacas. Temos que pesar o risco desta e qualquer medicação”, alerta.

De acordo com o médico, várias questões precisam ser esclarecidas, como a transmissão e forma como o vírus se replica. Constatações como essas são fundamentais para uma proposta de tratamento. “A certeza que temos é de que o vírus, na maioria das pessoas, vai causar um quadro leve ou assintomático; e, em algumas, sobretudo idosos e pessoas dos grupos de risco, poderá ter uma evolução pior.” Ele frisa que a lesão causada pelo coronavírus nos pulmões é muito complexa, o que torna o suporte ventilatório adequado imprescindível nos casos de maior gravidade. Em relação às medidas preventivas de distanciamento social e quarentena, recomendadas até então, Dr. Israel salienta que é difícil avaliar sua efetividade. “Quando tudo estava fechado, tínhamos poucos casos em Gravataí. Quando os locais abriram, os casos começaram a aumentar exponencialmente. Mas é preciso considerar que esse período coincidiu com a chegada do inverno”, comenta, enfatizando que as duas razões podem estar associadas ao aumento de casos. “O fato é que evitar o contato social ajuda a diminuir o contágio e não podemos ter muitas pessoas infectadas ao mesmo tempo, porque o sistema não conseguirá suprir a demanda.”