Foto: Divulgação/Paróquia N. Sra. dos Anjos

Na cultura e tradição cristã, a descrição bíblica, ao falar da criação do universo, nos diz que Deus viu que tudo era muito bom. A palavra cosmos sintetiza isso no seu significado de harmonia e ordem. A luta para preservar a natureza e todo cosmos deve ser de cada um de nós. Seres humanos e demais criaturas são chamados a viver em harmonia e paz. O cuidado com o meio ambiente é tarefa de cada um de nós.

Estamos vivendo um tempo em que a harmonia foi quebrada. Vivemos num momento de pandemia. Tempo de incertezas, medos, cuidados. Mudanças de hábitos se fazem necessárias. Momentos difíceis! Tempo que, além da doença Covid-19, poderá nos trazer também algumas consequências negativas pessoais ou coletivas, tais como: angústia e depressão, desespero e paralisação, desemprego e subemprego, miséria e fome. Estamos sujeitos às dificuldades que este tempo nos impõe. Por isso precisamos intensificar nossos cuidados de saúde, especialmente a dos mais vulneráveis e as pessoas em situação de risco. Portanto, vivemos um tempo de desafios….

Quisera que todos nós olhássemos para frente com realismo e otimismo. Não é tempo de derrota, mas de possibilidades. Somos movidos pela esperança. Precisamos encarar os desafios que se apresentam. Seguir as orientações de quem entende do assunto:  infectologistas, médicos, sanitaristas; provocando em nós mesmos e nos outros as mudanças necessárias na área da higiene e cuidado com a saúde.

Assim como cuidamos da saúde do corpo, também precisamos ter cuidado com a saúde psíquica, emocional, espiritual… A pandemia nos “obrigou” a parar e a encontrar tempo para uma procissão ao nosso interior. Olhando para dentro de nós mesmos somos desafiados a reorganizar as prioridades da vida. Muita coisa é importante, mas há coisas que são mais importantes: o cuidado da vida e da saúde, o outro…. Como é gostoso saber gastar tempo com os outros!

Apostar na solidariedade, não uma solidariedade pandêmica, circunscrita ao tempo em que estamos. Necessitamos de uma solidariedade edêmica. Significa que deva ser estrutural, capaz de fazer parte de nossas relações e de toda sociedade, de forma constante e permanente. No aspecto econômico e social, podemos e devemos ser mais solidários, almejando um mundo de justiça social, onde todos possamos viver a utopia cristã de sermos irmãos e irmãs. Quem sabe, a pandemia nos ajude a acreditar e a lutar por um mundo de maior igualdade social. E por que não uma nova ordem mundial mais solidária?

O importante é que aprendamos a nos cuidar mais, cuidando uns dos outros. A solidariedade não pode ser apenas uma partilha de algum bem material (alimentos, remédios, entre outras coisas). É preciso que aprendamos a nos doar. E isso inclui a nós mesmos, em prol dos outros e do bem comum. Ter tempo para si e para os outros. A máscara nos protege e protege o outro; as coisas, mesmo pessoais, têm repercussão social. A dor e sofrimento momentâneo da pandemia podem nos fazer sofrer, mas jamais nos aniquilar, pois com fé em Deus (penso na fé de todos os credos) e acreditando no ser humano e em suas capacidades, haveremos de superar este momento.

*Texto do Padre Tarcisio Arsenio Rech, publicado na edição de julho da Revista Evidência. Ele é pároco da Igreja Nossa Senhora dos Anjos e diretor do Lar Sacerdotal de Gravataí. Formado em Filosofia e Teologia, possui especialização em Psicopedagogia e foi assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e secretário executivo da instituição no RS.