Foto: João Alves

Confesso que já fui negacionista. Por volta dos seis anos de idade, dentre as poucas lembranças que tenho, recordo de tomar vacina em gota, provavelmente para poliomielite. Muito esperto, recebi a gota na língua, mas não engoli. Passado algum tempo, distante da mãe, cuspi longe. O período que fiquei com a vacina na língua foi suficiente para sua absorção, mas, negacionista que era, não dei o braço a torcer. Negacionistas são indivíduos que vão contra o que a ciência indica. Os cientistas têm lá sua culpa no cartório, eis que falta uma sintonia entre o mundo acadêmico/científico e a sociedade, inclusive na forma de se comunicar, que deve ser de maneira mais simples e desprovida de soberba. Feita essa ressalva, não tenho dúvida de que precisamos decidir baseados nos referenciais científicos. Ainda hoje, observamos pessoas falando que não tomarão a vacina contra o coronavírus, o que é um despautério diante das evidências científicas que possuímos. Embora a autonomia que todos têm, este é um caso de saúde pública e acredito que a sociedade deverá ser vacinada. Aliás, é o que nos resta para enfrentar a pandemia. O fechamento feito em março de 2020, que prejudicou severamente a economia, as atividades educacionais e tantas outras, serviria para achatar a curva de contágio e os governos teriam tempo para dar conta do atendimento à população. Só que não. Os problemas permaneceram e parece que a melhor solução é a vacina. Estamos todos ainda aprendendo como enfrentar o coronavírus. Não há um tratamento efetivo para combatê-lo, quando infectado. Para que nossas vidas possam voltar ao mínimo de normalidade, vamos torcer para que a vacina seja efetiva, superando esse negacionismo, que lembra coisa de criança.

Vacina contra chatos

As vacinas são produzidas a partir dos próprios micro-organismos causadores da doença. São versões enfraquecidas ou mortas desses micro-organismos que ativam os anticorpos ao serem injetadas. Desse modo, quando o indivíduo for infectado novamente, já terá a memória de defesa e os anticorpos necessários para combater o invasor. Compreendendo como as vacinas são feitas, imagino a possibilidade de identificar pessoas chatas que nos perseguem, extrair versões enfraquecidas de chatice e desenvolver uma vacina. As pessoas são diferentes, e isso torna a vida em sociedade mais interessante, mas podemos melhorar a convivência. Também seria possível selecionar extremistas, de esquerda e de direita, buscar uma versão morta ou pouco ativa de sua insanidade, e produzir uma bela vacina para a população. O ano de 2020 foi totalmente atípico. Espero que em 2021 possamos retomar com ainda mais afinco os desafios que temos e desenvolver a sociedade. Quem sabe tenhamos aprendido alguma coisa e, independente de vacina, consigamos construir uma sociedade melhor, produtiva, inovadora, ética, para a frente. Mesmo assim, para não correr riscos, já que americanos, ingleses, russos e chineses estão envolvidos com o coronavírus, quem sabe nos ocupemos com o desenvolvimento desses imunizantes para deixar o mundo melhor para se viver. Poderíamos inclusive concentrar tudo numa vacina tríplice, contra chatos, extremistas e desonestos, ou até contra quem gosta de passas de uva no arroz. Criança de seis anos negacionista a gente aceita, mas adultos chatos, em 2021, nem pensar.

*Artigo de José Paulo da Rosa, administrador, doutor em Educação, diretor do Senac-RS e Sesc-RS. Publicado na Evidência deste mês.