Foto: João Alves

Conduzi muitas reuniões para elaborar planos estratégicos. Uma dinâmica que utilizava ao final dos encontros consistia em pedir aos participantes que fechassem os olhos, dessem uma volta de 360° e levantassem o braço direito, apontando para onde julgavam estar o ponto cardeal Norte. Os braços sempre apontavam para lugares diferentes. Então eu escrevia um N bem grande onde me encontrava e dizia a todos que aquele seria o Norte. Pedia que novamente fechassem os olhos, girassem e apontassem para esse Norte. Todos acertavam e, ao abrir os olhos, era bonito ver esse alinhamento.

Embora busquemos uma diretriz única, é salutar que ideias diferentes possam ser consideradas. Por vezes, é no caos que a luz aparece. Desse modo, devemos aceitar posições contrárias, críticas, sugestões e divergências. De qualquer forma, é imprescindível que tenhamos um horizonte, um indicativo do caminho a perseguir, como uma bússola que nos mostre que estamos na direção correta. John Kennedy foi um exemplo nesse sentido, quando, em 1961, disse que, até o final daquela década, os americanos seriam capazes de levar astronautas à lua e trazê-los de volta. A nação inteira assumiu essa visão e dedicou esforços para atingir o objetivo.

Não identifico estratégia, Norte, ou visão na educação brasileira. Em julho, assumiu como ministro da Educação o senhor Milton Ribeiro, o quarto na gestão de Jair Bolsonaro. Na semana de sua posse, foi publicada pesquisa do IBGE que divulgou o percentual de analfabetos no Brasil, cerca de 7%. Onze milhões de brasileiros acima de 15 anos não sabem ler nem escrever. Um grande desafio para o novo ministro.

Preocupa também o fato de que milhões de outros, considerados alfabetizados, não apresentam condições de interpretar um texto simples, bem como têm enormes deficiências em matemática. Basta ver nossa posição no PISA. Respeito e admiro as pessoas que não tiveram uma educação formal, mas que possuem ética e conseguem levar uma vida digna. Todavia, para que o país seja competitivo, com empresas modernas e desenvolvimento, oferecendo melhores condições a toda a sociedade, é imprescindível que tenhamos uma educação de qualidade, valorizando especialmente a educação básica, o alicerce.

Alguns países têm dedicado atenção especial à educação e têm alcançado um patamar mais alto. Coreia do Sul e Singapura, por exemplo. Em ambos os países, estive fazendo pesquisas e estudando seu modelo de gestão escolar. A Coreia investiu 40 anos em sua educação e hoje é uma potência em tecnologia e produtividade. Singapura levou 30 anos para mudar de status, tendo a educação como base. Ficou em primeiro lugar mundial no PISA 2015 e está entre os países de maior PIB per capita do planeta.

É necessário priorizar a educação, no governo federal, nos estados e nos municípios. Por vezes temos um estado que se destaca, ou um município que obtém bom desempenho, mas não enxergamos um resultado global capaz de mudar a realidade do país. É como se estivéssemos apontando para destinos diferentes. Está mais do que na hora de enxergarmos um caminho único, no qual nossas estratégias sejam direcionadas para uma educação de qualidade. Nem precisa dinâmica. Esse é o Norte.

*Texto de José Paulo da Rosa, administrador, doutor em Educação, diretor do Senac-RS e Sesc-RS. Artigo publicado na Evidência deste mês.