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Vivemos a sexualidade desde sempre, pois ela envolve o corpo, os afetos, as relações, as sensações; envolve a forma como nos percebemos, a autoestima, a identidade… Se os pais têm medo de falar a respeito, ou estão despreparados e não proporcionam uma abertura ao diálogo, podem estar abrindo espaço para exposições que a criança não precisaria passar – em especial, com a repressão de suas curiosidades naturais e a apropriação da sua própria sexualidade, do seu próprio corpo.

Sabemos que o processo de educação sexual é difícil, portanto tentaremos trazer algumas informações de extrema relevância, para mostrar a importância disso e deixar os pais mais confortáveis e confiantes para compreenderem e conversarem a respeito, com vínculo qualificado.

Orientar a criança não é incentivar! Educar, prover conhecimento é uma das formas mais eficientes de proteger seu filho de abuso sexual e de problemas sexuais futuros. Infelizmente, tivemos 66 mil vítimas de estupro no Brasil, em 2018, sendo a maioria (54%) meninas de até 13 anos*.

Proteja seu filho

Cuide das brincadeiras que são feitas, desde a infância. Para criança, brincar é algo muito sério! É a forma pela qual ela se experimenta e introjeta experiências. O casal pode se acarinhar na frente da criança, mas não carícias de cunho sexual. Ela percebe e fica exposta a uma situação que não compreende com clareza. Pode reproduzir, por achar que é um tipo de carinho adequado. E se a criança presenciar cenas de sexo é preocupante, pois as imagens que ela internaliza se equivalem, muitas vezes, a um abuso sexual. Mesmo dormindo, a criança sente. Evite que ouça os sons da relação sexual, pois pode passar uma impressão errada, de violência, de sofrimento e dor, ou até aversão.

Higienização e Banho

A partir dos 3, 4 anos, a criança já está com controle esfincteriano concluído, desfraldada e capaz de ter autonomia para se higienizar sozinha após o coco e o xixi. Em muitos países, não aceitam crianças que não façam isso sozinha nas escolas, para evitar situações de abuso sexual.

A criança precisa ter autonomia para se cuidar, se higienizar, se banhar sozinha. Isso é saudável, proporciona confiança, autoestima, conhecimento e apropriação do seu próprio corpo. Além de evitar o prolongamento de exposições, feito por adultos, que pode erotizar a criança.

Masturbação

Desde bebê, lá pelos 2 anos, na época do desfralde quando começam a ter mais liberdade de se tocar, sentem uma “cosquinha” gostosa com a movimentação, mas ainda não tem um caráter sexual adulto. Entre os 3 até os 5 anos, estão descobrindo as diferenças de gênero, se identificando, momento em que exploram bastante o corpo. E, a partir daí, segue ocorrendo a masturbação, porém, ela é totalmente diferente da adulta que já tem internalizado a busca pelo prazer sexual.

As crianças estão explorando seu corpo, naturalmente. Por isso, não devemos proibir, nem ameaçar, muito menos dizer que é feio. Porque não é! É uma experiência natural do ser humano! Estão somente experimentando sensações! Muitas das disfunções sexuais na vida adulta se dão por essa intervenção equivocada dos pais. O ideal é conversar, orientar que esse momento é íntimo, particular, que precisa ser feito com privacidade, não na frente de outras pessoas.

A masturbação só é uma preocupação quando é excessiva, quando a criança/adolescente se priva de outras coisas para ficar apenas fazendo isso, podendo até se machucar. O excesso pode originar de outros problemas, como ansiedade, quando sofrem bullying, quando tem acesso a pornografias e não estavam preparados para o conteúdo, abuso sexual, entre outros.

Dicas de ouro:

Psicóloga Lisiana Saltiel. Foto: Lucas Gomes

1 – O poder do diálogo: quanto mais nossos filhos sentirem-se seguros para conversar conosco, maiores serão as nossas chances de protegê-los. Além do imenso ganho no desenvolvimento emocional, conseguimos explicar, com amor e assertividade, para uma criança pequena a diferença entre carinho e abuso (toque na genital). A criança precisa saber que ela pode se tocar, se masturbar, se conhecer, mais ninguém! Isso não é óbvio para ela, precisa ser ensinado pelos pais.

2 – Se conhecer não é vergonhoso! Vergonhosa pode ser a nossa reação diante de um ato de prazer dos nossos filhos. Temos o dever de empoderá-los! De permitir, de afirmar que não é errado sentir prazer, muito menos sujo e nojento! Se reprimirmos, estaremos causando consequências negativas na sexualidade adulta e possíveis problemas de relacionamento afetivo.

3 – Pênis e Vagina, prazer! Não é palavrão, não, gente! A criança precisa compreender o significado dessas palavras. Caso sua religião, sua cultura tenha muitos tabus em relação a sexo, tente repensar a importância do processo de descoberta do seu filho. Masturbação não é pecado, é um processo lindo e natural!

Como devo reagir ao ver meu filho(a) se tocando?

Não xingue, não repreenda, não faça piada. Respeite o momento! Entenda que está descobrindo sensações sem malícias! Comente que esse momento é íntimo e é melhor que seja feito mais privadamente. Inclusive, é uma ótima oportunidade de explicar que nessas partes do corpo ninguém toca, que precisa ter consentimento. E se colocar disponível para a criança! Não deve ser um sermão! Um papo franco, “direto e reto”!

As ameaças que alguns pais fazem para evitar que os filhos se toquem (como por exemplo, “vai cair o pinto”) ficam gravadas negativamente e podem causar sérios problemas de aceitação do corpo, sentimento de culpa, ansiedade, vergonha, baixa estima, disfunções sexuais, etc.

Ninguém ama seu filho mais do que você! Preste atenção! Tenha compreensão das fases do desenvolvimento. Lembre-se de que está formando um adulto para a vida e que precisa explorar sua sexualidade, deve conhecer seu corpo e entender o que é privacidade, intimidade e proteção. Essa última, em especial, só depende de você!

*Fonte: 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública

*Este artigo é de autoria da psicóloga Lisiana Saltiel (@lisisaltiel) e foi publicado na Revista Evidência deste mês.