Psicóloga Lisiana Saltiel. Foto: Lucas Gomes

Nos últimos dez anos, a pergunta mais digitada no Google foi “Como lidar com a ansiedade?”, e agora na pandemia cresceu substancialmente. Dentre outras opções, como a psicoterapia, avaliação psiquiátrica, acompanhamento com pediatra (no caso de crianças), a meditação é um excelente hábito para relaxar e prevenir o estresse. Segundo artigos científicos, a meditação tem sido associada a desfechos psicológicos positivos, reduzindo os efeitos negativos e traços de ansiedade, bem como aumentando a atenção, a concentração e o controle emocional.

Mas para que serve, afinal, a meditação?

Além de ser uma pequena pausa na rotina acelerada e conectada em que vivemos, proporcionando um momento de paz e silêncio interno, repousa o corpo e aquieta a mente. E o mais bacana é que pode ser uma prática familiar, uma atividade realizada com os filhos. Afinal, diferente do que muitos adultos pensam, as crianças também têm suas angústias.

Esse ano pandêmico, em especial, gerou muito sofrimento devido ao isolamento social, a escola remota, problemas familiares, uso excessivo de telas, as crianças estão mais tristes e ansiosas, com dificuldade em manterem o foco, a atenção e a concentração, e problemas de comportamento. Por isso, a meditação praticada regularmente pode ser uma das formas de combater esse estresse (de adultos e crianças), aliviando a ansiedade, melhorando a qualidade do sono, reduzindo os sintomas agressivos, acalmando e proporcionando maior capacidade interna de atenção e concentração. Além de proporcionar um vínculo entre pais e filhos, uma oportunidade para dialogarem sobre os sentimentos, validar as emoções sentidas, trabalhando a frustração, os medos e a irritação dos dias atuais.

Obviamente que, de forma isolada e não constante, não é possível alcançar os benefícios esperados. Mas tornando um hábito familiar, abre uma porta para as crianças entrarem em contato com elas mesmas, trazendo uma cultura de autocuidado, de qualidade de vida e bem-estar. Tirá-las do excesso de estímulos em que vivem, e ensiná-las a “ficarem paradas”, a se conectarem com sua respiração e com seu corpo, e seguindo essa linha, de sair das telas, estimulá-las a brincar livremente, a se conectar com a natureza, também.

Assim, evitamos o excesso de introspecção e um padrão de isolamento e desconexão com a família e o ambiente. Conforme for virando rotina, a criança sente prazer com esse momento, entra em contato com suas emoções e sensações, possivelmente gerando saúde mental.

Como fazer?

Por volta dos 2, 3 anos já é possível iniciar, do jeitinho que der, com leveza e flexibilidade. Não podemos exigir que fiquem muito tempo em silêncio e imóveis. Não devemos forçar. Normalmente, para crianças menores, o ideal é acompanhar um enredo que irá introduzir a meditação, de forma lúdica. Ou ainda, levar a um passeio contemplativo da natureza, deitar na grama, observar a areia da ampulheta caindo, ou a fumacinha de um incenso, colorir desenhos, o som de um sino ou da corda do violão, observar um bichinho de pelúcia, em cima da barriguinha, enquanto inspira e expira (como enchendo um balão). Ainda, pode imaginar a água da praia molhando os pés, que está em uma rede balançando, pode colocar um som de natureza ao fundo, sempre conversando em um tom de voz macio e baixo.

Lembrando que a meditação não é indicada para casos mais extremos de sintomas psicológicos, sem orientação do pediatra, psicólogo especialista.

Conecte-se com seus filhos!

Passo a passo

Meditação para crianças mais velhas e pais

1 – Encontre uma almofada para se sentar. Inicie a prática, em pé, com as mãos em prece e faça uma reverência. Tente determinar um canto para isso, silencioso, limpo. Dê preferência pela natureza, mas faça onde for possível.

2 – Sente-se com as pernas cruzadas. Se tiver bastante flexibilidade, tente por o pé direito sobre a coxa esquerda e vice-versa.

3 – Fique com a coluna ereta e em uma posição central confortável.

4 – As mãos podem ser colocadas sobre os joelhos, com a palma da mão para cima. Ou juntas, mão direita por baixo e os polegares se tocando levemente. Repouse as mãos sobre as coxas/pés.

5 – Direcione o seu foco um pouco à frente de você, com os olhos fechados ou ligeiramente abertos. Suavize seu olhar.

6 – Estabeleça um ritmo de respiração. Relaxe o corpo. Inspire e expire lentamente. Faça sem parar. Observe sua respiração.

7 – Relaxe sua mente. O objetivo não será suprimir os pensamentos, e sim deixá-los fluir livremente, concentrando na respiração.

8 – Inicie esse processo por 5 minutos. Ao terminar, finalize com a reverência. E vá aumentando o tempo, aos poucos. Passe para 10, 15, 20, 40 e mantenha o seu ritmo.

9 – Mantenha uma frequência de, no mínimo, 3x na semana. Anote seu progresso ou use um aplicativo de celular. Tente manter sua motivação. Eleja um motivo, um objetivo para a prática.

10 – Tenha paciência! Não é tão simples! É necessário uma prática regular para alcançar os resultados. Possivelmente, terá mais contato consigo mesmo, terá consciência dos seus pensamentos, emoções. Estará mais atento a si!

Narrativa guiada para meditação de crianças pequenas

(Texto adaptado da internet)

Ao narrar para a criança, faça de forma pausada, calma e em um tom de voz manso e baixo.

Feche bem seus olhinhos e acompanhe minhas palavras!

Deixe seu corpo bem confortável, sinta ele.

Estique suas costas, deixe a coluna bem retinha e relaxe bem seu rosto.

Respire beeeeem devagar.

Imagine que seu corpo é como um imenso balão que vamos encher.

Agora, vamos esvaziar o balão, soltando o ar devagar.

Vamos fazer mais vezes?

Inspire para encher o balão.

Agora esvazie o balão.

Encha o balão.

Esvazie o balão

Agora, sua cabecinha, sua mente está bem tranquila e pronta para passear pelo mundo da imaginação.

Vou te contar uma história. Me ouça com atenção, mantenha os olhinhos fechados e continue a respirar profundamente.

Vou te contar a história de alguém muito especial!

Um sábio que viajou por muitos lugares e aprendeu muitas coisas interessantes.

Ele tinha uma barba branca e comprida, as bochechas bem rosadas, um sorriso fácil e sempre foi muito querido por todas as pessoas que ele conhecia, em todos os lugares do mundo.

Ele tinha poderes mágicos, tinha muita sabedoria e era um senhorzinho com muita bondade no coração. Então, ele sempre ajudava muitas e muitas pessoas.

Cumprimentava a todos, perguntava como estava o dia deles, por isso sentiam-se muito especiais na companhia dele.

O sábio gosta muito de sua pedra preciosa, e quer colocar em suas mãozinhas para que você a segure.

Sinta a pedra com suas mãos.

Toque, mexa nela, explore.

Sinta sua forma.

Sinta sua textura.

Sinta sua temperatura.

Perceba se ela é lisinha ou não, se está quente ou fria, se é grande ou pequena.

O sábio pede que você segure a pedra com as duas mãos e sinta tudo que você puder. Esta pedra foi criada pela Mãe Terra há muito, muito tempo atrás.

Dentro dela tem uma enorme força, uma grande e poderosa energia!

Quando ativada pelo toque de suas mãos, pelo seu poder pessoal, toda esta força se ativa, torna-se novamente viva.

Sinta como a pedra brilha intensamente.

Perceba que ela se transforma em um lindo cristal.

O cristal tem o poder de enviar energia para todo o seu corpo!

Sinta seu corpo forte e vivo!

Sinta seus pensamentos tranquilos e sábios.

Sinta a força viva dentro de você.

Perceba que a energia de todas as coisas da vida também está presente dentro de você. Sinta toda esta força dentro de você.

Agora, preste atenção na sua respiração, no seu corpo e vá abrindo os olhinhos lentamente.

Tudo de bom para você.

Tudo de bom para mim.

Tudo de bom para todos nós.

*Este artigo é de autoria da psicóloga clínica Lisiana Saltiel.