Psicóloga Lisiana Saltiel. Foto: Lucas Gomes

Estamos todos vivendo um momento de muita ansiedade, de angústia, de estresse e de incertezas frente a várias situações. Um único e miserável vírus – o Corona – conseguiu abalar a vida do mundo todo, literalmente. E não é apenas o medo de ser contaminado pela Covid-19 e não ter estrutura hospitalar para todos: é também o medo de adoecerem aqueles que amamos, medo da crise econômica que está batendo na nossa porta, e o medo da violência, por consequência.

Do ponto de vista psicológico, nenhum cidadão do mundo irá passar imune a isso. O Corona viralizou nossa vida, nossa rotina, nossas certezas, nossas relações e nossos planos de curto prazo. Ficar em casa, por tempo ainda indeterminado, é a ordem! E sabemos que essa quarentena tem consequências para a saúde mental da população. Tanto que alguns especialistas arriscam uma estimativa de 12 semanas, no máximo, para não haver prejuízos psicológicos significativos.

Artigos recentes demonstram que os efeitos psicológicos negativos da quarentena podem incluir quadros de estresse, confusão mental, exaustão emocional, tristeza, medo, preocupação excessiva, desamparo, solidão, depressão, raiva, nervosismo, irritabilidade, mau humor, insônia, ansiedade, isolamento e evitação emocional, até situações de surtos psicóticos, abuso de álcool e drogas e suicídio. As pessoas se estressam por sentirem-se presas, isoladas, privadas das suas atividades econômicas e de lazer (como academia, convívio social). O fato de não saber quanto tempo ainda permanecerão dessa forma aumenta a frustração, o tédio e o medo (ou o descrédito) de ser infectado.

Importante ressaltar que não há nada errado em sentir alguns dos sintomas acima citados. Aliás, é esperado diante desse contexto imprevisível. Uns sentem mais, outros menos. Não há necessidade de se desesperar. Devemos é manter sob controle aquilo que, supostamente, conseguimos entender e controlar: nossas emoções e nosso comportamento. Caso esteja sofrendo em demasia, então devemos procurar um psicólogo e/ou psiquiatra, ou um especialista da saúde de confiança que possa ajudar a lidar com essa situação o mais breve possível.

As pessoas que podem e acreditam mais na importância do isolamento, ou seja, seguem a quarentena quase que voluntariamente, sentem menos estresse e menos sintomas a longo prazo. Ao tentar entender a quarentena com mais serenidade, como uma oportunidade momentânea de estilo de vida diferenciado, um ritmo desacelerado, uma forma de entrar em contato consigo mesmo, com a família e com atividades atípicas, diminui significativamente as chances de sintomas psicológicos, como quadros de ansiedade, depressão e pânico.

Pensar nas oportunidades positivas desse momento, para se voltar para si, curtir momentos em família, redescobrir hobbies, colocar a leitura e os estudos em dia, poder conversar demoradamente com pessoas, por chamada de vídeo ou ligação, dentre tantas outras opções. Tentando não pensar nos prejuízos, pois não há o que ser feito neste momento. Claro que é possível pensar alternativas, trabalhar home office, usar a criatividade para driblar ao máximo a questão econômica.

Algumas dicas muito valiosas:

– Delimite as informações que recebe e que repassa. Questione a fonte, se é confiável. Defina a quantidade de tempo que permite investir no assunto Coronavírus. Não se aliene, mas também não faça uma overdose. Evite a hiperconexão com as tecnologias e informações.

– Para as pessoas já ansiosas, evite ainda mais, pois vira um ciclo de ansiedade. Converse sobre outros assuntos, insira humor no seu dia.

– Nossa psique absorve aquilo que permitimos, aquilo que aceitamos, então escolha bem os assuntos, os grupos de whats, as pessoas com que conversa e que segue nas redes.

– Procure ter uma rotina diária. Busque ocupar seu tempo de forma produtiva, equilibrada, prazerosa e flexível. Como leituras, música, filmes, ficar com a família, fazer nada e fazer tudo que dê paz e traga calma.

– O estresse deixa as pessoas mais intolerantes e vulneráveis, levando, muitas vezes, a comportamentos mais impulsivos, agressivos, provocando conflitos familiares/profissionais/sociais. Fique atento a si e às suas emoções. Respire! Precisamos ajudar as pessoas que estiverem sentindo-se assim, também, compreender, acolher e dialogar.

– O medo nos engessa, pode nos boicotar e menosprezar nossa capacidade de lidar e enfrentar as situações ansiogênicas. Tente relembrar sua construção de vida, suas conquistas e superações. Reveja suas capacidades. Porém, se a dificuldade ou o medo estiverem em excesso, não hesite em buscar ajuda.

– A ansiedade excessiva leva a julgamentos equivocados, potencializa situações, distorce a realidade. Evite essa agitação da sua psique.  Monitore-se, conheça-se, identifique seus limites. Faça uma respiração diafragmática, busque atividades que acalmem.

– Não se cobre para dar conta de tudo: home office, tarefas domésticas, lições da escola dos filhos… Relaxe. Flexibilize as regras e o tempo das coisas, que está diferente nesse período.

– Cuide do corpo também. Alimente-se bem, cuide dos excessos gerados pela ansiedade. Hidrate-se com muita água. Tente fazer, pelo menos, pequenos exercícios em casa ou no pátio. Pegue sol!

– Atenção! Cuide dos idosos da família. Não lhes permita saírem de casa! Fique em contato o máximo que puder. Chamadas de vídeo com netos, parentes. Ensine-os a usarem essas ferramentas virtuais. Certifique-se de que o tempo deles está sendo ocupado de forma produtiva. Eles têm mais medo da finitude do que nós, principalmente por estarem na zona de risco da Covid-19. Tenha muita paciência e dedicação. Acalme-os e faça-os perceberem que podem ficar imunes se tomarem os devidos cuidados psíquicos e de isolamento.

Dinâmica familiar

As dificuldades em dividir o mesmo espaço com familiares, esposo(a), filhos, por 24 horas ininterruptas e contínuas, logicamente, intensificam. Afloram as características de cada integrante da família, tanto positivas quanto negativas. E, além dos fatores estressantes que estão acontecendo no mundo externo, é preciso dar conta das questões familiares e conjugais. Isso também precisa ser olhado com atenção.

É natural e esperado que haja uma disfunção na dinâmica familiar nesse momento. Lembre-se de que, por mais difícil que esteja, a forma como nós adultos/pais, iremos manejar as situações de crise, será a forma como nossas crianças irão aprender, através da observação de nossas ações. Pense em estratégias, como dividir as tarefas de casa. Crie regras de boa convivência. Exerça a paciência e dialogue, com respeito, sobre aquelas coisas que de fato incomodam. Faça dos momentos em família os mais aprazíveis possíveis. Divirtam-se, joguem, cantem, brinquem, exercitem-se, peguem sol!

Os conflitos serão maiores para aqueles pais que não estão muito conectados à rotina dos filhos, ou não os conhecem com intimidade. Terão que aproveitar esse momento para estreitar um vínculo de amor. Reaprender a ouvir os familiares, conversar demoradamente, visando a entender como pensam, o que sentem. Exercer a empatia, o respeito. Ressignificando muitos valores, controlando as respostas negativas, as críticas, a pressa que não permitia dar a devida atenção aos filhos/à esposa/ao esposo/à família.

Outro ponto importante é que a verdade seja dita, sem aumentar, nem diminuir a gravidade dos fatos para crianças e adolescentes. Logicamente, em uma linguagem pertinente. Falar sobre o assunto com serenidade e responsabilidade, permitindo pensar sobre as emoções e sobre qual a participação deles no processo de evitar a contaminação, evita que surja desconfianças e pânico.

Fique o melhor possível! Cuide da sua saúde mental, pois precisará muito dela.

*Texto de autoria da psicóloga Lisiana Saltiel. O artigo integra a edição de abril da Revista Evidência.