Psicóloga Lisiana Saltiel. Foto: Lucas Gomes

Mais de 70% das vítimas de estupro no Brasil são menores de idade, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Entre 2012 e 2015, segundo o SUS, mais de 120 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes foram registrados. São dados alarmantes e assustadores!

Esta violência pode ser definida como qualquer interação de uma criança ou adolescente com alguém em estágio mais avançado do desenvolvimento, na qual o menor estiver sendo usado para estimulação sexual do abusador. O contato pode incluir toques, carícias, sexo oral ou relações com penetração (digital, genital ou anal).

Pais: fiquem atentos ao conteúdo que seus filhos assistem na internet, com quem interagem. Pois o abuso sexual também inclui situações nas quais não há contato físico, tais como voyerismo, assédio, exposição a imagens ou eventos sexuais, pornografia e exibicionismo. Podendo, posteriormente, passar às vias de fato.

Em relação ao agressor, as pesquisas demonstram que cerca de 90% são pessoas conhecidas da criança, na maioria, homens (pai, padrasto, avó, tio, primo, vizinho). O abuso sexual no contexto familiar é desencadeado e mantido por uma dinâmica complexa. O abusador utiliza-se, em geral, de seu papel de cuidador, da confiança e do afeto que a criança tem por ele para iniciar, de forma sutil, o abuso. A criança, na maioria dos casos, não identifica imediatamente que a interação é abusiva e, por esta razão, não a revela a ninguém. À medida que o abuso se torna mais explícito e que o menor percebe a violência, o abusador utiliza recursos e ameaças para que a criança mantenha em segredo. Estudos apontam que esse segredo é mantido, na maioria dos casos, por pelo menos um ano.

A criança sente-se vulnerável, acredita nas ameaças e desenvolve crenças de que é culpada pelo abuso, sentindo vergonha e medo de revelá-lo à família e ser punida. Dessa forma, adapta-se à situação abusiva. Outro fator frequentemente associado ao abuso sexual é a presença de outras formas de violência intrafamiliar, tais como negligência, abusos físicos e emocionais. A violência gera um ambiente, no qual predominam os sentimentos de medo e de desamparo. Estes contribuem para que o abuso seja mantido em segredo pela criança e por outros membros da família que, em alguns casos conhecem, a situação, mas não a denunciam.

A experiência do abuso sexual pode afetar o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social de crianças e adolescentes de diferentes formas e intensidade. Eles podem desenvolver quadros de depressão, transtornos de ansiedade, alimentares e dissociativos, comportamentos regressivos, como enurese e encoprese, hiperatividade e déficit de atenção e transtorno do estresse pós-traumático.

Além desses transtornos, podem apresentar alterações comportamentais, nas quais destacam-se: conduta hipersexualizada (jogos sexuais com bonecas, colocar objetos no ânus ou na vagina, masturbação excessiva e/ou em público, comportamento sedutor, solicitude de estimulação sexual para com adultos ou outras crianças, conhecimento sexual inapropriado para a idade); abuso de substâncias; fugas do lar; furtos; isolamento social; agressividade; crises de birra e lamentação; mudanças nos padrões de sono e alimentação; pesadelos; comportamentos autodestrutivos; tais como se machucar e tentativas de suicídio. As alterações cognitivas incluem: baixa concentração e atenção, dissociação, refúgio na fantasia, baixo rendimento escolar e crenças distorcidas, tais como percepção de que é culpada pelo abuso, diferença em relação aos pares, desconfiança e percepção de inferioridade e inadequação. As alterações emocionais referem-se aos sentimentos de medo, vergonha, culpa, ansiedade, tristeza, raiva e irritabilidade. O abuso sexual também pode ocasionar sintomas físicos, tais como hematomas e traumas nas regiões oral, genital e retal, coceira, inflamação e infecção nas áreas abusadas, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, doenças psicossomáticas e desconforto em relação ao corpo.

Os pais de crianças violentadas sexualmente também sofrem a perda da criança imaculada, intocada, tendo que se adaptar à nova rotina. Estudos apontam para a importância das estratégias e atitudes adotadas pelo cuidador na redução ou no agravamento dos danos causados nas crianças abusadas. Muitas dessas crianças poderiam ter os benefícios de seus tratamentos ampliados com o conhecimento de como seus cuidadores compreendem a violência sexual e de que modo lidam com sua ocorrência e consequências. O ajustamento da criança, pós-violência sexual, está mais relacionado ao apoio materno do que à natureza e duração da violência, ou até mesmo ao relacionamento da criança com o agressor.

Quando as dificuldades tomam proporções excessivas, a criança reativa o sentimento de desamparo e se depara com uma impossibilidade de lidar com elas, refugiando-se em modelos relacionais que ilusoriamente representam proteção diante do sofrimento e da dor. As privações significativas na infância determinam a constituição de um psiquismo frágil, que poderá apresentar mais tarde quadros psicopatológicos graves como a psicose, a personalidade antissocial e a organização de personalidade borderline.

A história de vida do abusador, normalmente, é de muita violência e a constituição de uma personalidade patológica, que repassa para a vítima, familiares e comunidade, revelando que há grande possibilidade de reprodução do ciclo de violência. Essa promove nos jovens uma busca alternativa de solução de problemas que envolve a participação em gangues criminosas, em assassinatos, em abusos, e leva ao uso de drogas e a um empobrecimento dos sentimentos. O menor pode tornar-se incapaz de sentir gratidão e de interessar-se genuinamente por si e pelos outros. O outro é sentido como um estranho que tem uma única função: a de fornecer o que se espera dele.

No entanto, visando à sobrevivência e ao ajustamento, possibilitadas por um ou mais vínculos satisfatórios que tenham vivenciado na infância, algumas pessoas traumatizadas desenvolvem talentos e forças incomuns. Elas podem “juntar os seus caquinhos” e, valendo-se deles, construir algo melhor.

DICAS

1 – Identificar o abuso ou a exploração sexual é o primeiro passo. É preciso denunciar e exigir que a criança ou adolescente receba os cuidados médicos necessários e o tratamento psicológico para que possa se recuperar dessa violência. Disque 100, que é um serviço de proteção a crianças e adolescentes ou ligue para o Conselho Tutelar 0800-510-0040.

2 – Mantenha um diálogo com seu filho. Conheça as demandas dele. Exerça um vínculo de confiança. Faça-o sentir-se seguro, aceito, amado. Isso possibilita a abertura para conversar sobre qualquer situação conflitiva que vivencie. Se for criado um canal diário de diálogo sobre o dia da criança, seus medos, seus sentimentos, ela sente-se segura para contar qualquer coisa, sem medo de ser retalhada. Ter uma conexão afetiva, um acolhimento dos erros quando acontecerem. Criança criada com violência, com muitas críticas, provavelmente não se sente a vontade para contar, fica com medo. Sabendo que os abusadores pedem segredo e criam um vínculo com a criança, a relação de confiança com os pais / ou mãe, deve ser maior. Na maioria das vezes, a criança esconde o abuso porque acha que está protegendo quem ama das ameaças do abusador ou com medo da decepção dos pais. Ou protegem o próprio abusador que é familiar. A criança sente muita culpa e vergonha, acha que ela está agindo errado.

Nos ambientes abusivos, há uma comunicação limitada e um apoio restrito, o que dificulta o entendimento e a apropriada expressão das experiências emocionais. As crianças apresentam dificuldades para administrar suas intensas emoções negativas, o que resulta num descontrole ou num excessivo controle das emoções.

3 – Ensine a criança sobre as partes íntimas dela. Diga o nome correto dos órgãos genitais, naturalmente, conforme seu desenvolvimento e curiosidade. Com naturalidade e calma, ensine quem pode tocar as partes x e y, em quais contextos, como banho.

Conforme a idade e curiosidade da criança, explique a diferença entre o carinho habitual (onde pode ser feito) e o carinho que não pode ser permitido. Da mesma forma, que não deve tocar nas partes íntimas de ninguém.

4 – A criança pode dizer NÃO para situações que se sente desconfortável. Se não quer beijar o titio, não precisa!!! Educação é uma coisa, toque obrigatório é outra. Ela pode ser ensinada a cumprimentar, ser afetiva, mas precisa ser livre para exercer seu juízo crítico sobre toques e intimidades, como abraçar e beijar alguém com quem ela não se sente confortável!!

5 – Explique para criança sobre os limites do corpo dela, como se fosse um semáforo: onde está verde, onde está vermelho para parar. Sinalizar à criança que o carinho só é bom quando a gente quer. Não somos obrigados a beijar e abraçar ninguém. O corpo é seu, você tem o direito de não querer. Isso deve ser reforçado no cotidiano da criança, respeitando as vontades dela e reforçando a mensagem de que ela é RESPONSÁVEL pelas decisões do corpo DELA. E que ninguém pode forçá-la a receber ou dar carinhos que não queira. Explique para criança que algumas sugestões de trocar carinhos por brinquedos, doces não deve acontecer. E que deve ser contado ao papai e a mamãe.

6 – Conheça bem seu filho! Geralmente, a criança que é vítima de abuso sexual apresenta muitas mudanças no comportamento, ela dá sinais. Quando a criança demonstra rejeição, pavor ou uma atitude desmedida com algum adulto, pense bem sobre o motivo. Entenda! Converse! Valide os sentimentos dela, faça-a sentir que você acredita nela, compreende as dores e os sentimentos dela.

Onde aparece o abuso sexual?

  • Levar a criança ou um adolescente a assistir filmes pornográficos ou presenciar relações sexuais;
  • Mostrar adultos nus, revistas pornográficas, ou adultos se masturbando;
  • Fotografar ou filmar crianças e adolescentes nus, em posturas eróticas;
  • Ficar observando os genitais de crianças e adolescentes para conseguir se excitar, mesmo que seja de forma escondida, podendo assustá-la ou perturbá-la;
  • Falar sobre relações sexuais com crianças ou adolescentes com a finalidade de se excitar ou de deixá-los excitados;
  • Tocar ou acariciar os órgãos genitais de uma criança;
  • Ter relação sexual oral, anal ou genital com uma criança;

# Fique atento à rotina do seu filho, sabendo onde e com quem estão, em especial, o conteúdo da internet. O acompanhamento cuidadoso e a orientação às crianças são fundamentais na prevenção.

Sintomas de possível abuso

  • Ansiedade excessiva;
  • Presença de pesadelos, conversas ou gritos durante o sono;
  • Dificuldade ou medo de dormir;
  • Perda ou excesso de apetite repentino;
  • Fazer xixi na cama (enurese noturna), ou problemas intestinais (encoprese);
  • Presença de sangramentos, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, infecções ou dores na região genital e abdominal;
  • Comportamento muito agressivo ou muito isolado;
  • Dificuldade de aprender na escola ou descaso com as atividades, quando antes aprendia e fazia com facilidade;
  • Dificuldades de concentração;
  • Comportamento extremamente tenso, em “estado de alerta”;
  • Comportamentos muito infantis para a idade;
  • Tristeza, abatimento profundo ou choro sem causa aparente;
  • Comportamento sexualmente explícito (ao brincar, demonstra conhecimento sobre sexualidade inapropriado para a idade);
  • Masturbação visível e contínua, brincadeiras sexuais agressivas;
  • Relutância em voltar para casa ou tentar fugir;
  • Dificuldade social, poucos amigos;
  • Não confiar em adultos, especialmente os que lhe são próximos;
  • Ideias e tentativas de suicídio;
  • Autoflagelação, ou seja, machucar-se por vontade própria;
  • Hiperatividade, ou seja, não consegue parar de se mexer.

*Este artigo é de autoria da psicóloga e mestranda clínica Lisiana Saltiel, especialista em Avaliação Psicológica, Psicoterapia Psicanalítica de Crianças e Adolescentes e em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem.