Foto: João Alves

No Fórum Econômico Mundial de 2020 foi debatida a possibilidade de que em 2021 ocorra um apagão digital global, onde toda a internet deixará de funcionar. A projeção decorre dos ataques cibernéticos já promovidos pela Rússia e pelas disputas econômicas e tecnológicas entre EUA e China. Imagine a dificuldade das pessoas, no apagão, eis que não poderiam acessar as redes sociais (WhatsApp, Facebook, Instagram, Twitter, Google, Tik Tok) e perderiam as fotos que hoje só existem nas nuvens e todos os dados que estão no mundo digital. Inclusive teriam que conversar pessoalmente umas com as outras, vejam só, e voltar a utilizar o telefone fixo. Além disso, a pandemia do coronavírus obrigou as empresas a se transformarem, mantendo o atendimento físico e um acesso pelo mundo virtual. Tornou-se quase impossível viver num cenário analógico. Então, quando todos concentram seus esforços nessa relação digital, surge a ameaça de um apagão. Estima-se que o impacto econômico e social poderá ser maior do que aquele vivenciado em 2020. Não sei vocês, mas eu já estou imprimindo as fotos que me interessam, adquiri uma agenda de papel e anotei números de telefone e senhas, separei um armário para guardar documentos impressos, resgatei uma máquina de escrever manual e comprei uma quantidade enorme de papel higiênico (brincadeira). O que é certo é que a Matrix em que vivemos é muito vulnerável, de modo que não podemos duvidar dessa ameaça e, pelo menos por agora, precisamos desenvolver as competências necessárias para o mundo digital, sem esquecer as ferramentas analógicas que nos trouxeram até aqui.

Apagões

Cerca de uma década atrás enfrentamos o chamado apagão de mão de obra. Estávamos num momento de crescimento econômico e faltavam profissionais qualificados. Hoje temos desemprego, mas a carência de profissionais voltará quando a economia crescer novamente. O Brasil também sofre o apagão educacional (potencializado na pandemia), eis que o desempenho de nossos estudantes tem sido muito ruim e não há perspectiva de curto prazo para que isso seja modificado. O apagão educacional, inclusive, é que ocasiona o apagão de mão de obra. Tivemos ainda apagões de energia elétrica, por ora superados. Todavia, nosso maior problema é o apagão ético. Veja o caso da eleição para presidente da Câmara dos Deputados. Os dois principais candidatos, do governo e da oposição (que se confundiam), tinham um passado questionável, para dizer o mínimo. Ocorre que a maioria dos deputados, com seu espírito corporativista, não se preocupa com o perfil ético dos concorrentes, mas apenas com a possibilidade de eleger alguém que defenda seus interesses. O Brasil que se apague. Entre presidentes anteriores, da Câmara e do Senado, citarei apenas Eduardo Cunha e Renan Calheiros (chega?). Nossas principais lideranças deveriam dar o exemplo de conduta ética, mas primam pelo modelo negativo. Alguns governadores e prefeitos também aproveitaram a pandemia para desviar recursos e parte da sociedade não teve o cuidado para impedir a disseminação do vírus, evitando aglomerações. Nesse cenário, o apagão digital será o de menos e até poderá ajudar para melhorarmos as relações pessoais. A luz do desenvolvimento aparecerá quando superarmos o apagão ético que vivenciamos.

*Texto de José Paulo da Rosa, administrador, doutor em Educação, diretor do Senac-RS e Sesc-RS. Artigo publicado na Evidência deste mês.