Foto: Liane Neves/Reprodução CCMQ

Texto de Cimara Valim de Melo

Paulo Hecker Filho estava certo quando disse que a mágica poesia de Mario Quintana faz dele um mago (FACHINELLI, 1976, p. 76). Segundo o escritor, poetas são gente como nós, só que acabaram dominando os modos mágicos de encadear suas palavras. O mago é o que, sem perder a individualidade, soube se embeber da criação poética anterior e exprime as próprias vivências por meio de combinações de palavras, sintaxe ou estrutura poética. Realmente, Quintana revelou-nos uma produção poética envolta no humor, em imagens grandiosas extraídas da simplicidade cotidiana e no jogo de palavras, os quais traduzem a sua liberdade de escrever, de sentir, de viver e de cantar a própria dor.

Nascido em Alegrete em 1906, Mario de Miranda Quintana morou a maior parte da vida em Porto Alegre, cidade que inspirou muitos de seus versos. Entre as obras mais representativas estão A rua dos cataventos (1940), Canções (1946), Sapato florido (1948), Aprendiz de feiticeiro (1950), Espelho mágico (1951), Caderno H (1973), Apontamentos de história sobrenatural (1976), A vaca e o hipogrifo (1977), Esconderijos do tempo (1980), Baú de espantos (1986) e A cor invisível (1989). Por elas, deparamo-nos com a sensibilidade poética do escritor, expressa em versos repletos de leveza e universalidade. Além disso, o que alguns críticos chamam de realismo mágico é observado em sua produção literária pela incidência do fantástico, do onírico e do sobrenatural, que invadem a realidade humana, tornando difusos os seus contornos. Fantasmas, anjos, assombrações, mortos – seres para além do humano – dividem espaço com ônibus, casas, cachorros, janelas, barcos, ruas, ou seja, pelo trivial cotidiano, a fim de formar um cosmo de traços simbólicos. Tal universo poético é geralmente banhado por elementos da natureza, os quais surgem como marcas do espaço ou do tempo para revisitar aspectos da alma humana.

Recordo ainda… E nada mais me importa…

Aqueles dias de uma luz tão mansa

Que me deixavam, sempre, de lembrança,

Algum brinquedo novo à minha porta…

Mas veio um vento de Desesperança

Soprando cinzas pela noite morta!

E eu pendurei na galharia torta!

Todos os meus brinquedos de criança…

Estrada afora após segui… Mas, ai,

Embora idade e senso eu aparente,

Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!

Sou um pobre menino… acreditai…

Que envelheceu, um dia, de repente!…

(QUINTANA, 2005, p. 92)

A originalidade do escritor gaúcho não lhe impede de ter recebido, ao longo do percurso literário, influências estéticas diversas. Em âmbito nacional é, talvez, com Cecilia Meireles, que Mario Quintana possui mais pontos em comum. Não apenas pelos traços simbolistas presentes em muitos versos, mas pelas sensações transmitidas ao leitor e pelo lirismo. Já em relação às influências provenientes da literatura estrangeira, o domínio das línguas inglesa e francesa fez com que fosse não apenas tradutor de gênios da literatura universal – Virginia Woolf, Charles Morgan, Somerset Maugham, Guy de Maupassant, Honoré de Balzac, Aldous Huxley, Marcel Proust, Prosper Merimée, entre outros – mas conhecedor de estilos literários europeus, fato que lhe permitiu buscar inspiração em outros horizontes e desgarrar-se das tendências poéticas modernistas. Desse modo, produziu um estilo singular, mesclando estilos e gêneros literários e compondo tendências como a dos poemas em prosa, fato que o aproxima da produção de Charles Baudelaire.

O milagre

Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia… e do lábio do amigo brotam palavras e eterno encanto… Dias mágicos… em que os burgueses espiam, através das vidraças dos escritórios, a graça gratuita das nuvens… (QUINTANA, 2006, p. 31)

De modo geral, a obra de Mario Quintana pode ser dividida em duas possibilidades estéticas: a dos poemas em versos livres e metrificados, que correspondem a livros como A rua dos cataventos e Aprendiz de feiticeiro; a de seus ‘quintanares’, que residem no limiar entre a poesia e a prosa, encontrados em Sapato florido e Caderno H. O termo, criado pelo próprio poeta em “Canção de barco e de olvido”, de 1946, dedicado a Augusto Meyer (QUINTANA, 2005, p. 161) foi popularizado nos poemas “Quintanares”, de Cecília Meireles (FACHINELLI, 1976, p. 117) e “A Mario Quintana”, de Manuel Bandeira (FACHINELLI, 1976, p. 204), passando então a designar a especificidade de sua produção. Quintana também não deixou de ser mago na literatura infantojuvenil. Sua primeira incursão nesse gênero foi com o livro Batalhão de letras, no qual é um jogo bem humorado de sons, letras, rimas e palavras. Pé de pilão também não ficou para trás e rapidamente conquistou o público infantil através da mágica visão de mundo, que coloca lado a lado fantasia e poesia.

Outra questão a considerar é a preocupação metalinguística, uma constante em suas obras. Em muitos poemas, o eu-lírico volta-se para o próprio discurso, refletindo sobre a magia inerente ao processo de construção literária. Diversos poemas ocupam-se dessa temática, ora descrevendo a constituição do poema, ora estabelecendo relações entre a palavra e o mistério da vida, ora personificando a própria poesia, velha amiga para a qual ele entrega silêncios e dores. Encontramos a simbologia metaliterária em “Da paginação”, entre outros poemas de Sapato florido, pelo qual o processo de criação poética aproxima-se da liberdade inerente ao universo infantil.

Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos – gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão a fazer parte dos poemas… (QUINTANA, 2006, p. 33)

A poesia de Mario Quintana é para todas as idades. Nela, há espaço para a reflexão e a melancolia, assim como para o humor e o voo livre sobre o território das letras, o questionar sobre o mundo e o desejo de reinventar a própria existência. Também a busca interior e a tentativa de autoconhecimento são expressas através das confissões e das memórias do poeta, que conversa consigo mesmo em esconderijos literários. Seus poemas são jogos de ideias, percepções, sentimentos e representações. A poesia cósmica do autor desvela um universo suspenso, misto de fantasia e realidade – universo que pende, por vezes, para o enigmático, o obscuro, sem nunca deixar de resgatar a simplicidade cotidiana, mesmo que com certa ironia.

Talvez uma das melhores definições de Quintana esteja nas palavras de Erico Verissimo sobre seu conterrâneo. Para ele, “ser poeta é saber ver o mundo como veem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem lê o que ele vê e sente, em resumo, é ter olhos para revelar a face secreta das pessoas e das coisas.” (VERISSIMO, 1975) Portanto, Quintana foi mais que um poeta, foi um mago ou, quem sabe, um anjo das palavras. Por isso, revisitá-lo significa estar entre dois mundos.

Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem.

Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, as asas ficam para fora.

(VERISSIMO, 1975)

Referências

QUINTANA, Mario. Poesia completa. Organização de Tânia Franco Carvalhal. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

QUINTANA, Mario. Sapato florido. São Paulo: Globo, 2006.

FACHINELLI, Nelson. Mario Quintana: vida e obra. Porto Alegre: Bels, 1976.

VERISSIMO, Erico. Mario Quintana, “Pé de Pilão”… e eu. In: QUINTANA, Mario, Pé de pilão. Porto Alegre: IEL; Guaratuja, 1975.

*Publicação da edição de janeiro de 2021 da Revista Evidência.