Foto: Luciana Serra/Itaú Cultural

Texto de Cimara Valim de Melo

Escrever, para mim, é mostrar o que foi escondido debaixo do tapete, os detritos, o que socialmente não foi dito, o que não se pode tocar. João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll conquistou, ao longo de décadas de intenso trabalho literário, lugar entre os escritores da literatura brasileira reconhecidos internacionalmente. Resultado desse sucesso pode ser observado em prêmios e traduções – realizações que contribuíram à posição transnacional do autor e de suas obras. Dentre os destaques recebidos, estão o Prêmio Jabuti pelos romances Harmada (1993), A céu aberto (1996) e Lorde (2004), bem como a tradução dessas obras para a língua inglesa por David Treece, no caso as duas primeiras, e por Edgar Garbelotto, no caso da última.

Nascido em Porto Alegre em 1946, Noll teve quase duas dezenas publicações literárias ao longo de sua vida. Suas narrativas são marcadas pela criatividade estética, pela incidência do sensorial e do poético, pela transgressão e pela problematização de questões de gênero na contemporaneidade. Contudo, nelas é ainda mais sobressalente a representação de espaços de margem diversos, os quais incluem temas como homossexualidade e pertencimento. Sua carreira como escritor ganhou notoriedade após receber pelo livro de contos O cego e a dançarina (1980) prêmios como o Jabuti, o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o do Instituto Nacional do Livro. A partir daí, uma coleção essencial a quem estuda a literatura brasileira contemporânea foi formada, na qual a transgressão, a mobilidade e a marginalidade são palavras de (des)ordem. Noll faleceu em Porto Alegre, em 2017, aos 70 anos de idade, deixando um legado transcontinental.

Segundo David Treece (apud NOLL, 2003a), é “no impasse, no entrelugar entre a marginalidade desapossada e na institucionalização tirânica das formas impostas pelo real” que desenrola a luta das personagens de Noll. Aliada à busca pelo humano está a sensibilidade metalinguística do autor, a qual repercute no universo simbólico de suas narrativas, conduzindo o leitor à instabilidade das relações, à liberdade, ao desejo latejante de viver e à autocrítica. São pontes, céus, corpos, metamorfoses, trânsitos, palavras, águas, esconderijos, mortes, enfim, é a vida transfigurada em arte. A engrenagem social, roda-viva que gira incessantemente, projeta-se nas cenas fotografadas pela mente inquieta das personagens, constituindo assim um mosaico repleto de subjetividades. Exemplo maior dessa diversidade está nos chamados ‘romances mínimos’ de Mínimos, múltiplos, comuns (2003b).

O livro Mínimos, múltiplos, comuns constitui-se por estilhaços de romances unidos em sua incompletude. Nele não há espaço para a Constância e a Verdade; há, sim, ideias e imagens suspensas em um cosmo fragmentário. Todo e parte mesclam-se: cada ‘instante ficcional’ é um todo interdependente e é parte de um conjunto de indagações simbólica e reflexões metafóricas. Assim, a linguagem contribui para esse jogo de representações, desempenhando o seu papel de esfinge a nos desafiar a cada frase: ‘decifra-me ou devoro-te’. A (i)lógica narrativa ordena o livro a partir de diversos fragmentos, aninhados nos capítulos “A Gênese”, “Os Elementos”, “As criaturas”, “O mundo” e “O retorno”, os quais produzem um percurso artístico-literário que se encerra de modo complementar, cíclico. É por meio de sua organicidade que o livro pode ser lido como um todo disperso, porém convergente no que tange às múltiplas possibilidades da atividade criadora. Um big-bang de ideias e formas condensa-se em uma obra que nada tem de uniforme – ao contrário, ela expressa a heterogeneidade e a dissolução em que a humanidade se encontra.

Genética Extraviada

Os lapsos condenam. A mim, me salvam. Outro dia olhei um com toda a paciência. Somos parecidos: a ambos faltam partes e, onde a lacuna é norma, em nós pode saltar uma forma esdrúxula, um réquiem ornado de idílios, um troço assim ou, talvez, assado. De regra, o broto só arrebenta quando está apto a copiar a índole de sua arquidiocese. Para mim e o lapso, não: ambos nascemos de uma abrupta desregulagem. Só ganhamos porque botamos tudo a perder. Miramo-nos como gêmeos sobranceiros: sem herança da paternidade, vértice do impensável, memórias de uma genética extraviada. (NOLL, 2003b, p. 159)

Embebido na dispersão presente em Mínimos, múltiplos comuns e inspirado nas experiências pessoais vividas na Inglaterra, enquanto esteve como escritor residente na secular universidade King’s College London, o romance Lorde representa com profundidade a condição de estrangeiro. As sensações de desconhecimento de si e de estranhamento frente a uma identidade em ruínas tornam-se intensas a partir do processo de autoanálise pelo qual a personagem, distante de si e de seu lócus social de origem, reconhece-se enquanto ‘outro’. Os reflexos da transformação individual ocorrem, em Lorde, nos chamados não lugares e espaços vazios (BAUMAN, 2001). Os primeiros são aqueles ambientes de passagem, preenchidos cotidianamente por anônimos e temporários transeuntes, como vemos nos aeroportos, em ônibus e estações de trem, dos quais narrador-andarilho tira matéria para a sua transformação: “era desse material difuso da multidão que eu construía o meu novo rosto, uma nova memória” (NOLL, 2004, p. 34). Já os espaços vazios são destituídos de sentido e estão à margem da sociedade, a exemplo dos subúrbios londrinos pelos quais a personagem trafega e, de modo mais amplo, do próprio Brasil, que, mesmo distante, continua sendo rejeitado e temido pelo narrador. Tais lugares corroboram a subjetividade do narrador, que busca reencontrar a imagem perdida:

E pelas aleias comecei a caminhar. As aves marinhas gritavam ao fundo, não dava ainda para divisá-las. E continuei para além de uma aleia, fui me embrenhando pelo mato que tomara conta do lugar. Tudo ainda sem folhas, na aridez do inverno. Pulei um muro de pedras em ruínas, andei, andei me desvencilhan­do de galhos espinhentos. Como se de repente numa floresta encantada, às vésperas da primavera, eu fosse ter o meu lugar. (NOLL, 2004, p. 111)

Pelos exemplos aqui trazidos, podemos observar que o legado deixado por João Gilberto Noll é planetário. (Não)pertencimentos, trânsitos e corporeidades preenchem a estrutura poética de suas narrativas, as quais acolhem o que é rejeitado social e culturalmente. Ele recicla em sua literatura o que a sociedade descarta como lixo: as relações fragmentadas, a dissolução identitária, a sexualidade, a dúvida, o isolamento. Percebemos assim a luta individual frente a uma sociedade repleta de fragilidades e contradições – sob a perspectiva literária de Noll, podemos (re)visitar a obscuridade dos paradoxos humanos.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

NOLL, João Gilberto. Berkeley em Bellagio. São Paulo: Francis, 2003a.

NOLL, João Gilberto. Mínimos, múltiplos, comuns. São Paulo: Francis, 2003b.

NOLL, João Gilberto. Lorde. São Paulo: Francis, 2004.