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Impossível pensarmos em Barbosa Lessa sem nos lembrarmos do legado histórico e cultural do Rio Grande do Sul. Desde a literatura produzida por Simões Lopes Neto, no início do século XX, foram muitos os que se aventuraram a resgatar a identidade sul-rio-grandense por meio da cultura e das artes. Um exemplo dessa preocupação foi o início do movimento tradicionalista em nosso estado, a partir da década de 1940, com o qual houve a valorização do folclore gaúcho. Nessa época, em que Getúlio Vargas governava com mãos de ferro o país, a literatura cresceu significativamente nas regiões Sul e Nordeste. Surgiram obras voltadas à situação social e econômica do Brasil em perspectiva regional, como as de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Erico Verissimo, Dyonélio Machado e Cyro Martins, entre outros escritores. Além desse rico corpus literário, também tivemos a chamada Época de Ouro da música popular brasileira, com composições feitas por grandes nomes da canção, como Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi e Ary Barroso.

Enquanto se anunciava o final da II Guerra Mundial e, no Brasil, do Estado Novo, Luiz Gonzaga originava o baião nordestino e se popularizava o forró, competindo com o samba, principal ritmo brasileiro. No Sul, em 1947, era fundado o CTG 35, primeiro Centro de Tradições Gaúchas do Rio Grande do Sul. Entre os idealizadores desse grupo e da primeira Ronda Crioula, ocorrida no mesmo ano, estavam Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, nomes que marcaram a história do tradicionalismo. Assim, as artes gauchescas alcançaram maiores dimensões, organizando-se como movimento. Na música, diferentemente da ficção, buscou-se mais a valorização do sentimento pessoal do enunciador – a canção, em especial, representou um universo riquíssimo pela diversidade de ritmos e estilos. O tradicionalismo gerou, desse modo, ao contrário do que ocorria em outras regiões brasileiras, um movimento organizado de exaltação às tradições.

Mas é sobre Barbosa Lessa que queremos falar. Em uma época de transformações políticas, sociais e culturais, foi ele um dos principais responsáveis pelo amplo projeto de resgate da cultura gaúcha, iniciado a partir da década de 1940. Em meio a discursos hegemônicos norte-americanos e à feroz indústria cultural em expansão, houve, com Lessa e de outros fundadores do movimento tradicionalista, uma atitude de resistência ao imperialismo estrangeiro – atitude que culminou no resgate e na recriação da cultura sul-rio-grandense.

Ao longo de sua vida, Barbosa Lessa exerceu atividades como escritor, compositor, revisor de textos, folclorista, historiador, jornalista, colunista do jornal Zero Hora, produtor de teatro e cinema, secretário estadual da Cultura, configurando-se por uma pluralidade de fazeres. Em sua trajetória, recebeu diversas premiações, como a da Academia Brasileira de Letras pelo livro Os guaxos. Contudo, foi na canção popular que produziu seu maior legado cultural, com verdadeiros hinos gauchescos. Destacamos “Quero-quero”, “Negrinho do Pastoreio”, “Levanta, gaúcho”, “Bolseiros do rio Uruguai”, “Despedida” e o “Hino tradicionalista”. Suas composições contribuíram para a criação e divulgação de um estilo que se incorporou às tradições do gaúcho, visto que, no início de suas produções, não havia representação da música tradicionalista no Rio Grande do Sul como a temos hoje. Havia apenas alguns ritmos folclóricos, como “Boi Barroso”, bem como as canções de Pedro Raimundo, a exemplo de “Adeus, Mariana”, sem uma formação de conjunto.

Nascido em Piratini em 13 de dezembro de 1929, desde cedo, Luiz Carlos Barbosa Lessa manifestou vocação para a música, aprendendo piano e teoria musical com a mãe. Já aos 12 anos, no Ginásio Gonzaga, localizado em Pelotas, tocava violão no conjunto Minuano, por ele fundado. Aos 15 anos, o estudante do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, participou da criação do movimento tradicionalista, juntamente com um grupo de amigos. No início da década de 1950, trabalhou na pesquisa de informações sobre as danças folclóricas gaúchas, viajando por diversos municípios do estado. Com as informações coletadas, publicou, em colaboração com Paixão Côrtes, o Manual de Danças Gaúchas. Ao final da década de 1950, em São Paulo, integrou-se a compositores e intérpretes nordestinos e caipiras, como Inezita Barroso e Luiz Gonzaga, ampliando, assim, a divulgação da música gauchesca pelo Brasil. Com isso, assumiu um papel fundamental para a expansão de nossas raízes culturais. Voltou a Porto Alegre na década de 1970, época em que escreveu vários livros literários e didáticos. Em 2000, foi Patrono da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre e teve o conjunto de sua obra homenageado. Faleceu em 11 de março de 2002.

Nosso compositor também se destacou enquanto escritor, produzindo crônicas, ensaios, romances, poemas, livros didáticos e históricos, textos que compuseram um patrimônio de, aproximadamente, cinquenta livros publicados. Entre suas principais produções literárias, estão as seguintes: As mais belas poesias gauchescas (1951), História do chimarrão (1953), O boi das aspas de outro (1958), Os guaxos (1959), Cancioneiro do Rio Grande (1962), Danças e andanças da tradição gaúcha (1975), Rodeio dos ventos (1978), Lendas gaúchas (1979), Rio Grande do Sul, prazer em conhecê-lo (1984), Nativismo, um fenômeno social gaúcho (1985), República das carretas (1986) e Almanaque dos gaúchos (1997).

É por tudo isso que podemos comparar a vida de Barbosa Lessa, dedicada fervorosamente à cultura sul-rio-grandense, a uma chama que aquece as nossas tradições. Suas composições melódicas aliviam as tensões do cotidiano e alimentam a afetividade, fazendo-nos lembrar das palavras do pensador Theodor Adorno: “a música constitui, ao mesmo tempo, a manifestação imediata do instinto e a instância própria do seu apaziguamento”. O comprometimento de Barbosa Lessa com a arte, o folclore e a história do Rio Grande do Sul tornaram-no uma voz que ressoa em nossos pampas, aproximando pela cultura diferentes gerações.

*Texto de Cimara Valim de Melo publicado na edição de novembro da Evidência.