Autora foi patrona da Feira do Livro de Porto Alegre. Foto: Theo Tajes/Reprodução do Facebook

A impureza literária de Cíntia Moscovich

Cimara Valim de Melo

Henry James, reconhecido nome da cultura transatlântica, já dissera que o fazer artístico colhe seu material no jardim da vida (JAMES, 2003, p. 250) – a qual é transfigurada, na literatura, pelas mãos do autor. Ao observarmos a arte ficcional em sua capacidade de expressão, reconhecemos as infinitas possibilidades de representação da realidade, tendo vista sua abertura e multiplicidade.

“A casa de ficção não tem uma, mas um milhão de janelas – ou melhor, um número incalculável de possíveis janelas. Cada uma foi aberta, ou pode ser aberta, na vasta fechada, pela urgência de uma visão individual ou pela pressão de uma vontade própria.” (JAMES, 2003, p. 160)

Por meio da ambiguidade literária, com suas obscuridades, impurezas e sinuosidades estéticas, escritores contemporâneos, a exemplo de Cíntia Moscovich, cultivam a sensibilidade e a reflexão em meio a um mundo tantas vezes indiferente às mazelas cotidianas. Através da simplicidade com que maneja suas narrativas, a escritora apresenta um mundo marcado pelo descompasso, no qual encontramos a busca por sentido em uma realidade ao mesmo tempo hostil e atraente.

Escritora e jornalista porto-alegrense, Cíntia possui diversos livros publicados, reconhecidos e premiados pela crítica nacional e internacional, dentre os quais estão O reino das cebolas (1996), Duas iguais (1998), Anotações durante o incêndio (2000), Arquitetura do arco-íris (2004), Por que sou gorda, mamãe? (2006) e Essa coisa brilhante que é a chuva (2012) – recebendo com este, em 2013, o Prêmio Literário Portugal Telecom na categoria contos/crônica e o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional. Nesse mesmo ano, participou da delegação brasileira na Feira de Frankfurt e, em 2015, do Salão do Livro e da Imprensa em Genebra; já em 2016, a escritora foi escolhida como patrona da Feira do Livro de Porto Alegre – fatos que destacam o seu reconhecimento dentro e fora do Brasil.

Em O reino das cebolas, livro de estreia da autora, as relações humanas são exploradas em meio a questões individuais que emergem do cotidiano. As imagens que dão forma aos contos fazem-nos (re)viver experiências universais: adolescentes em plena descoberta; angústias maternas; desajustes familiares; amor, perda, memória. Elas anunciam, assim, a vida de modo áspero e cômico, em que o estranhamento surge do dia a dia mais ordinário.

Já em Anotações durante o incêndio, encontramos contos distribuídos em dois capítulos: ‘A fumaça’ e o ‘O fogo’. Embora tratem de diferentes temáticas – o judaísmo, os relacionamentos amorosos, o tempo, os desequilíbrios do íntimo humano, a morte – as narrativas estão, na verdade, entrelaçadas pelo constante extravasamento de sensibilidade que surge de uma prosa com características poéticas. Belo e absurdo tramam-se frente a paixões devastadoras – pela vida, pelo outro, pela família, pelo ‘eu’ –, acompanhadas de sofrimento e ilusão. Temos, por exemplo, o desconcerto da judia Ethel, ao se deparar com o amor incondicional do estrangeiro Edward, e os anseios de Eugênio fisgados pela professora aposentada: “Os jovens e os velhos apaixonam-se depressa – os jovens porque viveram muito pouco, e os velhos porque muito pouco ainda viverão.” (MOSCOVICH, 2001, p. 122) Percebemos, portanto, uma coleção de momentos, os quais são costurados pelo trabalho narrativo da autora:

“Existem várias maneiras de se contar a mesma história. Sempre tive tal fato muito em conta, guardado no frágil porão de minhas certezas, talvez a única delas – das certezas – que me serve de luz para alguma coisa. Escolho, então a forma imprecisa das digressões, a memória como fluxo recorrente destas ondas que vem ali bem pertinho, e voltam ao lugar que as gerou.” (MOSCOVICH, 2001, p. 53)

Já a respeito de Arquitetura do arco-íris, Luis Fernando Verissimo (apud MOSCOVICH, 2004) não deixa dúvidas: “Se ‘apenas’ escrevesse bem, a Cíntia já seria superlativa: há coisas neste livro tão bem escritas que tiram a respiração”. Nos contos que formam o livro, equilíbrio e desequilíbrio interagem com as perversidades cotidianas, provocando um jorro de lembranças, imprecisão e descoberta. As personagens estão repletas de “supérfluos extraordinários”, acumulando ausências e destroços do passado, alegrias desfeitas, morte, humilhações e esperança. Destaca-se, acima de tudo, a delicadeza do que fica obscuro nas entrelinhas. A exemplo da música que faz um cego enxergar além da eterna noite, temos histórias nas quais oscilam imagens epifânicas, tais como as que Virgínia Woolf (2003) chamou de visões, ou pequenos fósforos acesos na escuridão.

Nas narrativas de Cíntia Moscovich, o tempo possui as marcas da subjetividade. Ele é apreendido pela experiência humana, tornando-se irregular e mutável, cuja falta de linearidade acentua o caráter psicológico das obras. As personagens vivem a impermanência temporal, posicionando-se entre o que está consumado e o que está por vir. Os espaços, por sua vez, são essencialmente urbanos, públicos ou privados, e é por eles que o indivíduo se fecha em si mesmo, produzindo fronteiras em sua existência solitária.

Impossível sairmos ilesos da literatura de Cíntia Moscovich. Em suas histórias, impera o detalhe, o suposto supérfluo, os diferentes momentos da vida diária. Dessas insignificâncias, contudo, brota o essencial, fruto da reflexão e da descoberta. É por isso que nos sensibilizamos como leitores: a sua escrita é fruto da essência impura do ser humano.

“Escrever foi o que me atrapalhou sempre na vida, uma maldição que é igual a ter repouso na tristeza. É algo que eu sei, é só o que eu sei, de um saber sem esforço, embora me custe me custe me custe – nenhum saber é tranquilo. Então é isso: escrevo porque é o que me foi dado fazer no mundo, porque acho que eu nasci com isso.” (MOSCOVICH, 2004, p. 170)

Descobrimos, pois, a impureza literária de Cíntia Moscovich – por meio da lucidez de suas narrativas, vemo-nos impelidos ao confronto com a sujeira da vida diária, suas mazelas, entrelaçadas aos mais antagônicos sentimentos. É pela mescla de beleza e precariedade que se compõe a truncada arquitetura da alma humana.

Referências

JAMES, Henry. A arte do romance: antologia de prefácios. São Paulo: Globo, 2003.

MOSCOVICH, Cíntia. Anotações durante o incêndio. 2.ed. Porto Alegre: L&PM, 2001.

MOSCOVICH, Cíntia. Arquitetura do arco-íris. Rio de Janeiro: Record, 2004.

WOOLF, Virginia. Rumo ao farol. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.