Foto: Otávio Magalhães/Reprodução Estadão

Texto de Cimara Valim de Melo

Digo adeus à ilusão

mas não ao mundo. Mas não à vida,

meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação, da tortura,

do terror,

retiramos algo e com ele

construímos um artefato

um poema

uma bandeira.

Ferreira Gullar

O cenário brasileiro da segunda metade do século XX é marcado não apenas pela intensa massificação cultural e pela enxurrada tecnológica, mas também pela sombra deixada na sociedade pela Ditadura Militar. Frente a esse contexto de paradoxos, a arte mostra-se como caminho para a tradução dos enigmas de nosso tempo. A impostura da poesia, por sua vez, relaciona-se à ousadia e à liberdade, e sua multiplicidade associa-se às funções sociais do poeta moderno – indagador, filósofo, profeta – que, muitas vezes, desafia o todo ao seu redor. É desse terreno fértil que brota a produção poética de Ferreira Gullar.

Embora tantas vezes deslocado em um mundo contraditório, o poeta, tradutor, dramaturgo, ensaísta e cronista Ferreira Gullar apropriou-se da palavra para esboçar possibilidades de vida em meio à dor e à injustiça. Nascido no Maranhão em 1930, desde cedo conviveu com a falta de condições para uma vida digna, fato que, vinculado ao gosto pela escrita, gerou uma de suas características mais relevantes – a denúncia através dos versos. Cedo o jovem Gullar ingressou no universo editorial, trabalhando no Diário de São Luís, na Rádio Timbira e, com a mudança para o Rio de Janeiro, nas revistas Manchete, O Cruzeiro e no Diário Carioca. Em 1954, lançou A luta corporal – livro que se aproxima das tendências concretistas – e casou-se com a atriz Thereza Aragão, com quem teve três filhos. Por não concordar plenamente com o Concretismo, Gullar tomou outros rumos, escrevendo em 1959 o Manifesto Neoconcreto em conjunto com outros artistas. Dois anos depois, foi nomeado diretor da Fundação Cultural de Brasília, coordenando a construção do Museu de Arte Popular; com isso, passou para uma nova fase de sua produção, a qual envolveu a publicação de poemas de cordel.

Onde está

a poesia? indaga-se

por toda parte. E a poesia

vai à esquina comprar jornal.

(GULLAR, 2001, p. 223)

Nos anos de 1960, enquanto trabalhava como redator no jornal O Estado de São Paulo, Ferreira Gullar engajou-se politicamente em resistência ao Regime Militar, o que o levou a perseguições e ao exílio – assim como ocorreu com outros artistas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Dentro da noite veloz foi publicado em 1975 a partir dessa conjuntura; no mesmo ano, ao encontrar-se com Vinícius de Moraes em Buenos Aires, Gullar entregou a ele uma fita cassete com a gravação de Poema sujo – é assim que a obra chega ao Brasil, trazida clandestinamente. O livro-poema, considerado sua obra-prima, apresenta uma composição de longo fôlego, que exala doença, solidão, pobreza, ou seja, sensações do submundo urbano em uma obra “suja de vida”. Sua linguagem, tão arbitrária quanto o cotidiano envereda pela ruptura sintática’ acompanhada de um vocabulário terreno. O verso livre, a pontuação não usual e a disposição assimétrica das palavras no papel fazem com que possamos observar o paradoxo existente entre a agressividade e a humanização da poética gullariana. Testemunha de uma realidade injusta e dilacerada, cruzada por conflitos e múltiplas experiências culturais, Gullar representa nessa obra a lucidez frente à poesia e a revolta em um mundo vazio de sentido. São as farpas da repressão militar cravadas no corpo literário.

muitos

muitos são os dias num só dia

fácil de entender

mas difícil de penetrar

[…]

porque não é possível estabelecer um limite

a cada um desses

dias de fronteiras impenetráveis

(GULLAR, 2001, p. 251)

Em 1977, Ferreira Gullar retornou ao Brasil, mas ainda sofreu na pele as ameaças do Governo Militar. A partir daí, dedicou-se a uma vasta produção poética, que inclui as obras Na vertigem do dia (1980), Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999) – Prêmio Jabuti de poesia. Também se dedicou a outros gêneros literários, escrevendo ensaios, memórias, crônicas e literatura infantojuvenil, como O rei que mora no mar (2001). Em meio a essa busca desenfreada pela palavra, Gullar experimentou caminhos da tradução e do teatro, trabalhando durante anos no Núcleo de Teledramaturgia da Rede Globo. Foi nomeado, em 1992, Diretor da do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, que voltou a ser intitulado Funarte sob sua gestão. Em 1998, foi homenageado no Festival Internacional de Poesia de Roterdã, na Holanda.

Nos últimos anos de sua vida, prêmios e homenagens foram dedicados a esse feroz incentivador da arte no Brasil, escritor que fez da escrita veículo de luta pela (re)humanização da sociedade e, ao mesmo tempo, de resistência às contradições de um tempo opaco. A exemplo, a obra Resmungos (2006) recebeu o Jabuti de Melhor Livro de Contos e Crônicas em 2007, seguida por Em alguma parte alguma, Livro do Ano em 2011. Além disso, foram a ele concedidos o prêmio ABL de literatura infantojuvenil pela obra Zoologia Bizarra (2011), o prêmio Luís de Camões (2010) e a Ordem do Mérito Cultural (2016), entre outras condecorações. Em 2011, Poema sujo foi matéria para a videoinstalação Há muitas noites na noite, de Silvio Tendler, e, em 2015, para a série documental de mesmo nome, também dirigida por Silvio Tendler – esta conta com detalhes a relação entre a vida de Gullar, a Ditadura Militar e sua poesia participante. Em 2014, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 37. Faleceu dois anos depois, na cidade do Rio de Janeiro, deixando um legado poético sem igual, que o posiciona como o grande poeta de resistência da literatura brasileira contemporânea.

– sei que dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro

a a liberdade, pequena.

(GULLAR, 2001, p. 251)

Com Gullar, percebemos que o espaço da poesia precisa ser aberto à vida do arroz com feijão, do operário, das intempéries que assolam a sociedade. A resistência poética dá-se principalmente pela negação à desordem, ou melhor, à falsa ordem imposta em tempos incongruentes. Deslocado em seu tempo, o poeta abre caminho pela sátira e pela ironia fumegantes, pelo olhar revolucionário que não se compadece com os erros de sua época, pela poesia terrena, perigosa e comunicante. Sua crítica sociopolítica trouxe-lhe graves consequências; contudo, essas intervenções não foram suficientes para fazê-lo calar-se. Ao contrário, despertaram ainda mais o desejo pela liberdade por meio da escrita. Assim, Gullar ultrapassa as fronteiras literárias com sua produção poética, semeando a esperança em momentos de arbitrariedades políticas, crise cultural e angústias sociais. Em suas obras, encontramos experiências, ganhos, perdas, angústias e esperanças do povo brasileiro; portanto, é a problematização do humano que consolida a multipoesia de Ferreira Gullar.

Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus. Mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.

(GULLAR, 2001)

Referências

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. 11.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.

Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

(GULLAR, 2001, p. 335)