Grupo faz apresentações há cerca de 15 anos. Foto: Revista Evidência

Uma das maiores alegrias para um pai é ver os filhos seguindo seus passos, interessando-se pelas mesmas coisas, dando continuidade a tradições familiares. Ormindo Cardoso (82) tem essa felicidade. Os filhos Jurandir (63), Airton (56), Ademir (54) e Valdenir (42) compartilham o mesmo gosto pelo Terno de Reis e se uniram a ele para formar o grupo Estrela Guia, que mantém a tradição viva em Gravataí. Airton é o Mestre Carreteiro, já o irmão mais velho, é seu ajudante. Valdenir é o contramestre e Ademir tem a função de ajudá-lo. Eles tocam violão, gaita e cavaco. O primo Marcelo Fraga (31) é o gaiteiro e Seu Ormindo toca banjo e substitui algum dos integrantes quando necessário.

Os conjuntos de cantores populares que contam, em versos, a viagem dos Reis Magos para conhecer o menino Jesus, são cada vez mais raros na região. Os que ainda preservam a atividade, lamentam que os mais jovens não demonstrem interesse por garantir a continuidade desse costume, mas afirmam que interromper o trabalho não está nos planos. “Enquanto eu puder caminhar, tiver força, vou continuar nessa peleia, porque ter um grupo de Terno de Reis com meus filhos era um sonho”, relata Ormindo.

O patriarca da Família Cardoso encanta-se desde guri pela tradição do Terno de Reis. Chegou a fazer parte de alguns grupos até ver o sonho se concretizar: a família fundou o Estrela Guia em 2004. Desde então, eles vêm participando de eventos em várias cidades, como Porto Alegre, Cachoeirinha, Palmares do Sul, Mostardas, Dois Irmãos, Novo Hamburgo, Campo Bom e Santo Antônio da Patrulha. Em Caraá, onde nasceu o grupo, e Gravataí, onde reside o mestre, além das visitas em alguns lares durante o ciclo natalino, costumam fazer apresentações a convite da Prefeitura de Gravataí. Sempre participaram, por exemplo, do Encontro de Ternos de Reis promovido na Paróquia Nossa Senhora dos Anjos.

Airton destaca que os versos são improvisados e cada visita a uma residência é carregada de emoção. “Nem todos conhecem, porém muitos gostam de receber e ouvir o Terno de Reis. Ao receber um grupo em casa, quase sempre as pessoas se emocionam”, comenta. Recepcionados com carinho e alegria, os músicos também ficam felizes com o reconhecimento da comunidade, que, muitas vezes, pede a visita do grupo muito antes do Natal.

Nesses 15 anos de trajetória, o Estrela Guia tem ajudado a preservar a tradição e, mais, mostrado o apoio da família é imprescindível. “Aprendemos a cantar com nosso pai. É uma paixão que passou para os filhos. Mas manter um Terno de Reis é difícil. Nem todos entendem o comprometimento, contudo o incentivo dos familiares é muito importante”, salienta Airton, explicando que apresentações na véspera e no Natal fazem parte da rotina dos conjuntos.

Tradição popular

Pela tradição, os grupos de Terno de Reis realizam visitas às casas de familiares e amigos de 20 de dezembro a seis de janeiro (Dia de Reis) para apresentar, por meios de cantoria, a viagem dos Três Reis Magos à Belém, com o intuito de conhecer e homenagear Jesus. Nos lares, os cancioneiros seguem uma ordem de apresentação: chegada (o terno canta do lado de fora da residência, pedindo para que o dono da casa abra a porta), entrada (a saudação é realizada aos donos da casa), louvação (versos celebram o nascimento de Jesus), versos sobre a estrela-guia e a visita dos reis, agradecimentos (componentes agradecem a acolhida) e despedida.