Foto: Daniela Dimer

“Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia em sua vida.” A famosa frase atribuída ao filósofo Confúcio representa o sentimento de Murilo Correa da Silva (30) pela profissão que escolheu. Graduado em Enfermagem, há cinco anos, o especialista em terapia intensiva, presta atendimento a pacientes com suspeita e diagnóstico de Covid-19 e se depara, diariamente, com os desafios de uma carreira cuja essência está na empatia e na determinação por cuidar das pessoas. Foi a própria experiência de vida que o motivou a se tornar enfermeiro. Ainda na infância, viu os pais ficarem doentes. Aqueles que cuidavam de toda a família, agora precisavam de auxílio. Cuidou deles. Após um dia acamados, com sintomas de gripe, e recebendo toda a atenção do filho, se recuperaram.  “Foi o momento em que notei que estava nesse mundo para cuidar das pessoas”, frisa.

Naquela ocasião, o caminho profissional ficou claro. Murilo entendeu que a Enfermagem era sua vocação e trabalhar pela saúde e bem-estar dos outros, sua missão. “Trabalhamos com vidas. Não é possível colar o que quebrou, trocar a peça que estragou sem a presença da dor, do medo, da ansiedade. Penso que nós, enfermeiros, temos o papel de acolher, cuidar, orientar, com o objetivo de amenizar essa apreensão. Vidas podem ser salvas por nós. Em torno do enfermo, temos um círculo familiar que está envolvido na situação. É nossa parte acolher e cuidar desse círculo também.” A gestão de equipe é um dos desafios que os profissionais dessa área encaram no desempenho de suas funções. Diariamente, é preciso montar um “quebra-cabeça” para que a assistência aos pacientes possa ser realizada da melhor maneira. A correria do plantão é cansativa, claro, mas é gratificante quando um paciente recebe alta e se dirige ao posto de enfermagem para agradecer pelos cuidados que recebeu. “O coração da gente palpita de alegria! Isso me faz vir para o trabalho, todos os dias, sempre com o intuito de dar o meu melhor.”

Durante a recuperação de um paciente com Covid-19, o isolamento é uma questão de fundamental. Contudo, todos sabemos que ficar longe de quem amamos é muito difícil. Em seu trabalho, o enfermeiro presencia cenas emocionantes quando alguém que se curou reencontra a família. “É o momento no qual os olhos falam mais do que a boca.” Murilo é daquelas pessoas que gosta de demonstrar seu afeto, abraçando, beijando, pegando no colo, interagindo com os outros. Por essa razão, compreende a falta que os familiares e amigos fazem para um paciente isolado. No entanto, ele salienta que o momento é de colocar a prevenção em primeiro lugar. Este gesto também é uma demonstração de carinho e amor. Para segurança da esposa, Jéssica Machado Soares (24), e do filho, Bento, de apenas um aninho, o enfermeiro não abre mão do uso dos equipamentos de proteção, da higienização frequente das mãos e demais medidas necessárias para evitar a contaminação. Os passeios, as rodas de chimarrão, os encontros com os familiares e amigos fazem falta, todavia, é pelo bem dessas pessoas, que o momento exige as mudanças de hábitos.

O especialista em terapia intensiva acredita que entre setembro e outubro, o movimento nos hospitais, decorrente da Covid-19, deva diminuir. “Passando essa época de frio, que acentua os problemas respiratórios, vai ficar tudo mais tranquilo e controlado”, comenta. Enquanto isso, além de cuidar de si e dos outros, a dica é se manter otimista e esperançoso de que logo a pandemia irá passar.

*Este é um dos textos que compõem a matéria de capa da Evidência de agosto.