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Não há fronteiras para o trabalho humanitário
O principal compromisso de um médico é cuidar das pessoas, buscando salvar vidas. No mês em que é celebrado o dia da profissão (18 de outubro), conheça a história de Marcelo Leone de Souza Lima (54), que nesta edição, através de seu exemplo, representa uma das categorias que mais prestigia o trabalho da Evidência: a área médica. Com 29 anos de profissão e especialização em Ginecologia e Obstetrícia, ele acredita que o trabalho jamais pode deixar de lado o caráter humanitário. Por essa razão, o profissional atuante em Gravataí participou este ano de uma missão realizada pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), na região Somali, da Etiópia. Foram três meses no país africano, prestando atendimento a milhares de necessitados. O gravataiense partiu para o voluntariado no exterior em busca de desafio e aprendizagem e voltou para a casa com o sentimento de dever cumprido.
 
De 18 de fevereiro a 18 de maio, Marcelo esteve na tríplice fronteira entre Quênia, Somália e Etiópia. Sempre teve vontade de participar de uma missão semelhante, por isso resolveu se inscrever no programa e desde julho do ano passado se preparava para a viagem. Buscou aprimoramento no Inglês, visto que uma das exigências aos profissionais que se cadastram na MSF é ter fluência neste idioma ou no Francês. Posteriormente, o processo seletivo incluiu entrevistas, nas quais além da documentação, foram avaliadas as intenções e aptidões. O médico explica que após estas etapas, o voluntário deve aguardar o chamamento para um trabalho social. O lugar e o tempo da ação, que pode ser de três meses a um ano, são determinados pela organização. “Não escolhemos para onde vamos, pois o objetivo é ajudar, não importa em qual lugar.”
 
Segundo o voluntário, o programa desenvolvido pela Médicos Sem Fronteiras tem a meta de chegar a lugares onde há muitas vidas em risco, seja por causa de epidemias, desastres naturais ou conflitos armados. A iniciativa é baseada em valores como imparcialidade e independência e sustenta-se majoritariamente com doações de pessoas físicas. Na Etiópia, o atendimento é feito desde 1984. O especialista relata que havia muita procura de atendimento médico porque o local tem um grande déficit de profissionais e serviços na área. Ele ressalta que a maioria das mulheres foi vítima de mutilação genital. Embora a prática seja proibida, ainda é comum na região Somali. O hábito surgiu a partir do pensamento de que as mulheres não deveriam sentir prazer e, dessa forma, permaneceriam “puras”. Há também muitos casos de desnutrição, reflexo das condições em que vivem os moradores. Os índices de mortalidade são altos e situações frequentes no país são a falta de água e alimentos. 
 
Dedicação é um requisito para os voluntários da MSF. O médico alerta que a demanda de trabalho é enorme. Mesmo assim, nunca ouviu ninguém reclamar ou demonstrar má vontade. A equipe ficou em um alojamento, distante uns três quilômetros do hospital. O deslocamento era feito de jipe. As atividades ocorriam de segunda a sábado, das 8h às 18h. No domingo, todos aproveitavam para descansar um pouco ou praticar esportes. Em caso de emergências, o médico era acionado. 
 
A primeira missão
A primeira semana foi a mais difícil em termos de adaptação ao ambiente. O alojamento ficava em um deserto. O médico precisou se adaptar ao clima muito quente, com temperaturas acima dos 40 graus. Mas nada disso fez com que o profissional desanimasse. Ele afirma que fazer o bem foi gratificante. “A missão deixou o aprendizado de que somos todos irmãos e sozinhos não vamos a lugar nenhum. Essa foi minha primeira experiência internacional, mas com certeza não será a única”, garante, antecipando que pretende participar novamente da MSF ou ingressar em outro grupo que promove ações semelhantes em Moçambique. 
 
A equipe
Em uma equipe de 320 pessoas, Marcelo era o único médico. Todos trabalharam para atender em torno de 300 mil pessoas. Havia enfermeiros, cerca de 40 parteiras (midwives), além de outros auxiliares, inclusive para os serviços administrativos. Vários etíopes foram contratados para colaborar com os atendimentos. A comunicação com quem não falava Inglês se dava através de uma intérprete, pois a língua oficial da Etiópia é a Amárica. De acordo com o obstetra, foram realizadas centenas de partos no período. A média de nascimentos na região é de 300 ao mês. As parteiras, bastante atuantes no país, auxiliavam nesse trabalho. 
 
Impressões sobre o povo etíope
A população tem um orgulho muito grande do país. Foi uma das conclusões do médico, após o trabalho humanitário. “A Etiópia foi um dos poucos países africanos que não foi dominado por outro. E isso é motivo de orgulho para eles, que tem o sentimento de liberdade muito forte.” O especialista também indica que eles são muito respeitosos com as diferenças, principalmente as de religião. Em alguns aspectos é possível notar como a cultura se diferencia da brasileira. Enquanto aqui, a população costuma manifestar mais os sentimentos, lá, o povo é mais reservado. “Os etíopes são muito honestos e não têm apego as coisas materiais, dividem o pouco que possuem. Provavelmente por causa de sua realidade, não são consumistas. Percebi que muitos têm um coração bom e gostam de aprender”, comenta. 
 
Assistência na cidade 
O voluntariado já faz parte da vida de Marcelo há anos. Ele é o coordenador técnico da Liga Feminina de Combate ao Câncer, criada em Gravataí há aproximadamente 12 anos. O grupo promove vários eventos, até mesmo no sábado para que mais pessoas tenham acesso aos serviços. Além de ações no município, o órgão inclui atividades em Glorinha. A Liga vai participar do Outubro Rosa, organizando uma programação em parceria com a Prefeitura, Sindicato do Comércio Varejista (Sindilojas) e o Shopping Gravataí. No dia 7 de outubro, das 14h às 19h, uma estrutura será montada no shopping para a coleta de exames do público feminino. No dia 21 de outubro, testes rápidos e orientações sobre saúde ocorrerão no posto São Judas. No dia 28 deste mês, será a vez da unidade da Morada do Vale I receber as atividades. 
 
Histórico da organização
A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras foi fundada em 1971, na França. A iniciativa partiu de profissionais da área e jornalistas que tinham realizado voluntariado em Biafra, na Nigéria. Na época, o grupo pôde notar as dificuldades de acesso ao local e os entraves burocráticos e políticos, ainda existentes em algumas nações. Além de ajuda médica, a instituição visa a sensibilização quanto às situações vivenciadas pelos pacientes. O programa está presente em aproximadamente 70 países e já conquistou o Prêmio Nobel da Paz, em 1999. 
 
Desnutrição é um dos quadros mais graves da população infantil
O tratamento em virtude da desnutrição aguda grave é um dos principais focos do MSF na Etiópia. Dados divulgados pela organização mostram que, em conjunto com autoridades de saúde africanas, foram instalados 27 centros de nutrição terapêutica ambulatoriais e quatro de internação para tratar crianças com este quadro clínico. Em cinco regiões do país foram tratados 6.136 meninos e meninas com menos de cinco anos, entre janeiro e junho desse ano. O número é dez vezes maior do que a quantidade que recebeu esse tratamento em 2016. Desde o início do atendimento voluntário para o povo etíope, mais de 60 mil casos de desnutrição foram admitidos em programas intensivos ou ambulatoriais. 
 
Atendimento em números
Atuação da MSF*:
Cerca de 8,7 milhões de consultas ambulatoriais realizadas
Mais de 2,3 milhões casos de malária tratados
Aproximadamente 1,6 milhão de pessoas vacinadas contra o sarampo
Em torno de 600 mil internações
Mais de 340 mil pessoas com Aids recebendo assistência médica
*Dados divulgados pela organização humanitária com base em junho de 2017.
 

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