ARTIGOS

Talento

Cada traço é fruto de muita imaginação
Na infância, a timidez fazia com que Dane D’Angeli (39) tivesse dificuldade para interagir com os colegas de escola e até mesmo familiares. Foi por isso que ele tornou o desenho um aliado na construção das próprias histórias. “Construía realidades paralelas através da arte, do desenho, das cores”, frisa. Com o tempo, porém, mais do que um hábito de criança, a atividade possibilitou a descoberta de um talento. O porto-alegrense, residente na Morada do Vale I, tornou-se ilustrador e hoje trabalha com a produção de livros e oficinas artísticas por todo o Brasil. O profissional também coordenou a Regional Sul da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ).
 
Na opinião de Dane D’Angeli, desenhar é um processo natural da criança, mas que geralmente se perde com o passar dos anos, reflexo do sistema educacional brasileiro. “Na escola, as crianças perdem, aos poucos, essa naturalidade ao expressar-se, pois são obrigadas a seguir padrões que acabam inibindo e bloqueando o canal criativo latente em todo o ser humano. É isto que faz com que a maioria das pessoas deixem de desenhar lá pelos sete, oito ou nove anos”, comenta. Embora não tenha deixado o desenho de lado, o ilustrador revela que demorou a reconhecer que poderia viver da própria arte. “No Brasil há uma grande e desestimuladora mentira que ouvimos desde pequenos: a de que arte não dá dinheiro. O que falta é determinação, muito estudo e organização”, salienta. Segundo o artista, todo incentivo financeiro é bem-vindo, porém não se pode depender exclusivamente disto para trabalhar. “Vejo muitos jovens artistas reclamando que se não há incentivo fica difícil. Eu mesmo pensava assim. Os caminhos da arte são difíceis, paga-se um preço alto ao trilhá-lo, mas vale a pena perceber que os frutos de um bom trabalho surgirão ao longo desta trajetória”, afirma.
 
Atualmente, grande parte do trabalho de Dane consiste na produção de ilustrações para livros infantojuvenis e na realização de oficinas artísticas. Ele também concilia as atividades com os ofícios de músico e poeta, apontando que tem muitos textos na “gaveta” e planeja publicá-los futuramente. Até hoje, 20 livros ilustrados pelo profissional foram lançados. O primeiro, chamado O sapo, a bruxa e a corrente do bem, da escritora criciumense Cármen Neves, foi publicado em 2011. A obra mais recente é Infância, criança e literatura: diversos olhares, da Editora da Universidade Federal de Rondônia. D’Angeli se dedica ainda a elaboração de ilustrações para outras quatro publicações e uma exposição, cuja data e local ainda serão definidos.
 
Reconhecimento ao trabalho
Quando um artista tem o trabalho reconhecido, mais do que orgulhoso, sente-se motivado a continuar no caminho da arte. Dane sabe bem disto. Recentemente, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) divulgou a lista de obras selecionadas para o catálogo que será apresentado na Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália. O livro Cobra Norato e outras miragens, escrito por Eloí Bocheco e ilustrado pelo artista de Gravataí está entre os contemplados. “Tanto o evento quanto o catálogo são referências do que há de melhor em literatura para crianças e jovens”, comemora o ilustrador.
 
Uma família que respira arte
Conforme D’Angeli, o início da carreira não foi nada fácil. Contudo, ele contou com uma grande incentivadora, a esposa e também artista visual Michelle Van Dyke (35), nascida em Traverse City, Michigan, nos Estados Unidos. Ela tem se dedicado a produção de trabalhos abstratos produzidos com caneta esferográfica. No ano passado, Michelle foi uma das agraciadas com o Prêmio Dana de Incentivo às Artes Visuais, tendo apresentado a exposição Algumas Sutilezas, no Quiosque da Cultura. Outras mostras recentes com a participação da artista ocorreram no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e na Bienal de Guarulhos, em São Paulo. Além do casal, os filhos Igor (14), Artur (8) e Heitor (6) já demonstram interesse por trabalhos artísticos. O pai guarda fotos de vários desenhos produzidos pelos garotos.
 

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