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Carnaval

Nascimento de um grande amor pela Onça Negra
A pequena Giovanna Nascimento tem apenas um aninho, ainda não entende o que é o Carnaval e toda a sua grandeza no Brasil, mas quando ouve falar na Escola de Samba Acadêmicos de Gravataí, já arrisca uma dança, fica animada. Detalhe: não precisa, necessariamente, de música para isso. Às vezes, basta escutar o nome da entidade carnavalesca. Uma futura passista? Porta-bandeira? Rainha da bateria? Só o tempo vai dizer, claro, porém a probabilidade é grande. Isso porque “o amor ao Carnaval está no sangue”, como argumentam os familiares. A menina é bisneta de Adalberto Nascimento, fundador da Acadêmicos ao lado do amigo Airton Santos, que era chamado de Catuta.
 
No dia 26 de fevereiro, a escola de samba gravataiense completa 57 anos. Sua origem está relacionada ao time de futebol da Associação Cultural e Beneficente Seis de Maio, fundada nos anos 50 (equipe esportiva Três de Maio). O atual vice-presidente da Acadêmicos de Gravataí, Anderson Nascimento (28), conta que seu avô Adalberto fazia parte da equipe, que se destacava em diversas competições pelo estado. “Chegaram a jogar 57 partidas sem perder”, acrescenta Vera Nascimento (77), esposa do fundador, que faleceu em agosto do ano passado aos 81 anos de idade. Na época, a torcida, formada principalmente pelas mulheres dos jogadores, era conhecida como “Onça Negra”, em especial pela determinação com que acompanhava as disputas.
 
Cada encontro do time era marcado por uma grande confraternização, na qual não faltava música e dança. Após os jogos, que ocorriam em um campo da Várzea – área na qual se encontra hoje em dia a Brigada Militar -, todos se reuniam em um bar no Centro. Surgiu então a vontade de vincular o clube ao Carnaval. Nem todos os membros do clube Seis de Maio concordaram, no entanto, com a ideia. Mesmo assim, foi criado o bloco Acadêmicos do Samba, que em pouco tempo, ganhou notoriedade e, com isso, mais integrantes. Bailes e, posteriormente, desfiles na rua (sem carros alegóricos) marcaram época na Aldeia. Com o passar dos anos e o desenvolvimento das manifestações carnavalescas, o grupo passou a desfilar como a Escola de Samba Acadêmicos de Gravataí. O símbolo escolhido para a instituição foi a Onça Negra e as cores, o vermelho, preto e branco.
 
Dedicação incontestável
Adalberto não foi apenas um dos fundadores da Acadêmicos de Gravataí, mas um de seus maiores colaboradores. Ele foi presidente e exerceu outras funções na diretoria, auxiliou na organização dos eventos, arrecadação de recursos, desfilou e, sobretudo, não mediu esforços para ver a escola do coração brilhar na avenida. Até podia comentar “este ano não vou desfilar”, contudo, não conseguia ficar longe. Orgulhosa, a Família Nascimento recorda muitas situações nas quais o gravataiense mostrou que dificuldade alguma o desanimaria no Carnaval. Numa ocasião, por exemplo, um dos carros alegóricos perdeu o controle e bateu. O carnavalesco não pensou duas vezes, assumiu a condução e resolveu o problema.
 
Obter recursos e apoiadores para o evento sempre foi um obstáculo. Vera lembra que certa vez, há menos de três dias do desfile, não havia dinheiro para as fantasias da bateria. A costureira era taxativa: sem pagamento, não entregava as peças. O que fazer? Adalberto conversou com a esposa e ambos decidiram aplicar recursos próprios. O fundador ajudava no que fosse preciso. Com a proximidade do Carnaval não deixava de acompanhar o trabalho no barracão de perto. Um reparo aqui, uma mãozinha lá, qualquer coisa, ele se dispunha a fazer em prol da Onça Negra. Até mesmo compor foi uma de suas atividades. “Vou saudar esse povo presente, como os foliões deste Carnaval. A minha escola é pequena e decente, mas para você ainda tem lugar. Felicidade para vocês que estão aqui, não há tristeza, todo mundo a sorrir. Salve, salve, salve o povo de Gravataí” é o trecho de uma das letras.
 
Família unida na folia
O amor pelo Carnaval passa por gerações na Família Nascimento. Não à toa, a Acadêmicos conta há cerca de quatro anos com uma ala nomeada em homenagem a eles. Todos os integrantes estão envolvidos de alguma forma com a escola, com o intuito de levar adiante a história iniciada por Adalberto. Eles fazem folia e também se emocionam juntos a cada conquista da Onça Negra. Anualmente, após o desfile em Porto Alegre, eles vão para a praia. Esquecem o Carnaval? Claro que não! Ficam ansiosos esperando o resultado. Uma das maiores emoções da família foi a conquista do segundo lugar em 2016, com o enredo Entre as Águas de Pará-Gûasu e da Mirim – Gravataí é Taim. “Todo mundo chorava e se abraçava, foi uma grande emoção para o meu avô”, comenta Anielle Nascimento (26). “E foi um orgulho para ele ver um neto – Anderson –, que era da diretoria, conquistar o título”, completa Andrielle Nascimento (19), que comanda a Diretoria Jovem na atual gestão.
 
Desfile em Porto Alegre
Em Gravataí não estão previstas muambas ou desfiles, por isso até o momento apenas a apresentação no Grupo Especial do Carnaval de Porto Alegre está agendada pela Acadêmicos. Conforme o vice-presidente, mais uma vez, a entidade enfrentará dificuldades para o evento, visto que a administração municipal da capital não dará nenhum incentivo financeiro. De qualquer forma, a Onça Negra decidiu que estará na passarela do Complexo Cultural do Porto Seco, no dia 24 de março. O tema-enredo será Oribá, em romaria ecoa o axé, Gravataí Evoé! “Em uma conjuntura na qual a cultura, em especial a do Carnaval, enfrenta diversas dificuldades, cada componente se revestirá de romeiro rumo ao altar do samba, que se transformará em santuário da miscigenação, no qual se celebrará a festa das lutas e conquistas históricas da nação brasileira”, afirma Anderson. A apuração será no dia 26 do mês que vem. A programação carnavalesca na capital incluirá ainda as tradicionais descidas da Avenida Borges de Medeiros, nos dias 23 de fevereiro e nove de março; muamba em 22 de março; e desfile da Série Prata, no dia 23 de março.
 

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